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Larry Clark continua fazendo filmes sobre jovens transando

“Sou fotógrafo há quase 60 anos, então sei do que a câmera gosta.”

por Seth Ferranti; Traduzido por Marina Schnoor
12 Novembro 2018, 9:00am

Cena do filme 'Marfa Girl 2', de Larry Clark. Crédito: divulgação

Quando o primeiro filme de Larry Clark, Kids, foi lançado em 1995, rolou um alvoroço. Um filme brutal sobre sexo, drogas e adolescentes, o longa desafiava limites da sociedade educada. Ele nunca poderia ser feito hoje, algo que o diretor reconheceu numa exibição de aniversário de 20 anos algum tempo atrás. Os filmes e a fotografia de Clark sempre deixaram as pessoas desconfortáveis. É por isso que agora, mais de duas décadas depois e com vários filmes em sua carreira, muita gente continua devota ao cineasta.

Não importa quão distorcidas, suas narrativas e paisagens cruas dão vislumbres sempre profundos e impactantes, retratando o pico da angústia niilista. Em seu trabalho, ele ilumina um submundo frio mas humano onde garotos estão no comando das próprias vidas e se divertem numa orgia de superações, conquistas, desespero e a grandeza do uso de drogas.

Muitas vezes, ele justapõe questões morais como estupro e assassinato com como as pessoas reagem e se adaptam quando se encontram nessas situações que alteram suas vidas. Seu novo filme, Marfa Girl 2, sua primeira sequência, continua essa tendência, e estreia dia 2 de novembro nos EUA. A VICE falou com Clark pelo telefone para saber por que ele achou importante fazer uma sequência de seu filme menos conhecido, Marfa Girl, de 2012, como ele se tornou um cineasta, e se ele imaginava que Kids explodiria como aconteceu.

VICE: Por que era importante para você fazer uma sequência de Marfa Girl?
Larry Clark: Bom, o filme acaba e você não tem ideia do que vai acontecer com essas pessoas. Se as garotas vão ficar grávidas, o que vai acontecer com o cara que atirou no policial, todas essas questões. O filme acaba onde você não sabe o que vai acontecer, então eu queria fazer outro mostrando o que aconteceu com essas pessoas. Essa era a ideia.

Quando fez Marfa Girl, você já tinha planos de fazer dois filmes, ou foi só algo que aconteceu com o jeito como o original saiu?
Simplesmente aconteceu pelo jeito como o filme acabou. Eu estava escrevendo Marfa Girl enquanto filmava. Eu acordava às quatro da manhã e escrevia, e depois a gente filmava o que eu tinha escrito naquela manhã. Marfa Girl 2 também foi feito na hora. Comecei a filmar e escrever. Para mim é muito divertido fazer as coisas em cima da hora e ir inventando a cada dia, a cada hora.

"Eu acordava às quatro da manhã e escrevia, e depois a gente filmava o que eu tinha escrito naquela manhã"

Levou mais tempo para filmar porque você não tinha tudo planejado?
Foi bem rápido. Era algo novo que eu estava experimentando e foi muito divertido. Esse provavelmente é o filme que mais me diverti fazendo. Eu estava lá. Eu estava lá tendo ideias e filmando. Não tinha muita estrutura, mas fiquei feliz com como tudo deu certo.

Os atores que você usou nos dois filmes (Adam Mediano, Drake Burnette e Mercedes Maxwell)... como você acha que eles cresceram nesse novo longa?
Acho que eles são muito, muito bons. A Drake é incrível. Ela é uma atriz maravilhosa, o Adam também. O novo filme também tem Jonathan Velasquez, que estava em Roqueiros. Dez anos depois, ele está em Marfa Girl 2.

Encontrei o garoto que usei 10 anos atrás e dei a ele um papel importante em Marfa Girl 2.

Você é conhecido por elencar atores iniciantes ou de primeira viagem. O que tem nessas pessoas que chama sua atenção e te faz decidir que quer fazer um filme em torno delas?
Sou fotógrafo há quase 60 anos, então sei do que a câmera gosta. Sou atraído por essas pessoas e, quando as conheço, quase posso garantir que elas vão se sair bem.

Em Marfa Girl 2, Drake está lidando com as consequências de um estupro que aconteceu em Marfa Girl, como foi colocá-la nisso enquanto diretor?
Sim, ela é fantástica. Não tinha como eu fazer ela fazer o que fez. Ela é uma atriz incrível. Fiquei impressionado com a atuação dela.

"Ninguém acha que vai viver mais de 30 anos"

Você sempre foi um cara visual, olhando pelo enquadramento sua vida toda, começando com seu livro de fotografia Tulsa em 1971. Você acha que o livro levou à sua carreira como cineasta? Era isso que você queria, ou só aconteceu?
Não, só aconteceu. Sempre quis fazer filmes, e olhando Tulsa, esse livro é como um filme. É uma história visual com pouquíssimas palavras. Talvez cinco ou seis no livro inteiro, e funciona como um filme porque eu queria fazer um filme, mas era impossível. Agora fiz filmes como Kids e tudo mais. Então acho que sempre quis ser cineasta.

A maioria dos seus filmes são sobre jovens. Você acha que os garotos dessa idade, de 15 a 25 anos, são destemidos e acham que vão viver para sempre?
Essa é uma pergunta engraçada. Acho que as coisas simplesmente são assim. Ninguém acha que vai viver mais de 30 anos. Ninguém acha, com certeza a garotada não acha, mas aqui estão eles. Não sei por que as coisas são assim, mas sempre senti isso.

Você é conhecido por documentar a vida no limite, ou dar vislumbres de coisas que as pessoas geralmente não veem. Qual você diria, pensado em todo seu trabalho até agora, que é seu objetivo definitivo com seus filmes e obra?
Provavelmente ir lá e fazer, e colocar o trabalho no mundo. Essa é uma pergunta meio estranha pra mim, porque quando termino uma coisa meio que perco o interesse. É quase só uma questão de completar o trabalho. A realização.

O que você fez nos anos entre Tulsa em 1971 e Kids em 1995? É muito tempo para uma pessoa criativa como você. Por que levou tanto tempo?
Sempre trabalhei. Não importa o que estou fazendo, estou sempre trabalhando. Acho isso muito importante, continuar trabalhando. Fui de um fotógrafo cujo primeiro livro impressionou muitas pessoas para meu primeiro filme, Kids, que é a mesma coisa. O meu negócio é estar sempre trabalhando. Vou fazer outro filme. O tempo todo é para trabalhar.

"Só estou tentando mostrar a vida, só isso. É muito simples"

Trabalhando na indústria do cinema com muita gente jovem, você se vê tentando ajudar as gerações mais novas de algum jeito?
Com certeza, sim. Estou sempre tentando educar os garotos. Isso é muito importante para mim, porque sinto que eles deveriam ouvir minhas experiências.

Seu trabalho sempre foi chamado de provocador, explorador e ousado. Você vê tudo isso quando está fazendo suas obras, ou é só uma coisa que todo mundo diz quando vê o resultado?
Vejo tudo que faço. Sei o que faço. E para Marfa Girl 2, você tem que assistir Marfa Girl 1 para entender o que está acontecendo. Só estou tentando mostrar a vida, só isso. É muito simples.

Quando fez Kids, você imaginava o para-raios que ele se tornaria e toda a publicidade em torno dele?
Eu estava tentando fazer um filme que nunca tinha sido feito e fiquei totalmente satisfeito com o resultado, acredite. Para mim, ficou perfeito. Quando começamos a receber a atenção de imprensa, de Tom Brokaw, NBC News e tudo mais, me pareceu certo. Fiz muita coisa antes desse filme. Conheci centenas de garotos e aprendi a andar de skate aos 48 anos, o que é muito difícil. Gosto de dar duro em tudo na minha vida. Coloquei meu tempo nele e fiquei muito feliz com aquele filme.

Pensando agora, qual você diria que é seu filme mais subestimado?
Não acho que tenho um. Para mim, a coisa é fazer o trabalho. Não importa o que fiz com a minha vida, sempre fiz trabalhos. Quando termino um filme, tento seguir em frente.

Qual a coisa mais importante que você aprendeu na sua carreira?
A coisa mais importante é que sempre tento contar a verdade. Provavelmente é isso. Não ser falso, dizer a verdade do jeito que é, mentir se for o tipo de mentira certa. Especialmente com Marfa Girl e Marfa Girl 2, é tentar explorar o que realmente acontece nas nossas vidas. Por isso tem Marfa Girl e a sequência. Talvez eu faça uma trilogia, o que acontece com os personagens depois.

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