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Pais, mães e avós que piram em Pokémon GO

A discussão sobre qual é o melhor para batalhar e se o Charizard é realmente o mais legal não é só coisa de millenial, não.

por Brunno Marchetti e Débora Lopes
03 Outubro 2016, 11:00am

A discussão sobre qual é o melhor para batalhar e se o Charizard é realmente o mais legal não é só coisa de millenial, não. Crédito: Felipe Larozza/Vice

Depois de um dia cansativo de labuta e alguns botões implorando por alforria na camisa social, um exímio jogador de Pokémon GO pede arrego. Analista de sistemas há 20 anos na mesma empresa, pai de quatro filhos e avô, Mario Cardoso, 57, aproveita o horário de descanso para caçar pokémons. "Meu Snorlax nasceu de um ovo de 10 quilômetros", gaba-se, mostrando a cobiçada criatura azul, a quem chama de "gordinho".

Quando a reportagem de Motherboard chega na residência de Mario, na zona sul da cidade de São Paulo, surpreende-se com ele saindo pelo portão. "Ia colocar lure", explica, referindo-se ao "poderzinho" que atrai mais Zubats, Weedles e, quem sabe, um Bulbasaur. A sorte de morar exatamente num pokéstop não é para qualquer um.

Mário e Rosângela aproveitam o lure no pokéstop. Crédito: Felipe Larozza/Vice

Lançado em agosto deste ano pela californiana Niantic, Pokémon GO já ultrapassou os 500 milhões de downloads em menos de dois meses de vida. Não é a tôa que o jogo de celular inspirado no desenho japonês — que começou a ser exibido no Brasil no final da década de 90 — conquistou até mesmo a ala mais velha da família Cardoso.

A professora Rosângela, 59, casada com Mario há 34 anos, também ostenta o título de treinadora pokémon no game de realidade aumentada. "Passávamos o domingo vendo uma série atrás da outra no Netflix até ficar duro de tanto sofá. Agora, saímos pra passear pela cidade e pegar Pokémon", relata a pedagoga, que renomeia seus monstrinhos com alcunhas peculiares. Scyther, o gafanhoto verde, virou "Sinto Muito".

Crédito: Felipe Larozza/Vice

Mario nega, mas a esposa afirma que o último acidente automobilístico da família rolou durante uma ávida caçada. Diferente de alguns casos mais graves, foi só um totó no carro da frente e ninguém se machucou.

A coisa entre transeuntes e motoristas anda tão séria pelo mundo que, no dia de estreia do aplicativo no Brasil, o Detran (Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo) fez um apelo no Twitter para que a galera evitasse dirigir enquanto jogava.

Ledo engano de quem acha que mestres pokémon de fios grisalhos e rugas sutis se contentam em arremessar suas pokébolas em direção ao alvo ou meramente colecionar diferentes espécies.

Diariamente o casal Cardoso frequenta pelo menos dois ginásios para engalfinhar seus pokémons em outros pokémons e, assim, juntar pokécoins, a moeda oficial do jogo. No pokémundo, vale dizer, não há crise, nem juros ou impostos que barrem o consumismo desenfreado. Mario quer adquirir uma nova pokébag. Já Rosângela poupa suas economias para comprar uma incubadora que choca ovos.

Crédito: Felipe Larozza

O empenho na captura é tamanho que durante uma ida ao Parque Ibirapuera, Rosângela notou uma câmera em sua direção. Um homem, embasbacado com a quantidade de treinadores concentrados, registrava e exclamava: "Olha só! Esse povo todo aqui caçando Pokémon".

A professora deu de ombros e seguiu na busca. "O cara veio pra cima de mim filmando e eu nem tchum. Tinha um monte de pokémon pra pegar", conta, às gargalhadas.

No mesmo dia, Mario — que, dedicado, renomeia seus pokémons de acordo com o CP (combat power) e a análise para saber qual evoluir — tentava entreter o neto de dois anos no parque. Mas só um treinador que atua com afinco sabe a dor e a delícia que é dividir sua atenção entre o jogo e alguém que ama. "Ir com o neném foi um pouco complicado porque ele queria brincar no escorregador e a gente lá", fala, rachando o bico, enquanto faz a (já tão) clássica pose de quem arremessa uma pokébola com o dedo indicador.

Cinthia curte que Pokémon GO fez com que ela e a filha caminhassem mais. Crédito: Felipe Larozza

Nem só de louros e lures vive um pokéjogador. Uma das entrevistadas para esta reportagem acabou não topando falar pois teve de passar por uma cirurgia depois de cair e se machucar enquanto caçava criaturinhas.

Para o ortopedista Pedro José Pires Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão, pessoas com mais idade correm o risco de sobrecarregar as articulações caso se empolguem demais na caçada. "Embora seja uma atividade lúdica e não exista tensão emocional ou pressa, como acontece no caso de uso profissional, ainda existe risco de lesão."

A falta de atenção com a postura também pode gerar problemas, já que "a tendência quando você está andando e olhando para o celular é você fletir a cabeça, ficando com o pescoço dobrado". Neto aponta que passar muito tempo nessa posição pode deixar os treinadores com "dores na coluna, podendo comprometer a musculatura da região cervical."

Crédito: Felipe Larozza/Vice

Apesar dos problemas associados ao uso em excesso, para o ortopedista, a falta de atenção é o maior risco. Por estar focada demais naquele Pikachu que apareceu do nada, "se tiver um degrau, uma irregularidade ou uma raiz de uma árvore, a pessoa pode acabar tropeçando e sofrer uma queda."

O neurologista Delson José da Silva, membro titular da Academia Brasileira de Neurologia e chefe da unidade de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás, afirma que a recomendação para pessoas de idade mais avançada é a mesma para o público em geral: evitar o uso demasiado do celular, assim como de computador e televisão no horário noturno para que o sono não seja prejudicado. Porém quem tem qualquer dificuldade motora ou foi diagnosticado com doenças mais graves, como o Parkinson, deve redobrar o cuidado. "Existem jogos que melhoram a memória, a tensão e podem melhorar a mobilidade desde que haja um acompanhamento profissional", pontua o médico, que cita o Nintendo Wii como um dos consoles mais utilizados em pacientes com alterações neurológicas.

A chamada "reabilitação virtual" tem sido amplamente estudada pela ciência. Um exemplo é o óculos de RV para pacientes com Parkinson recentemente testado pelo Motherboard.

Crédito: Felipe Larozza/Vice

"Comecei a jogar para entender um pouco melhor esse universo deles e também para estimular a minha filha a fazer mais exercícios". A motivação clara da administradora de empresas Cinthia Bianchi, 47, ao iniciar sua carreira de treinadora não a impediu de tomar gosto pelo jogo. Quando lançado em agosto, sua filha Ana Paula, 26, não cabia em si. "Ela começou a berrar, e eu não entendia o motivo de toda essa euforia". Intrigada, Cinthia decidiu baixar e ver o que era aquele tão falado game.

Depois do primeiro contato e várias perguntas aos outros pokéjogadores da família, a filha e a seus dois enteados, Cinthia resolveu buscar informações em outras fontes. "Fui ler e assistir os vídeos do Leon [do canal CoisadeNerd], morri de rir com ele". A dedicação rendeu frutos, "hoje eu já consigo trocar informações com eles. Eu já não só recebo, eu troco", comentou Cinthia, que atualmente é a treinadora de nível mais alto em sua casa.

Os desafios de uma jornada pokémon nem sempre se limita a capturar o forte demais. "Tenho um acordo com o meu marido", conta Cinthia, não contendo o riso. "Ele sai comigo de carro para caçar e caminhar, desde que eu consiga conversar. Se eu falar um 'aham', aí a coisa fica feia."

Airton ainda não batalhou em nenhum ginásio. Crédito: Felipe Larozza/Vice

Apesar da diversão e do aumento do número de caminhadas, a administradora lamenta não conhecer outros pokéjogadores de sua faixa etária. Ela contou à reportagem que a única treinadora que conhece é uma colega de pós-graduação 21 anos mais jovem. "Toda a vez que eu falo disso para pessoas da minha idade, elas torcem o nariz."

O corretor de seguros Airton Brandt, 58, também já foi alvo de chacota entre os amigos do trabalho quando, depois de assistir a um jogo de futebol no estádio, resolveu caçar pokémons nas redondezas. "Me encheram o saco, mas na brincadeira", conta. O filho, Junior, 21, assistia ao desenho quando pequeno e o pai acabou se afeiçoando aos bichinhos.

Crédito: Felipe Larozza/Vice

"Eu gostava daquele dragão, o Charizard", detalha o corretor quando perguntado sobre seu pokémon preferido. "Eu achava o maior barato quando ele lutava."

Apesar de jogar todos os dias – envergonhado, admite que já caçou pokémon dirigindo –, Airton nunca se propôs a batalhar em um ginásio, mas confessa que sempre dá uma espiada nos pokémons alheios. "Às vezes, olho quem tá lá. É legal batalhar?", pergunta, sorrindo.

Para testá-lo, perguntamos qual era o mote do desenho na época em que ainda era exibido na TV. "A história é o Ash com o objetivo de ser um dos melhores treinadores Pokémon", diz, seguro. "E a Equipe Rocket são os sacanas."

Crédito: Felipe Larozza/Vice

Com o jogo aberto durante a entrevista, Airton se depara com um Weedle, um pokémon tão comum quanto carne de vaca e que seria capaz de acabar com as pokébolas e a paciência até mesmo de um monge budista. Sábio, analítico e com toda a experiência que a vida lhe trouxe, o treinador olha para o bicho e desdenha: "Esse eu nem quero capturar".