Desmascarando Lucien Greaves, o Líder do Templo Satânico

Entrevistamos um satanista socialmente consciente.

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21 agosto 2013, 3:15pm


Doug Mesner. Foto por Shane Bugbee.

Tenho procurado promover o pensamento alternativo há mais de 25 anos como editor, promotor, dono de galeria e, como minha sogra disse uma vez, “charlatão sem noção”. Durante esse tempo, abri as portas tanto para livres pensadores como para simples malucos. Às vezes, eles são convidados bem-vindos; outras, nem tanto.

Lucien Greaves, do Templo Satânico, que apareceu em minha porta pela primeira vez há uma década, cairia na categoria anterior. Ele era um cara jovem e esperto demais para seu próprio bem. Ele queria uma cópia de um livro que eu, como editor, tinha publicado pela segunda vez chamado Might Is Right. Trata-se de um tomo de 100 anos, há muito esquecido pela maioria, com exceção de Anton LaVey, que o acharia numa livraria quando jovem e o usaria como base para A Bíblia Satânica. Pedi ao Anton para escrever uma introdução, e ele adorou a oportunidade de introduzir o livro ao mundo novamente. Como agradecimento, Anton me convidou para visitar sua casa e me fez um alto sacerdote de sua Igreja de Satã. Ele também permitiu que minha esposa e eu fizéssemos sua entrevista final, alguns meses antes de sua morte em 1996.

O lançamento dessa nova versão de Might Is Right se tornou um fenômeno no mundo underground e foi isso que trouxe o futuro líder do Templo Satânico até minha porta. Só que, na época, seu nome não era Lucien Greaves e sim Doug Mesner. (Essa não é a primeira vez que Doug se liga ao Templo, apesar de ser a primeira vez que ele admite publicamente estar envolvido nisso.)

Da primeira vez que ele apareceu em minha porta, Doug trouxe uma pilha de seus desenhos e textos. Eram coisas realmente incríveis, e, para minha grande surpresa, ele deixou tudo comigo. Não muito depois de nosso primeiro encontro, e depois de revisar seus cadernos de rascunho, reimprimi uma edição limitada de Might Is Right e pedi a Doug para ilustrar os capítulos. Seu trabalho no livro foi realmente excelente. Quando comecei a fazer podcasts em 2002, o chamei para ser coapresentador de nossa primeira transmissão ao vivo de 24 horas. Por um dia inteiro, entrevistamos convidados, filosofamos e discutimos. Foi tão legal que fizemos outro um ano depois.

Não muito depois, Doug foi aceito na Universidade de Harvard. Ele costumava me ligar, chocado, quando seus professores o levavam para almoçar ou o convidavam para conhecer celebridades como Richard Dawkins. Os estudos do Doug em Harvard se focaram em neurociência e ele começou a mergulhar – às vezes perigosamente, eu sentia – no mundo das falsas memórias relacionadas com abusos rituais e abduções alienígenas, chegando a expor psicólogos profissionais como culpados e os forçando a se retratar, aposentar ou mesmo fugir.

Doug Mesner se tornou um participante ativo do Templo Satânico para promover seu trabalho de filosofia. A seguir, está a entrevista exclusiva que conduzi com ele recentemente.


O autor (à esquerda), com Mesner. Foto por Amy Bugbee.

VICE: O Templo Satânico é um grupo satânico ou satírico?
Doug Mesner: Essa é uma pergunta comum. E digo, por que não pode ser os dois? Viemos de uma filosofia sólida na qual acreditamos absolutamente e aderimos. Isso é satanismo e, para nós, isso não pode ser chamado de outra coisa que não seja satanismo. No entanto, nossa metáfora de Satanás é uma construção literária inspirada em autores como Anatole France e Milton – um anjo rebelde que desafiou uma estrutura autocrática e que se preocupa com o mundo material. Satanismo como uma rejeição do sobrenaturalismo supersticioso. Esse Satanás, claro, não lembra a personificação da crueldade, sofrimento e negatividade no qual alguns segmentos apocalípticos da cultura judaico-cristã acreditam. A palavra Satanás não tem valor intrínseco. Se alguém age com compaixão em nome de Satanás, essa pessoa ainda agiu com compaixão. Nossa própria presença como satanistas socialmente conscientes e responsáveis serve como uma sátira dos medos supersticiosos ridículos que a palavra Satanás tende a invocar.

Parece uma versão mais sombria do Yes Men.
Sim. Assim como o Yes Men usa seus truques teatrais divertidos para atrair atenção para uma agenda progressista, nós jogamos com os medos irracionais das pessoas de uma maneira que esperamos que as façam reavaliar o que elas acham que sabem, redefinir rótulos arbitrários e julgar pessoas por seus atos concretos. Acredito que onde a razão falha em persuadir, a sátira e o escárnio prevalecem. Enquanto muitos grupos religiosos parecem se abster do humor, nós abraçamos isso.

Você pode dar mais informações sobre as origens do templo? Vocês se consideram ativistas?
O Templo Satânico foi concebido, independente de mim, por um amigo e um de seus colegas. Eles viam isso mais como uma “pílula de veneno” no debate Igreja/Estado. A ideia era que os satanistas, fazendo valer seus direitos e privilégios onde as agendas religiosas têm tido sucesso em se impor em assuntos públicos, servissem como um lembrete de que tais privilégios são para todos e que isso pode ser usado para servir a uma pauta além do entendimento estreito atual do que é “a” agenda religiosa. Então, em sua concepção, a mensagem política era fundamental, apesar de ser entendido que eles eram, de fato, satanistas autoidentificados vivendo vidas produtivas dentro das fronteiras da lei e que mereciam tanta consideração como qualquer outro grupo religioso. Fui trazido para isso originalmente como consultor, devido à minha experiência em história de caça às bruxas e meu entendimento quanto às concepções do satanismo. Enquanto o pensamento original era de que no Templo Satânico era preciso ter alguma crença na entidade sobrenatural conhecida como “Satanás”, nenhum de nós realmente acreditava nisso. Ajudei a desenvolver isso em algo que todos nós acreditássemos realmente e abraçássemos de todo coração: um enquadramento filosófico ateísta que vê “Satanás” como uma construção metafórica por meio da qual contextualizamos nossos trabalhos. Fomos além de uma simples manobra política e agora somos um movimento sincero que procura separar religião da superstição e contribuir positivamente com nosso diálogo cultural. Para esse fim, realmente, sou um ativista.


O autor estrangulando Doug. Foto por Amy Bugbee.

Eu o conheço há muito tempo, e o Templo Satânico parece uma extensão do trabalho e dos estudos de sua vida. O que exatamente você está combatendo, tentando mudar ou melhorar – qual é o fim do jogo aqui, Doug?
Cresci à sombra do que é agora conhecido pelos sociólogos como “o pânico satânico” – um episódio constrangedor de caça às bruxas na era moderna. Eu ficava horrorizado com programas de entrevista diurnos confabulando sobre hordas de cultos satânicos homicidas. Fiquei muito curioso, depois, com a questão da verdade dessas afirmações conspiratórias e comecei a perseguir isso ativamente em meus estudos. Havia alguma verdade na ideia de cultos satânicos assassinos? Na verdade, não há uma tradição ininterrupta de satanismo, nenhuma doutrina satânica canonizada que se estende por séculos nos tempos bíblicos. Nem há um conceito uniforme de Satanás. A Bíblia Satânica de Anton LaVey foi lançada em 1969 e não continha indicação de uma doutrina anti-humana alegada por antissatanistas histéricos. Às vezes, no entanto, teóricos da conspiração antissatânicos apontam para grupos particulares de supostos “satanistas” como evidência de suas afirmações. Fui procurar por todos esses supostos cultos satânicos e não encontrei nada de substancial nas alegações feitas contra eles. Conheci você, Shane, e você era um sacerdote da Igreja de Satã que recebeu esse título do próprio Anton LaVey. Você e eu encontramos e entrevistamos membros do círculo interno da notória Igreja do Processo do Juízo Final, que, segundo alguns, era o culto “satânico” mais perigoso do mundo. Por meio de você, encontrei toda uma variedade de satanistas autoproclamados da escola de LaVey e outros, e descobri que eles são um público não mais castigado pela psicopatia do que qualquer outro (e, na verdade, cheio de pessoas atenciosas e inteligentes). Ilustrei uma edição de Might Is Right, o texto que levou LaVey a construir A Bíblia Satânica, e que você publicou – juntamente com uma edição anterior com o próprio LaVey – quando você gerenciava a Michael Hunt Publishing. Em todo esse tempo, nunca encontrei evidências críveis de uma rede criminosa satânica.

Em 2009, fui a uma conferência sobre “Abuso Ritual/Controle da Mente” em Connecticut, onde ouvi palestras de “especialistas” sobre suas crenças em crimes em rituais satânicos. Achei que eles seriam um grupo marginal de pessoas iludidas se apegando a crenças inacreditáveis, prejudicando apenas a si mesmos. O que encontrei foi uma subcultura distorcida de terapeutas licenciados e seus clientes, que pregavam uma crença pseudocientífica de “amnésia dissociativa”. A teoria deles é que alguns eventos – particularmente o abuso sexual – podem ser tão traumatizantes que a mente consciente não consegue compreendê-los, então, essas memórias são “reprimidas”. Essa escola de “terapia” respira teorias da conspiração e literalmente doutrina seus pacientes em crenças falsas de ameaça satânica. Os clientes são encorajados a “relembrar” episódios de abuso que supostamente teriam sido ocultados de suas mentes conscientes e, quando as provas não se encaixam em suas falsas memórias confabularias, eles explicam isso como evidências de uma conspiração muito maior – uma conspiração satânica. Com um verniz falso de ciência, esses “especialistas” em dissociação têm mantido a caça às bruxas viva. Pessoas inocentes são presas e condenadas com base em testemunhos de memória recuperada, mesmo que isso seja a mesma “prova” que temos de abdução alienígena, e desse ser o mesmo processo “terapêutico” com o qual as pessoas praticam “regressão a vidas passadas”. Tenho um extenso trabalho escrito, que pode ser lido no www.process.org, em que detalho em vários artigos como essa subcultura/culto de terapia continua a arruinar a vida de pessoas inocentes. Um dos meus objetivos é destruir essa prática de pseudociência prejudicial e acabar com o mito de uma conspiração satânica global. O objetivo mais amplo do Templo Satânico é defender todos aqueles que são injustamente caluniados, demonizados e marginalizados – vitimados por teóricos da conspiração e sobrenaturalistas dogmáticos. Buscamos garantir os direitos dos religiosos não crentes e céticos. Também esperamos fornecer o enquadramento filosófico pelo qual nossos membros possam aprimorar suas ferramentas cognitivas e nunca se tornarem vítimas dessas forças.

E o que diabos é um religioso não crente?
É nosso objetivo separar religião da superstição. Religião pode e deve ser uma construção narrativa metafórica pela qual damos significado e direção às nossas vidas e trabalho. Nossa religião não deve exigir que nos submetamos a crenças sobrenaturais irracionais e insustentáveis baseadas em interpretações literais de contos fantásticos. Os não crentes têm tanto direito à religião – e a quaisquer exceções e privilégios que isso traz – como qualquer pessoa.

Alguns podem pensar, baseados em seus estudos da mente e nas ações do Templo Satânico, que sua agenda verdadeira é se tornar um líder de culto. É esse o verdadeiro objetivo da organização?
Estudei, e continuo estudando, ciência cognitiva. Também tenho muita experiência estudando cultos e coerção. Meu foco, no entanto, é ensinar as pessoas a reconhecer influências de cultos e ajudá-las a aprender como podem resistir a influências coercivas. Queremos fornecer a nossos membros o enquadramento filosófico e as ferramentas cognitivas para exercitar seu pensamento crítico de uma maneira que ajude a imunizá-los dos vários charlatões místicos que procuram convertê-los em seguidores crédulos. Não queremos seguidores. Buscamos construir e oferecer apoio a líderes. Não estamos querendo construir uma estrutura autoritária rígida – isso seria a própria antítese do satanismo. Longe de ser um culto, o Templo Satânico poderia ser descrito melhor como um anticulto.

Qual é a diferença entre o Templo Satânico e a Igreja de Satã?
A Igreja de Satã era ativa, me parece, durante a vida do próprio Anton LaVey, mas parece estar inteiramente defunta agora. Ela está reduzida atualmente a um site onde você pode comprar uma carteirinha de membro, mas não tenho conhecimento de nenhuma atividade real em que eles estejam envolvidos desde as décadas passadas. A Igreja de Satã deve acreditar que presta um serviço simplesmente sendo um ponto de encontro para “indivíduos que pensam da mesma forma”, mas o valor disso tem diminuído bastante na era da internet, agora que nichos obscuros estão sempre em contato em nossas redes sociais – e a internet não exige uma taxa de inscrição de $200 [o custo da carteirinha de membro da Igreja de Satã]. Acredito que as organizações devem ser consideradas por seu efeito no mundo real e que deveriam trabalhar para avançar os objetivos gerais de seus membros. Temos que trabalhar constantemente para provar nosso valor para nossos membros, não o contrário.


O autor e Doug no lançamento de Might Is Right, 2004. Foto por Amy Bugbee.

Uma vez você disse que achava que a Igreja de Satã tinha que ter lobistas em Washington. Isso é um objetivo do Templo Satânico?
Sim, é. Até o momento que o movimento do Novo Ateísmo tomou o controle, o satanismo parecia um retorno bobo aos anos 1960 – sem nenhuma influência política, nenhuma agenda conhecida, nenhum defensor sequer. Mesmo no famoso caso West Memphis Three, não houve um barulho discernível de uma organização satânica estabelecida expressando seu ultraje com o fato de a ideia do satanismo ter sido usada como uma acusação para condenar três garotos inocentes por assassinato. Esse tipo de omissão é pior do que isso – é contraprodutivo. Não há objetivo em ter uma organização a menos que você se organize. Não há motivo para fazer parte de uma organização se essa organização não trabalha para tratar das preocupações e avançar os objetivos de seus membros. Estamos prestes a conseguir financiamento legal, estamos planejando várias campanhas futuras e vamos perseguir em nossa agenda de forma mais agressiva.

A Igreja de Satã postou recentemente um texto sobre o Templo Satânico sem mencionar isso diretamente. Eles parecem estar tentando se separar do Templo Satânico por causa das referências de vocês à vida após a morte em seus rituais, é isso? Você é um satanista espiritual, um satanista teísta ou o Templo Satânico está adicionando algo à filosofia de LaVey, da mesma forma que LaVey acrescentou algo a Might Is Right de Ragnar Readbeard?
Eles entenderam mal o que estávamos fazendo, mas não foi inteiramente culpa deles. Algo que expliquei em várias entrevistas para a mídia – mas que acabou não aparecendo na maioria delas – é o fato de que não acredito no sobrenatural. Em vez disso, quando realizamos nossa Missa Rosa no túmulo da mãe de Fred Phelps, fundador da Igreja Batista de Westboro, nós brincamos com os próprios medos supersticiosos dele. Ironicamente, a Igreja de Satã nunca renunciou completamente ao sobrenaturalismo, como eu fiz.

E sim, estamos acrescentando algo a LaVey. Ele é um excelente ponto de largada, mas seu trabalho foi um produto de seu tempo e é apropriado recontextualizá-lo para a realidade de nossos dias. LaVey foi ativo durante um tempo em que, por décadas, os Estados Unidos estavam numa espiral disfuncional de aumento da violência. Como resultado, a retórica de LaVey tendia para as políticas do Estado Policial de Darwinismo Social. Desde 1995, a violência nos Estados Unidos – e, na verdade, no mundo todo – têm declinado, e estamos agora numa posição onde podemos avaliar o que está funcionando para nós e onde erramos anteriormente. Claro, uma presença forte e efetiva da polícia é um fator contribuinte, mas também descobrimos que governos autocráticos geram mais violência social. Também descobrimos que o Darwinismo Social, quando interpretado em termos brutais e estritamente em interesses próprios, é contraprodutivo e baseado numa má interpretação simplista de uma teoria evolucionária. Fazemos melhor quando trabalhamos em grupos, onde altruísmo e compaixão são recompensados. Somos animais sociais. Dito isso, no entanto, acredito num sistema meritocrata. Além disso, a vingança é um impulso natural – sem o qual a justiça nunca aconteceria. Temos que fazer o nosso melhor para aliviar a dor daqueles que sofrem, seja lá quem for – mas também precisamos estar atentos para punir os crimes daqueles que se comportam injustamente com aqueles ao seu redor.

O que você pode me contar sobre o documentário que vocês estão filmando? Foi esse o projeto que lançou o Templo Satânico, certo?
Quando o Templo Satânico foi concebido, a ideia era fazer um documentário em torno de várias das nossas ações para movimentar o debate Igreja/Estado. Para esse fim, fizemos uma manifestação de apoio à aprovação da Lei 98 do Senado pelo governador da Flórida, Rick Scott, uma lei que, basicamente, permitiu rezar nas escolas. Enquanto muitos grupos ficaram descontentes ou ofendidos por Scott estar promovendo uma agenda cristã conservadora, realizamos um protesto satânico para agradecer Rick Scott por aprovar um projeto de lei que permite o satanismo nas escolas, garantindo que crianças que, de outra maneira, nunca conheceriam o credo satânico, pudessem ser expostas a isso nas salas de aula. Isso é um lembrete implacável de que a liberdade de religião se aplica a todos e de que os Estados Unidos são uma nação baseada em pluralismo religioso. Durante esse tempo, atraímos o interesse genuíno de pessoas que procuravam abraçar um satanismo politicamente ativo e relevante. Fomos nos desenvolvendo cada vez mais em uma organização madura com uma missão muito profunda. Agora – apesar de termos filmado muita coisa – ainda não definimos claramente o projeto do filme sobre os trabalhos do Templo Satânico propriamente dito. A ideia do filme se tornou secundária.

Muitos satanistas lutam com a questão do ego... O que acontece se vocês não conseguirem os fundos necessários para o projeto de adotar uma rodovia?
Então, vamos partir para a próxima etapa ou tentaremos preencher a lacuna dos fundos para a rodovia através de outros meios. Pode parecer banal, mas não há vergonha em não atingir o objetivo, só em nem ao menos tentar. Nunca vinculamos, nem vamos, nossa organização inteira a um único projeto. Há muitas coisas que faremos que podem muito bem não dar certo e outras que, com certeza, atingirão o objetivo. Vamos continuar trabalhando da mesma forma.

@shanebugbee

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