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Os blocos feministas do Carnaval do Rio de Janeiro vêm aí

Cansadas de assédio e machismo, as cariocas se organizaram pra mulherada ter menos desgaste e mais curtição em 2019.

por Bibiana Maia
14 Fevereiro 2019, 1:50pm

Integrante do bloco Mulheres Rodadas. Foto: reprodução/Facebook

Segura, segura, segura seu machista. Se depender das cariocas, o carnaval de rua do Rio de Janeiro vai ser todo feminista. Apesar do clima conservador na política, com o comando do prefeito Marcello Crivella (PRB), ex-bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, e do governador Wilson Witzel (PSC), que foi de azarão a eleito ao apoiar o presidente Jair Bolsonaro (PSL), se multiplicam os blocos liderados e compostos por mulheres, que exaltam a figura feminina em seus repertórios. E em razão deste crescimento exponencial, elas agora se articulam para realizar um evento que reúna todos os grupos, o Carnaval das Mulheres, em março, depois da folia oficial. A VICE compilou vários blocos pra você conhecer as novatas e as veteranas desta folia feminista carioca.

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Foto: PH de Noronha

Calcinhas Bélicas

Estreante, o bloco reúne 25 componentes entre musicistas e pernaltas, e traz no repertório "Believe", da Cher, e "Kátia Flávia", de Fernanda Abreu – daí a inspiração do nome. "O bloco nasceu de um grupo de amigas para fazer um bloco de mulheres, porque isso é a coisa mais comum entre os homens. Foram amigas que se uniram para tocar músicas de divas", conta a produtora Carina Rocha, produtora, de 31 anos. Apesar de manter o clima de brincadeira, ela conta que é impossível não ter engajamento: "Eu toco timbal há 10 anos e ainda sofro por isso. Sou monitora no Multibloco e já aconteceu de homens se interessarem (na oficina) e quando viram que era uma mulher ensinando eu percebi a surpresa e a decepção e eles não voltaram".

Quando: 6 de março, quarta-feira de cinzas, ainda sem local.

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Foto: Isis Zaidan

Bloconcé

Outra novidade, surgiu de sete amigas que se conheceram em outro bloco famoso no Rio, o Amigos da Onça. Ela foram tomar uma cerveja depois de um ensaio e tiveram a ideia de homenagear a Queen Bey. "É um bloco neném, tem quatro meses agora, e tem expectativas para o futuro de fazer oficina, porque a gente tem muita procura", conta a produtora Kaenne Faria, de 28 anos. A primeira música, "Crazy In Love", foi tirada de uma partitura na internet e, quando viram que daria certo, criaram os arranjos para o repertório que já tem 15 sucessos. "É pré-requisito pra gente que todos os aspectos (do bloco) sejam guiados por mulheres. Eu acho que é importante, principalmente no atual cenário político, manter essa pegada, engajar e meter a cara na rua", conta Kaenne. São 70 componentes entre ala de música, perna de pau e dança.

Quando: data e local ainda indefinidos.

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Foto: Lolla Angelucci

Maria Vem Com As Outras

A bloca, como preferem ser chamadas, surgiu da necessidade de um espaço em que as mulheres pudessem tocar sem sofrer os machismos comuns aos blocos. Elas então criaram o grupo Carnaval das Mulheres e Representatividade Feminina, em 2016, no Facebook, para reunir interessadas. "Em poucas horas, tinham trocentas mulheres. O que só comprovou a necessidade de ter um espaço para mulheres no carnaval", lembra Marina Ferreira, de 36 anos, umas das integrantes. Doze mulheres então se reuniram e deram início à construção da bloca, com práticas coletivas para ensinar a tocar os instrumentos. Com a intenção de descentralizar o carnaval, hoje as atividades se dividem entre Zona Norte e Centro. Elas funcionam de forma horizontal, se organizando em grupos de trabalho e, atualmente, são 110 integrantes entre musicistas e pernaltas.

Quando: ainda não tem data e local divulgado.

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Foto: Berg Silva

Mulheres Rodadas

O bloco surgiu em 2014, a partir de uma ironia feita com um post em uma comunidade que se chamava "Jovens de Direita", que viralizou dizendo "eu não mereço mulher rodada" – cujo intuito era criticar a rotulação e as escolhas femininas. O caso aconteceu antes da Primavera das Mulheres e de hashtags como #meuprimeiroassedio, mas para a jornalista Renata Rodrigues, de 43 anos, uma das fundadoras, ecoa movimentos que já propunham novas formas de fazer política. O primeiro desfile trazia 50 componentes e atualmente são cerca de 200 integrantes, onde 90% são mulheres, e o homens não assumem posição de liderança. Sobre o crescimento de blocos de mulheres, Renata comemora. "Os grupos têm propostas diferentes: uns agregam homens, outros não; uns são compostos por mulheres lésbicas, homens trans. Ter presenciado esse crescimento, e fazer parte dele é algo sensacional", menciona.

Quando: 6 de março, na quarta-feira de cinzas, no Largo do Machado.

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Foto: Bleia Campos

Toco-Xona

As amigas Bruna Capistrano e Michele Krimer se conheciam há 7 anos quando fundaram o Toco-Xona, em 2007, pois elas zoam dizendo que quem leva toco, se apaixona. Um dos blocos mais antigos da cena, elas contam que queriam fazer algo diferente do que existia, e apostaram em um repertório de pop e rock, com divas como Amy e Rihanna, mas também homens como Cazuza. O bloco é formado por 18 componentes, sendo 17 mulheres e um homem: "É um bloco feito por mulheres, que resolvem tudo, e há pouco tempo assumiu uma coisa lésbica. Foi uma necessidade do movimento da sociedade, necessidade da resistência", diz Bruna. A brincadeira aos poucos tomou um contorno político, e teve ponto alto em 2017, quando elas homenagearam Madonna, que havia feito um discurso épico ao receber o prêmio de Mulher do Ano da Billboard. Este ano o enredo é "Empodera": "Exaltamos o que a mulher pode conquistar e a nossa força infinita, a força da mulher sapatona", diz Michele.

Quando: 16 de fevereiro no Cine Joia, em São Paulo, e dia 3 de março, domingo de carnaval, no Aterro do Flamengo.

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Foto: divulgação

O Rebu

O bloco lésbico surgiu em 2017, depois de assédios vivenciados em um bloco gay. Elas postaram no Facebook uma chamada para construir um bloco "de sapatão para sapatão". "Fomos aprendendo juntas. O que uma havia aprendido numa oficina ensinava para outra, e o que não sabia buscava nos tutoriais do YouTube", diz a cineasta Dani Pinheiro, de 38 anos. No início eram cinco mulheres, hoje são 11, e elas também criam paródias. "'Maria Sapatão' a gente refez para ficar mais correta a visão de sapatão. Ao invés de 'de dia é Maria de noite é João', a gente canta 'não mexe com a maria ela não pega macho não'", conta Dani. O Rebu "quer dar protagonismo à letra L", e não foge da militância: "Fazemos falas sobre lesbocídio e citamos a Marielle no nosso show".

Quando: 3 de março, domingo de Carnaval, no Catete.

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