O clipe do DV Tribo,"Geração Elevada", é a cara do novo rap de Belo Horizonte

Track da trupe mineira formada por FBC, Hot Apocalypse, Oreia, Djonga, Clara Lima e CoyoteBeatz tem participação do paulista Síntese, do carioca Sant e do conterrâneo Vinição.

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16 Dezembro 2016, 3:08pm

Foto: Leonardo Mota/Divulgação

"Agora eu quero ver geral abrindo um corredor aí, que o bicho vai pegar", instigou o "sujismundo" Baco Exu do Blues, instaurando uma divisão caótica entre lado A e lado B na pista. Atenta, a molecada que enchia o show do MC baiano esperava pelo beat que liberaria um mosh colossal no Espaço Mister, um galpão/estacionamento em ruínas, onde têm rolado festas de rap e música eletrônica em Belo Horizonte. Tal qual os shows de hardcore do início dos anos 2000, uma roda gigantesca inundou o rolê, enquanto Baco entoava seu "bate cabeça, ladrão!", entre pulos, trombadas e stage dives. O momento apoteótico foi o auge de uma noite de pedradas do rap contemporâneo de BH, representado pelas sagazes rimadoras Sarah Guedes e Bárbara Sweet e pela atual coqueluche do rolê, o DV Tribo. Para qualquer espectador mais atento, era clara a sensação de testemunhar o início do estouro de uma potência do rap brazuca. Fora do palco, a sensação permanece, já que é nítido o corre da trupe, que tem alçado voos cada vez mais loucos. O mais recente deles você saca aqui, em primeira mão, no Noisey: o clipe da música "Geração Elevada", com participação do paulista Síntese, do carioca Sant, e do também mineiro Vinição, cria de ouro do Duelo de MCs.

Formado em 2015, o DV Tribo reúne alguns dos MCs mais afiados de BH — Fabrício FBC, Hot Apocalypse, Oreia, Djonga e Clara Lima —, além do beatmaker CoyoteBeatz, figura carimbada da cena de rap da cidade. "O Coyote vira e mexe falava de montar um grupo e eu, influenciado por alguns livros do Darcy Ribeiro, pensei nesse conceito de tribo, diferente de crew, de clã. Afinal, somos um grupo do Braza, né. É uma constante busca pelo alimento, uma organização tribal pelo bem comum, com foco na cena local, em crescer como um coletivo afirmando o território", viaja Hot Apocalypse. "O DV era 'Deuses Vivos', daí pensamos: 'Porra, é muito brega!'. Já foi Dólar Verde, Doidos Varridos, entre outros. Pode ser o que você quiser."

Hot explica que os integrantes do DV se cruzaram em função de dois rolês fundamentais para a atual cultura de rua em BH: o Duelo de MCs e o Sarau Vira Lata. "Djonga começou no Sarau, Clara Lima e FBC no Duelo, eu e Oreia nos dois. E o Coyote sempre foi referência na cidade, já tendo trabalhado com vários nomes do rap nacional", conta. "Tudo o que se criou em torno da ocupação do espaço público e da arte marginal na cidade já está dando frutos. Com o destaque que ganhamos esse ano temos a responsabilidade de sintetizar o grito da cena e abrir espaço para que outros grupos possam chegar", defende o rimador.

Com letras que vão do humor à contestação, do pixo ao xamanismo, o DV transita por diferentes bases musicais. "Acho que o som do DV é um grito, uma transgressão. E uma afirmação, também, de que o rap pode ser o que ele quiser", diz Hot Apocalypse. "Não temos um limite para o nosso som nem para os assuntos que escrevemos. Simplesmente, falamos do que somos e de como enxergamos o mundão. Sem causa, a não ser que prendam os pixadores que nos inspiram", completa o MC, lembrando que as letras recorrentemente batem de frente com a guerra ao pixo instaurada em Belo Horizonte pela prefeitura e pelo Ministério Público. "Geralmente, nos reunimos na casa do Coyote e escolhemos uma base instrumental. Daí, direcionamos as letras a partir do tema que surgir na composição. Isso é muito louco porque, na maioria das vezes, o mesmo tema surge nos versos sem que a gente combine nada antes, o que reafirma a nossa afinidade", reflete.

Crias da internet, a galera do DV não se preocupa em lançar discos cheios, preferindo soltar músicas a conta-gotas na rede. Desde o chamado do Coyote, a trupe já deu cria às faixas "Intro", "Sujo", "Hino" e "Kichute, e recentemente participou do programa RapBox, onde apresentou a inédita "Diáspora". Semanas depois, veio o clipe de "A vista", outra track inédita, gravado durante a viagem em Sampa. Agora, chega o vídeo quente-pelando de "Geração Elevada": "A música e o clipe foram gravados no mesmo dia. Já tínhamos falado com o Síntese sobre fazer um som e o Sant estava na city, daí eles conectaram o Vinição e colamos na casa do Coyote para a sessão. O resultado foi tão foda que decidimos ir pra rua gravar o vídeo na mesma hora", conta.

"O som fala desse novo rap 'made in Brasil', de como vemos a cena e nos afirmamos nela", continua Hot. "'Geração Elevada' é a geração que não se prende mais às tretas e polêmicas, a geração que faz acontecer. O clipe mostra um rolê nas ruas de BH, inspirado nos vídeos do Wu-Tang, do Pharcyde, de grupos que são influência pra nós desde o princípio e que têm uma proposta estética próxima", explica, já maquinando as próximas paradas. "Vamos lançar um disco no ano que vem e queremos viajar pelo Brasil fazendo shows, conhecendo a cena das outras cidades. Algumas tracks já estão prontas, com participações de peso, como Sombra, Nectar Gang e Froid. Também vamos lançar trabalhos solos de cada MC e um disco de instrumentais do Coyote. A gente não para, mano".

Assista o clipe de "Geração Elevada":