A desgraça sem graça do fã racista de rap

É óbvio, mas hoje em dia parece loucura dizer que não existe nada inocente, ou engraçado, numa piada sobre raça.

por Felipe Pessanha; ilustrado por Amanda Jungles
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21 dezembro 2017, 3:03pm

Parecemos estar andando em círculos. Todos os dias em alguma thread do Twitter, comentário no Facebook ou roda de rima, o mesmo assunto é discutido. O racismo escancarado na comunidade do rap de todo o país. Todo dia emerge uma nova prova de que o assunto ainda precisa ser extensamente discutido. Não é incomum, por exemplo, escutar piadas protagonizadas por "um negro". Num país onde o branco ainda é considerado o padrão, aquilo que está fora da curva permanece sendo motivo de chacota. Escondido nas demonstrações de humor negro, está uma violência que conhecemos bem.

Uma enorme parcela da população sendo diminuída através de piadas, sendo representados como criminosos, animais. Não existe nada inocente, ou engraçado, numa piada construída para ofender. Me parece claro que o objetivo é esse: ofender, manter a posição do negro como inferior no imaginário popular. Mas quando um negro aponta isso, é confrontado com todo tipo de justificativa. Desde "eu não sou racista, tenho amigos negros" até "mas isso não é ofensivo, é só uma piada". Vemos brancos tentando decidir até mesmo o que nos ofende. Uma situação ainda mais revoltante quando alguém envolvido com a cultura, majoritariamente negra, do rap, se comporta dessa forma.

No fim de novembro, o youtuber Bruno Fabil (21) se enrolou ao ser confrontado com prints de piadas racistas que havia feito no Twitter. Sua primeira reação, argumentar. Se justificando como um comediante, disse não acreditar que suas piadas eram ofensivas. Alegando, posteriormente, que vários dos prints eram na verdade falsos, relacionou o aparecimento deles à seu desentendimento já relativamente antigo com o rapper Raffa Moreira.

Não seria a primeira vez que Raffa seria amplamente criticado, por Fabil ou pelo público, por sua posição forte contra o racismo. Mas realmente importa de onde a denúncia vem? Não existe hype no exercício emocionalmente exaustante de se expor publicamente e ir contra o racismo. O fazemos porque é necessário. Raffa não foi o único a pensar dessa forma. O rapper Delatorvi (24), de Belo Horizonte, foi na verdade o primeiro a fazer as denúncias, e não Raffa. Ao compartilhar em seu próprio perfil do Twitter links para as piadas racistas de Fabil, Delatorvi iniciou uma discussão sobre respeito. Por que a comunidade do rap ainda aceita e defende esse tipo de comportamento?

“Eu acredito que tudo começa na falta de construção de identidade do brasileiro como afrobrasileiro.” É o que me disse Delatorvi, quando trocamos uma ideia a respeito. “A gente cresce com o pensamento direcionado pro lado europeu. Existe uma demonização estética, religiosa, musical daquilo que é negro quando comparado com o caucasiano, vamos dizer assim. Tudo que é negro incomoda. E é no mínimo estranho que as pessoas não entendam isso. As pessoas não percebem que estão reproduzindo racismo. Dizem ‘Eu não faço isso.’ ou ‘Eu até tenho parentes que são.’ e isso é muito raso, tá bem além disso. É uma questão de empatia. Não é porque você não é assim que milhares de outras pessoas não sejam. A gente vai perpetuando isso quando a gente chama de louco quem tá tentando apontar isso.”

Post do Delatorvi no grupo do Rap Cru no Facebook sobre o Fabil. Foto: Reprodução

O youtuber eventualmente apagou um monte de vídeos do canal, incluindo a resposta às acusações de racismo e os tweets citados pelo Delatorvi.

Consideramos loucura apontar piadas racistas. Estamos prontos pra demonizar pessoas que não fizeram nada além de cobrar um posicionamento mais responsável acerca das questões raciais dentro do rap. “Você cresce escutando piada sobre negros ou sobre brancos? O que acontece nas escolas? Eu estudei numa escola particular onde eu era um dos únicos 2 negros numa sala de 33 pessoas. Você acha que as piadas eram sobre o meu cabelo crespo ou o cabelo liso dos meninos e meninas brancos?” Questiona o MC. “Eu sei que incomoda. As pessoas brancas não estão acostumadas a ouvir esse tipo de coisa no dia a dia. Mas até onde vai o limite do humor, tá ligado? Um branco dizendo algo sobre uma minoria, onde grande parte das pessoas nem se reconhece, é humor, justamente porque são eles que ditam a regra de quando ofende ou não.”

Quando colocamos assim, vemos o quão gritante é a falta de respeito. É comum que um branco ofenda um negro, mas quando confrontado com isso, não peça desculpas ou se retrate, mas sim parta para a ridícula argumentação: “Isso não deveria te ofender.” Ou até mesmo o velho “Meu amigo\parente negro não se ofendeu, logo você também não deveria.” Nas palavras do rapper, “isso não passa de um suporte, um aval pra falar o que bem entender de uma cultura que não é sua. Eles gostam de nós longe, ou omisso, aceitando isso.” Continua o MC. “É legal né? Usar dread, se vestir como a gente, fazer piada… Ainda mais legal quando tem um amigo negro pra você se escorar e dizer que isso não é segregação.” Esse é um assunto que Delatorvi já explorou em suas letras. Na música “Melô Anti KKK” do seu projeto A Vida de Emmett Till, em parceria com o produtor LR Beats, por exemplo, vemos os versos:

Seu olho claro não incomoda
O foda é na sua banca fazer cota
Não vem fazer meu povo de chacota, corta!

“Em várias dessas bancas, o preto é só um figurante.” Lamenta Delatorvi, ao comentar sobre a versão profissional do argumento do amigo negro. “E eles acham normal colocar negro pra fazer papel de segurança abrindo porta de carro pra eles em clipes. Acham normal que num show o público seja só gente rica e branca. Isso é uma forma de segregação, não precisa ser explícito pra ser racista. Se já incomoda dizer que o cara tá sendo indiretamente racista, imagina quando a gente aponta assim: Seu racismo tá bem claro, literalmente.”

Entre 2012 e 2016, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estátistica (IBGE), o número de brasileiros que se autodeclaram pretos, aumentou em 14,9%. No mesmo período, aqueles que se consideram pardos também cresceram em quantidade, e o percentual de brancos diminuiu. Os pardos, passaram a ser a maior parte da população brasileira, 46,7%. Em segundo lugar, os brancos, com 44,2%. O crescimento da população negra é um sinal de que estamos caminhando para um entendimento melhor das nossas próprias identidades e possivelmente uma situação mais igualitária. Devemos estar atentos, porém, a como somos representados, principalmente nos meios culturais majoritariamente negros. Brancos devem estar atentos aos seus comportamentos. Não são os brancos quem decidem quando algo é racista ou ofensivo, ou pelo menos não deveria ser.

Felipe Pessanha é artista plástico, rapper e um dos fundadores do coletivo Tumor.

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