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'Ponto Quarenta': A Volta dum Clássico da Literatura Policial Brasileira

O primeiro livro do ex-investigador da polícia Roger Franchini volta às prateleiras contando a história de um policial civil disposto a (quase) tudo.

por Débora Lopes
08 Abril 2015, 9:40pm

"Você anda armado?", ela pergunta ao descobrir que o amigo de faculdade é policial civil. "Claro. Por quê? Você não?", ele rebate com ironia. Esse é um dos diálogos presentes em Ponto Quarenta – a Polícia para Leigos, livro do ex-investigador policial e colaborador da VICE Roger Franchini, que será relançado pela Editora Veneta na próxima segunda-feira (13).

Tudo começou em 2004, quando Roger mantinha um blog que contava sua vida enquanto "polícia". Boa parte dos textos era produzida dentro da própria delegacia. "Eu fazia muitos plantões. Alguns momentos eram bastante ociosos", explica. Depois de pedir exoneração, o então escritor resolveu compilar algumas dessas histórias postadas na internet e dar vida a seu primeiro livro, que, em 2009, foi lançado de maneira independente. Em dois dias, as 50 primeiras cópias impressas acabaram. Depois, vieram mais 100 e evaporaram. "Quando me dei conta, quase mil livros haviam sido vendidos nessa brincadeira." Não demorou muito pra obra virar um clássico disputado entre entusiastas do gênero e pra carreira de Roger deslanchar.

Ponto Quarenta agora vai oficialmente para as prateleiras. A obra retrata a rotina do investigador Vital, que lida com vítimas e criminosos de maneira inescrupulosa: passando a mão na bunda de defunta menor de idade e batendo no sujeito que chora na sala de interrogatório. "A polícia verdadeira é essa que nós vemos no dia a dia. É a polícia que dá tapa na cara do negro, que aceita uma graninha pra liberar o filho de um tiozinho pego com maconha", pontua o autor. Entre amores, trepadas, aulas na faculdade, bicos de segurança numa loja e dinheiro proveniente de corrupção, Vital segue sua vida cheia de frustrações e horas extras na delegacia.

O escritor Roger Franchini. Foto: Anna Mascarenhas

É difícil discernir o que é verossímil e fruto da experiência do escritor e ex-policial do que é literatura. Roger prefere deixar no ar. "Misturar ficção e realidade é uma característica que vem me perseguindo há algum tempo. A realidade da polícia e do crime em São Paulo é tão absurda e grotesca que parece mentira. Costumo jogar a dúvida na cabeça do leitor."

Às vezes, os capítulos soam desconexos, mas são orquestrados de uma maneira específica para se consolidarem num romance que leva o protagonista a chafurdar cada vez mais num ciclo horroroso de corrupção.

O que motivou Roger a escrever Ponto Quarenta é o que ele considera ser um grande déficit na literatura policial brasileira. "Não conseguia achar um livro ou filme que retratasse a dor do investigador, que é uma posição sóciopolítica completamente diferente [da posição] de um policial militar", afirma. Apesar de expor as mazelas recorrentes de dentro da corporação, de certa maneira, a obra humaniza o policial civil. A comparação com a Polícia Militar também foi motivadora para o autor. "O policial militar é um homem fardado que está sempre exposto na rua. O investigador, não. Ele é um rato. Ele se esconde entre o lixo e a legalidade", frisa.

Vital é um homem bom? Roger ri quando ouve a pergunta. "Os seres humanos são instáveis", coloca. O protagonista nutre uma gana insaciável por flagrantes, pois é quando a possibilidade de extorsão monetária aparece. A corrupção é constante no livro. E aparece de forma natural. O escritor defende sua ex-classe: "Você tem pessoas mal pagas, convocadas das classes sociais mais baixas. Elas são colocadas diariamente diante de valores financeiros muito grandes, com a possibilidade de que eles sumam sem que ninguém fique sabendo". É o que acontece quando Vital e seu parceiro de trampo estouram a casa de um traficante e encontram uma grana que será partilhada entre os dois e o delegado.

Quando começou a carreira de escritor, o medo de sofrer represálias até existia. "Eu tinha muito receio de ser considerado X-9, de ser chamado de traidor." Hoje, depois de cinco livros publicados, a reação dos leitores continua positiva. "Quem é policial e conhece essa realidade adora os livros."

Para mais informações sobre o lançamento de Ponto Quarenta – A Polícia para Leigos, em São Paulo, confira o evento no Facebook .