Reportagens

Por dentro das plantações de papoula do Cartel de Sinaloa

Visitamos o território que produz a base da heroína vendida pelo cartel mexicano.

por Darren Foster
03 Fevereiro 2017, 10:00am

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US .

Faz mais de uma década que o governo do México se lançou na guerra contra os cartéis mais poderosos do país. E apesar de o governo ter anunciado alguns sucessos na empreitada — o mais conhecido deles foi a extradição recente do chefe do Cartel de Sinaloa Joaquin "El Chapo" Guzman. E o verdadeiro impacto da campanha dispendiosa é melhor medido no infame Triângulo Dourado, uma região há tempos conhecida por sua produção de maconha e papoulas.

Nas profundezas da Sierra Madre, os sinais do controle do cartel estão por toda parte. Homens usando bonés com o número 701, uma referência à posição que Chapo ocupou certa vez na lista de bilionários da Forbes. Campos de decolagem clandestinos cortando indiscriminadamente porções da floresta. Cruzes marcando locais de assassinatos do cartel.


A VICE News viajou pelo território controlado pelo Cartel de Sinaloa para ver como, apesar dos desdobramentos do exército mexicano e bilhões de dólares de financiamento norte-americano para combater o tráfico, os traficantes mexicanos reagiram à maior epidemia de drogas da história dos EUA aumentando sua oferta.

Hoje o México cultiva mais papoulas que nunca. Pelas estimativas do governo norte-americano, as plantações de papoula no país mais que dobraram nos últimos cinco anos. E o chefe aqui diz que o preço da goma de ópio — matéria-prima da heroína — decolou na última década, de cerca de $500 [cerca de R$ 1500] o quilo para três ou quatro vezes esse valor.

Com os preços em alta, segundo o chefe local, a principal dificuldade enfrentada pelo cartel é conseguir cultivar o suficiente para atender a demanda por heroína dos EUA.

Segundo o Relatório Mundial de Drogas da ONU, o número de usuários de heroína nos EUA chegou a um milhão em 2014, quase o triplo da década anterior.

A habilidade do cartel mexicano em responder à epidemia de heroína nos EUA é reveladora. Como parte da campanha contra os cartéis, o exército muitas vezes é mobilizado para destruir plantações de drogas.

As batidas deveriam cortar os lucros do cartel. E prisões de chefes como El Chapo deveriam quebrar as redes de tráfico removendo os comandantes de alto escalão.

Mas mesmo depois da prisão e extradição de El Chapo, a organização que ele construiu continua viva e bem. As montanhas do Triângulo Dourado são vastas, e os campos de papoulas são camuflados e quase impossíveis de identificar vistos de cima.

As batidas aos campos de papoulas são quase que apenas simbólicas, dizem os locais. Assim como a captura de El Chapo.


As montanhas da Sierra Madre se estendem até onde a vista alcança. As comunidades que plantam papoula são extremamente reclusas, geralmente a horas de distância mesmo com veículos capazes de percorrer todos os terrenos.


As plantações são guardadas por membros pesadamente armados do Cartel de Sinaloa.


É preciso aproximadamente 10 quilos de goma de ópio para fazer um quilo de heroína. Segundo o chefe da área, um quilo de goma é vendido por $1.500 $2 mil [cerca de R$ 6 mil], três ou quatro vezes mais que uma década atrás.


O chefe local do cartel carrega um fuzil AR-15 e um revólver Colt calibre 38 banhado a ouro. A promotoria nos EUA diz que El Chapo também carregava uma AK-47 trabalhada a ouro consigo.


Uma ferramenta improvisada de madeira é usada para abrir o bulbo da papoula.


Campos de decolagem clandestinos, abertos no meio da floresta, são vitais para as operações do Cartel de Sinaloa, permitindo que a organização mova rapidamente pessoas e produtos para fora das áreas remotas.

Todas as fotos por Darren Foster.

Tradução do inglês por Marina Schnoor.

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