Publicidade
Noticias

Policial civil foi morto no ES

Categoria paralisou as atividades nesta quarta (8). Governador chama a manifestação de esposas dos PMs de "chantagem".

por Equipe VICE Brasil
08 Fevereiro 2017, 2:49pm

Foto: Gabriel Lordêllo/Mosaico imagem/ VICE

*Esta matéria foi atualizada às 16h10, da quarta-feira (8).

O medo e delírio no Espírito Santo continua. Nesta quarta (8), já são 87 assassinatos segundo o sindicato da Polícia Civil do Estado, e o número não para de crescer. Após a segunda-feira (6), em que foram registrados dezenas de vídeos apavorantes de toda a sorte de crime, inclusive lojas saqueadas por homens, mulheres, idosos, crianças, pessoas que aparentavam ser de classe média — e até mesmo uma candidata a vereadora em Cachoeiro de Itapemirim, cidade do Sul capixaba —, as ruas das cidades do estado ficaram vazias.

Com a chegada de 200 homens do Exército no estado na segunda, a situação parecia melhorar. Não adiantou, e a madrugada de terça-feira seguiu violenta, com relatos de tentativas de invasão a prédios e assassinatos.

O piso salarial de um soldado no Espírito Santo é de R$ 2.646,12 — segundo os militares, o pior salário da categoria no país. 

Os militares, que seguem aquartelados, querem reajuste salarial e alegam que estão há sete anos sem aumento real e há quatro sem reposição da inflação, segundo a Associação dos Oficiais Militares do ES. O piso salarial de um soldado no Espírito Santo é de R$ 2.646,12 — segundo os militares, o pior salário da categoria no país. Como eles não têm direito constitucional a greve, esposas e familiares iniciaram o movimento.

A última terça-feira (7) amanheceu sem ônibus nas ruas. Para tentar restaurar alguma normalidade, homens das Forças Armadas ocuparam terminais e a partir das 10 horas, os coletivos começaram rodar. O resultado, no entanto, foi ruim: ônibus baleados, frota reduzida, muita reclamação e transtornos.

Escolas, postos de saúde e grande parte do comércio seguem fechados desde segunda-feira (6). Presos dentro de casa, com dificuldade para comprar alimentos e remédios, já que boa parte do comércio está fechada, os capixabas parecem estar imersos em um misto de revolta e desespero. Foi então que, via áudio de Whatsapp e chamadas em redes sociais, a população foi convocada para ir às ruas e retirar à força as esposas e familiares de PMs da frente do 10º Batalhão, em Guarapari, no sul do estado.

Muita gente atende ao chamado, e uma confusão se forma. Civis fazem uma manifestação contra a manifestação das esposas e familiares. Há bate-boca, o clima é tenso, e não houve acordo.

Na frente do 9º Batalhão, em Cachoeiro de Itapemirim, dezenas de pessoas também pedem a volta dos policiais militares às ruas.

Por volta das 16h30 da terça, o povo foi às ruas de Vitória. Moradores de bairros do entorno do Quartel Central se reúnem na avenida Maruípe para pedir a volta do policiamento. O Exército precisa ir ao local para controlar a manifestação e restabelecer o trânsito. Os homens treinados para a guerra e para a segurança das fronteiras estão, agora, chutando pneus incendiados para fora de uma via pública.

Moradores chegam a jogar pedras em homens do Exército antes de o movimento ser disperso, já às 20h. Antes, às 19h, o comando da Polícia Militar informa que os policiais voltaram às ruas. Mas não voltaram.

Governador do ES chama ato de mulheres de PMs de "chantagem". Fotos: Fred Loureiro/Secom-ES

Na noite de terça, o judiciário iniciou um novo movimento de pressão. O juiz Mario da Silva Nunes Neto determinou, em caráter liminar, o desbloqueio das saídas dos batalhões, sob pena de cometimento de crime de desobediência e multa de R$ 10 mil por PM por dia de descumprimento da ordem.

As negociações para o fim da greve seguem mais intensas, com uma reunião envolvendo deputados estaduais, uma senadora capixaba, representantes dos policiais e uma comissão de esposas de PMs. Elas querem diálogo e negociação, mas o governo do Estado mantém argumento de ajuste fiscal, e alega que não há dinheiro para dar qualquer aumento. Depois de cinco horas de conversa, não houve acordo. As exigências das manifestantes são: reajuste de 43% do salário, além da anistia total aos PMs que estão envolvidos na paralisação.

Em meio à crise, o governador Paulo Hartung, que havia viajado na sexta-feira (3) para tratar um tumor na bexiga em São Paulo, voltou ao estado. Em entrevista coletiva concedida nesta quarta-feira (8), Hartung criticou o movimento ao dizer que "o método adotado por algumas lideranças é um método que dá vergonha. É o método da chantagem".

Sem acordo, PMs começaram um movimento de aquartelamento voluntário de militares no 2º Batalhão, em Nova Venécia; no 4º Batalhão, em Vila Velha; no Batalhão de Missões Especiais (BME), em Vitória; e na Ronda Ostensiva Tática Motorizada (Rotam), em Cariacica.

E a situação que parecia caminhar para um desfecho se agravou com o assassinato de um investigador da Polícia Civil de Vitória. 

Crimes continuam sendo registrados em diversos pontos do Estado. E a situação que parecia caminhar para um desfecho se agravou com o assassinato de um investigador da Polícia Civil de Vitória. Ele foi morto a tiros na noite de terça-feira (7), na BR 259, em Colatina, na Região Noroeste do Estado, após tentar intervir no roubo de uma motocicleta. Mário Marcelo de Albuquerque, conhecido como Marcelinho, estava em um veículo da Delegacia de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP) com um colega, a serviço.

A categoria está consternada, revoltada e ameaça parar ainda nesta quarta-feira (8).

Em Aracruz, no Norte, outro policial civil foi baleado, mas não corre risco de vida.

De acordo com a declaração do sindicato de Policiais Civis do Espírito Santo, foi decidida uma paralisação de um dia, em que só serão atendidos chamados de urgência. Na quainta (9), às 13h, será feita uma assembleia para deliberar o que a categoria fará diante do caos no estado.

Após anunciar que os ônibus começariam a rodar às 6 horas de quarta-feira (8), o Sindicato dos Rodoviários voltou atrás e decidiu, após reunião, que nenhum coletivo da Grande Vitória irá circular. Ao que tudo indica, capixabas vão enfrentar mais um dia de medo e incerteza de quando o caos vai acabar.

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter e Instagram.