retrospectreta 2018

A música do Brasil em 2018 foi pautada pela dor de corno

O sentimento masculino de rejeição e infidelidade que fez a cabeça dos ouvintes brasileiros neste ano e a guinada ao retrocesso e conservadorismo não são coincidências.

por Amanda Cavalcanti; ilustrado por Tito Trigo
18 Dezembro 2018, 9:00am

Enquanto o Rio de Janeiro se ocupou com a putaria acelerada do 150 BPM, o funk no resto do país ao longo de 2018 foi ficando cada vez mais romântico e sensível. Se MC Kevin, o Chris estava indo ao baile da gaiola na intenção de fuder e Ludmilla não queria que ninguém encostasse no seu baseado, as preocupações de outros MCs ao redor do Brasil têm sido muito mais centradas em relacionamentos românticos, dramas amorosos e paixões não-correspondidas. Principalmente o último.

A tendência já vinha rolando desde o ano passado: o grande hit do verão de 2017, afinal, foi "Deu Onda", do MC G15, que também emplacou "Cara Bacana". Outros sons que fizeram muito barulho foram "Amar, Amei" do romântico MC Don Juan e "Fazer Falta", do Livinho. Gaab e MC Hariel também gravaram a parceria "Tem Café".

Mas foi só em 2018 que o funk romântico realmente engatou, e o paulista MC Kekel foi o carro-chefe dessa mudança com seus dois maiores singles durante o ano, a gigante "Amor de Verdade", com MC Rita, e "O Bebê", parceria com Kevinho. Em entrevista ao G1 sobre "Amor de Verdade", Kekel disse que, até então, só havia feito sucesso com as músicas que escrevia com seu alter ego Mandella, que é solteiro e entusiasta do funk putaria – faixas como "Namorar Pra Quê?" e "Meiota" são exemplos. MC Pedrinho e Livinho também surfaram na onda romântica esse ano, com faixas como "Casal Lindo" e "Rebeca", e a parceira de Kekel em "Amor de Verdade", Rita, gravou outro hit romântico com MC Dede, "Volta Mozão".

A tendência também rolou no bregafunk de Recife. MC Bruninho estourou com seu primeiro hit, "Jogo do Amor", que discorre sobre um término, e trouxe na raia mais algumas faixas que juntaram milhões de visualizações ao longo do ano, como "A Distância tá Maltratando", uma parceria com G15, e um dueto com MC Vitinho Ferreira, "Sou Favela". Até o arrocha-funk de Aldair Playboy, que estourou com faixas como "Senta Porra" e "Vai Toma", ganhou novos temas em 2018 e chegou ainda mais longe com "Amor Falso", que ganhou uma versão em parceria com Wesley Safadão e MC Kevinho.

Mas o funk romântico não é uma novidade. Lá nos anos 90 e começo dos 2000, MCs como Claudinho e Buchecha ("Quero Te Encontrar", "Só Love"), Marcinho ("Glamurosa") e Leozinho ("Ela Só Pensa em Beijar") bombavam o chamado funk melody, com motivos mais românticos e sonoridades menos urgentes. Os motivos para esse revival podem ser alguns diferentes, como uma tentativa de aproximação com rádios e emissoras de TV, como supôs o G1 em reportagem. Uma outra boa razão pode ser a de que a música mais popular do Brasil, desde sempre, foi pautada pelo sentimento romântico.

Segundo os números de vendas elaborados pelo Nelson Oliveira Pesquisas de Mercado (Nopem) entre 1965 e 1999, e reproduzidos num artigo do Doutor em Ciências da Comunicação pela USP Eduardo Vicente, a música classificada como "romântica" foi mais vendida no Brasil do que gêneros como MPB, samba e rock pelo menos até 1989. A categoria, é claro, é um agrupamento de artistas inicialmente ligados à jovem guarda (Wanderléa, Ronnie Von) e cantores de público mais tradicional, como Nelson Ned e Agnaldo Timóteo. A partir do começo dos anos 1990, o consumo do ritmo diminuiu, mas as letras românticas continuavam sendo a base do sertanejo, pagode e axé que dominavam as rádios do país.

