Como Mourão virou uma pedra no coturno de Bolsonaro

Falas do candidato à vice desnudam uma parte importante do pensamento bolsonarista, que fica ocultado para não perder votos.

|
27 Setembro 2018, 8:52pm

Hamilton Mourão. Crédito: IADC.

Desde 2016 o presidenciável brasileiro sabe muito bem que tem que tomar cuidado com vice. Não à toa, todo mundo tentou achar um vice mais ou menos alinhado com sua ideologia. Ciro Gomes (PDT) vem de chapa puro sangue com Katia Abreu (PDT), depois de ser largado no altar pelo PR e pelo PSB, assim como Guilherme Boulos (PSOL) e Sonia Guajajara (PSOL). Marina Silva (Rede) foi procurar o também ex-petista Eduardo Jorge (PV) para tentar alguma musculatura. Fernando Haddad (PT), escaldado com Temer, foi com a comunista Manuela D’Avila (PCdoB). Quem parecia mesmo se arriscar era Geraldo Alckmin (PSDB), que escolheu Ana Amélia (PP), cujo partido vota 17 no Sul e 13 no Nordeste. Mas ninguém imaginaria que a chapa militar formada pelo ex-capitão Jair Bolsonaro (PSL) e o general reformado Hamilton Mourão (PRTB) fosse ser a mais desencontrada delas.

Em uma palestra realizada em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, Mourão declarou que o 13º salário e as férias remuneradas, direitos trabalhistas previstos na CLT, são uma “jabuticaba”, ou seja, algo que só existe no Brasil. As críticas do general aos direitos trabalhistas foram rapidamente usadas pelos seus adversários internet afora, de Alckmin (que já incluiu a fala de Mourão em seu programa de TV) a Guilherme Boulos e João Goulart Filho (PPL). A comoção foi tão grande que Bolsonaro teve que desautorizar o vice ao vivaço no Twitter. Além disso, dizem que o capitão mandou o general cancelar toda a agenda e ficar em casa até o dia 7 de outubro, data do primeiro turno das eleições.

Mourão tem sido uma pedra no coturno de Bolsonaro desde o seu primeiro dia de campanha, quando declarou que o Brasil teria herdado “a indolência do índio e a malandragem do negro”. Após Bolsonaro ser esfaqueado em Minas Gerais, se apressou para consultar o TSE para ver se podia substituir o capitão nos debates da TV, sem falar com a família ou o partido do presidenciável.

Mourão disse em entrevista recente à revista piauí que se tolhido pelo que chama de “politicamente correto”: "Você fica asfixiado, parece que teu pensamento não pode ser expresso. Se expressa seu pensamento de forma sincera, você é condenado, então tem que ficar camuflando as coisas, como a maioria dos políticos faz". Entre as opiniões “controversas” declaradas por Mourão está a ideia de que famílias sem pai ou avô são “fábricas de desajustados”, chamou os parceiros comerciais da América Latina de “mulambada”, aventou a possibilidade de um “autogolpe” e defendeu uma nova constituição, escrita por notáveis, sem a participação dos eleitores (bem bolivariana ela).

As trapalhadas de Mourão não assustaram só a campanha de Bolsonaro. Colegas de farda, da ativa e reserva, teriam ligado diretamente para o vice-candidato para pedir para ele baixar a bola depois de declarações questionando a lisura do processo eleitoral brasileiro – pouco tempo depois, Mourão chamaria de “fake news” um post do vereador do PSL e filho de Bolsonaro, Carlos, que dizia que as urnas eletrônicas seriam fraudadas.

Apesar disso, a fala solta de Mourão traz à tona, como ele mesmo lembra, opiniões que no jogo político normal seriam escondidas — ou seja, desnuda uma parte importante do pensamento bolsonarista, que fica ocultado para não perder votos. O próprio Bolsonaro já defendeu publicamente opiniões impopulares do mesmo quilate — falou, por exemplo, que o trabalhador vai ter que decidir entre ter direitos e ter emprego, e propôs a criação de uma carteira de trabalho verde e amarela, que garantiria contratos que se sobrepusessem à CLT. A fala que chamou os vizinhos de “mulambada” se alinha com a crítica de Bolsonaro às relações exteriores “ideologizadas” do Brasil. Uma reportagem da revista Época mostra que também há um número de oficiais no Exército que tende a concordar com Mourão – se eles também são a favor do fim da estabilidade no serviço público, se também fosse estendida aos militares, não se sabe.



Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube.