Cannabis Social Club

pela primeira vez, o pessoal do Growroom, o primeiro fórum de discussões online sobre cultivo de cannabis, e hoje o maior do gênero em língua portuguesa voltado para os brasileiros, realizou um antigo sonho: o seu primeiro encontro nacional.

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07 abril 2010, 2:04pm

Em 2010, pela primeira vez, o pessoal do Growroom, o primeiro fórum de discussões online sobre cultivo de cannabis, e hoje o maior do gênero em língua portuguesa voltado para os brasileiros, realizou um antigo sonho: o seu primeiro encontro nacional.

As inscrições foram divulgadas apenas no Growroom, e os interessados deveriam encontrar-se às 9h da manhã no estacionamento de um shopping no Rio de Janeiro de onde saíram duas vans para uma casa alugada numa zona rural a 30km dali, onde o organizador da parada (e fundador do fórum) Bas recebeu a todos com um breve discurso: câmeras fotográficas e celulares proibidos e uma programação de debates e oficinas para seguir durante o dia. Compareceram growers, ativistas e fumetas em geral vindos de São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, e até um repórter da revista argentina THC e o organizador da Copa Del Plata, um evento clandestino anual no qual é julgada desde 2002 o melhor homegrown da Argentina.

Eu tinha problemas pra resolver essa manhã e Bas, que é um dos meus melhores amigos há uns cinco ou seis anos, disse que a regra era clara e que se eu perdesse o rendez-vous às 9h estaria fora do encontro. Tive de mandá-lo à merda e dar carteirada de Capitão Presença, imprensa, exímio grower e amigo pra ele abrir uma exceção... Saí da zona sul por volta do meio-dia sabendo mais ou menos onde era a casa, quando liguei dizendo que estava próximo (pro único cara que estava com um celular ligado) me passaram o endereço. É claro que me deram o número errado e o babaca aqui teve que andar pra caralho carregado de porcarias que eu não ia largar no carro. Era um desses sítios que o povo aluga para churrascos e surubas, tinha várias redes, sofás, uma piscina maneirissíma e uma decoração meio hiponga. Encontrei alguns amigos que me observavam com seus olhares difusos e sorrisos trôpegos.

A galera usava crachás com os nicknames, já que ninguém conhecia a cara de ninguém no fórum, apenas o seu avatar e a foto de seus plantios. Ei, peraê! Quer dizer que a Lu Patinadora é um cara?!? Logo eu que mandei tantos winks no seu tópico... Num sofazão um carinha dormia de boca aberta enquanto um vaporizer funcionava a milhão. Bas estava pilotando a churrasqueira, enquanto o veterano Verdegulho preparava um creme de cannabis feito a partir das folhas cristalizadas do manicure da Neville’s Haze e da Satori do pescador. Não entendeu nada? Então, manicure é o processo final da colheita, quando você corta as folhas mais próximas aos camarões, que apesar de possuírem algum grau de THC e um cheiro lindo, recomenda-se que que sejam tiradas, acho que é pra dar aquela aparência de couve-flor do camarão que todos adoramos. Essas folhas cristalizadas são geralmente usadas para fazer haxixe ou receitas. Tinha uma oficina de haxixe na programação, mas como alguém esqueceu de levar as redes necessárias para tal, ela foi abortada e as folhas usadas para fazer esse creme verde que serviu de recheio para uma lasanha vegetariana que logo foi apelidada de Lasonha.

O encontro correu naquele ritmo de fim de semana na praia – no qual você acorda, fuma um, mata a larica, fuma o digestivo, chapa mais um pouco, acorda na larica de novo, come mais, fuma outro digestivo, entra na larica de novo e volta para o início do tabuleiro... O povo se reunia em várias rodinhas, medindo conhecimentos e degustando as colheitas que muitos acompanharam online. Compareceram usuários de várias fases do fórum, como Lowrider, que na época da antiga lei amargou seis meses de cana por seu cultivo, e Xambinho, que recentemente teve sua casa invadida pela polícia na sua ausência e sua história explorada por jornalecos que não perderam tempo de acusá-lo de traficante foragido. Apesar dos debates programados sobre ativismo e uso medicinal não terem ocorrido, o assunto circulava nas rodinhas, com pessoas contando as estratégias de seus advogados, e os passos que deveriam ser seguidos para a mudança da lei. No Brasil já existem médicos que recomendam o uso da maconha para o alívio de portadores de câncer e HIV, apesar de não se ter notícia de nenhuma receita, bem diferente da Califórnia, onde qualquer dor nas costas (e 200 dólares) compram uma receita para poder comprar cannabis medicinal.

Finalmente a programação, então, só foi seguida a risca até o “Início do Churrasco”: quilos de carne, berinjela a parmegiana pros vegetarianos e a tal Lasonha, que alguns usuários disseram ter sentido os efeitos até dois dias depois do evento. Também foram consumidos 20 sacos de biscoito, inúmeros frascos de Nutella, litros e litros de Coca-Cola e diversas variedades de fumo plantado em casa. Era uma maravilha, no meio da maior seca cannábica da história recente da América do Sul poder degustar de tão variadas espécimes de cannabis e sentir seus diferentes aromas, sabores e ondas. O campeão eleito por unanimidade foi o fumo do Pescador, já citado aqui, e que o cara curtiu durante um ano. O bagulho era amarelo e duro, parecia uma pedra-pomes, e descia pela garganta levando tudo pela frente. Era impossível dar uma de malandrinho na roda, querendo dar mais de um pega seguido, a prática era denunciada por uma sessão de tosse nervosa. Não demorou para pilharmos os argentinos de que levaríamos a copa deles com esse fumo.

Encerramos o evento por volta das 20h, numa roda gigante, um baseado de quatro sedas, feito com amostras de todos os fumos presentes. Participaram da roda uma estimativa entre 31 e 37 cabeças na apuração de diferentes fumetas. Momentos de silêncio eram intercalados por alguns breves discursos e bate papos. Alguém sugeriu que fundássemos nossa igreja da maconha, para podermos usufruir do uso religioso. Os cultos seriam mais ou menos o que estávamos fazendo. Mas quem seria nosso Edir Macedo?

O baseadão deu umas três voltas e meia até apagar, as vans chegaram logo em seguida e o povo se despediu para um sonolento caminho de volta. Todo mundo voltou dormindo, inclusive meus três caronas, só não dormiu o babaca aqui que gastou a onda em freadas bruscas e pequenos vôos quando não conseguia identificar os muitos quebra-molas da estrada a tempo...

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