Em 2018 isso continua acontecendo em todos as regiões do país: além dos gêneros supracitados – dos quais apenas o sertanejo permanece em voga, mas dividindo com o funk o posto de maior do país – o forró de parte da região nordeste, o brega pernambucano e o tecnomelody paraense também contam com letras em que predomina o sentimento romântico.

Mas mais do que apenas o sentimento romântico, a música do Brasil foi e é muito pautada pelo medo ou reação infidelidade conjugal, conhecida popularmente como a dor de corno. Se em 1977 Roberto Carlos cantava sobre o sofrimento causado pela mulher que ele queria que fosse só sua, em 1998, Gian e Giovani recebiam o convite do casamento da mulher que amavam, em 2002 o Revelação lhe queria só pra ele, como as ondas são do mar, e em 2018 Zé Neto & Cristiano estão largados às traças enquanto ela não volta.

"A música reflete algumas realidades que a gente vivencia. Uma delas é essa desilusão, a sofrência por um parceiro. Para a música ter um interesse de mercado, ela precisa falar de temas com os quais eu me identifique", fala o psicólogo e especialista em relacionamentos amorosos Thiago de Almeida. Em 2007, ele publicou um estudo de mestrado sobre o ciúme romântico e infidelidade amorosa entre casais héteros paulistanos, e chegou à conclusão de que o modo de encarar a fidelidade é principalmente definido pelo sexo do traído. "O homem tem uma preocupação maior com a infidelidade sexual, não com a romântica. O inverso acontece com as mulheres, elas tem uma preocupação maior com esse parceiro que está enveredando pro lado emocional", destaca.

Isso é claro quando olhamos, por exemplo, para a ascensão do feminejo nos últimos anos. Por mais que faixas como "Infiel", da Marília Mendonça, e "50 Reais", de Naiara Azevedo e Maiara e Maraisa sejam marcadas pela mágoa típica de quem sente a infidelidade, ela raramente vem acompanhada do bom-mocismo picareta e vontade de vingança estampadas em, por exemplo, "Amor Falso" ou "Largado às Traças". Em entrevista, Cristiano, parte da dupla com Zé Neto, acredita que o sucesso deles teve a ver com uma reação ao feminejo. "A gente brinca que sobreviveu ao feminejo. Mas o mercado estava sem uma dupla masculina. E a gente conseguiu cantar o que o povo gosta de ouvir", falou ao G1 .

Almeida comenta sobre o incômodo da independência feminina na perspectiva dos relacionamentos amorosos. "A própria emancipação política de decisões femininas retrai o homem e o deixa em alerta porque, hoje em dia, diferentemente do que se fazia lá atrás, a mulher pode ir e vir porque tem seu próprio ganho", diz. Esta ascensão das mulheres, então, também facilitou para que uma reação conservadora e corna da música se formasse em 2018.

Nada mais apropriado, afinal, para um ano em que Jair Bolsonaro foi eleito presidente – eleição essa que foi baseada ao menos parcialmente em sentimentos de rejeição de uma classe que perdeu seus privilégios ao longo da última década. A música mais tocada no Brasil nesse último mês explica melhor o sentimento de esperança bom-moço que encontrou a boa menina: "Vai na fé, aposta nela / Que ela é uma boa menina / Vamos pular / A parte que eu peço aquele vinho do bom / A taça não merece tirar seu batom / Deixa comigo que pra isso eu tenho o dom."

A preferência dos sertanejos pelo presidente começa a fazer mais sentido quando se percebe que a dor de corno está sempre ligada ao mais podre machismo e conservadorismo. Não à toa foi ela quem definiu a música do Brasil em 2018.

Leia mais no Noisey, o canal de música da VICE.
Siga o Noisey no Facebook e Twitter.
Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube.