Entrevista

'Clímax', novo filme de Gaspar Noé produzido pela VICE, é uma festa que vira enterro

Diretor franco-argentino mostra a autodestruição de uma família peculiar. Conversamos sobre terror, drogas e cinema.

por Marie Declercq
30 Janeiro 2019, 4:02pm

Fotos por Larissa Zaidan/VICE Brasil

Gaspar Noé não teve paz durante a pré-estreia do seu último lançamento, Clímax, em São Paulo. Entre a multidão de espectadores, jornalistas e assessores que acompanhavam cada passo que o diretor franco-argentino dava no pequeno espaço da Reserva Cultural, Noé parecia incomodado com um grupo de fãs de carteirinha que o seguiam e tentavam arrancar um autógrafo ou uma foto. Pra entrevista, pediu para eu esperar a exibição do filme para despistar seus seguidores. "Tem sempre uns mais psychos", disse o diretor en passant para a nossa fotógrafa Larissa Zaidan.

Clímax, produzido pela VICE, foi chamado de "delírio coletivo" por boa parte da crítica, mas tendo mais a concordar com quem chamou de "pesadelo". O filme é sobre a última noite de um grupo de dançarinos hospedados em uma escola isolada no meio do inverno europeu que tomam uma sangria batizada com LSD sem saber. Noé nos faz simpatizar com o grupo de dançarinos de diversas origens juntos em nome da arte, mas acaba com essa ilusão rapidamente, como se arrancasse um band-aid que cobre uma fratura exposta. Durante uma hora e meia, vemos um grupo de pessoas destruírem os outros e a si mesmos numa sucessão de decisões erradas e uma filosofia de "cada um por si" levada ao extremo.

O espectador já é avisado sobre as pretensões de Noé. Nas cenas iniciais, vemos uma pilha de VHS com obras como Possessão de Andrzej Zulawski, Suspiria de Dario Argento e Eraserhead do David Lynch e mais uma penca de filmes e livros que servem como mapa de referências espalhadas por Clímax. Sim, a cena do aborto de Possessão foi recriada a partir dos olhos de Noé.

O mais cômico é que a organização da pré-estreia (que foi muito legal e nos atendeu com muito carinho) tentou emular um coquetel com alguns elementos da festa em que se passa Clímax. Havia até copos de plástico com o líquido vermelho parecido com a sangria psicodélica servida no filme. Após assistir o filme e sair com o sentimento ruim (típico dos filmes de Noé), suspeito que ninguém realmente gostaria de simular o dito convescote.

Após uma longa espera e mais alguns minutos aguardando Noé ver se estava tudo certo com o som do filme que foi exibido em duas salas no Reserva Cultural, o diretor explicou que suas intenções em mostrar suas referências são mais simples do que imaginam. "Eu só estou tentando ser humilde", disse.

Recém-chegado em São Paulo, Gaspar já saiu para comprar DVDs do Zé do Caixão e conhecer a Cracolândia (dentro de um carro). E durante a exibição de Clímax, o diretor conversou comigo sobre filmes de terror psicológico, festas que dão errado e o cinema enquanto criação coletiva.

O filme estreia nesta quinta-feira (31) nos cinemas brasileiros.

VICE: Eu fiquei muito curiosa quando no começo do filme você mostra uma pilha de livros e VHS que acredito sejam da sua coleção pessoal.
Gaspar Noé: Sim, é apenas uma pequena parte da minha coleção porque eu tenho essa relação pessoal com esses filmes e VHS. Eu mantenho os que eu gosto, mesmo tendo eles em DVD. Inicialmente eu não achei que os colocaria na cena, mas tive essa ideia de colocar todas as referências juntas sem fazer um juízo de valor de cada diretor.

Suspiria e Possessão são filmes que estão nessa pilha de VHS, são ótimos.
Tem também dois do Fassbinder, The Inauguration of the Pleasure Dome e ainda esqueci de colocar um que é o Shivers do David Cronenberg. Foi um dos primeiros filmes dele sobre um prédio onde uma doença sexualmente transmissível começa a se espalhar pelos moradores. Eu deveria ter colocado ele lá.

Você acha importante mostrar suas referências?
Ah, pessoas costumam perguntar porque eu faço isso, mas são filmes que eu pirei quando vi adolescente. Acho que é um jeito de reinventar essas coisas misturando com uma trupe de dançarinos, mas eu só estou tentando ser humilde. Quando você faz um filme, você o faz coletivamente com seus técnicos, seus produtores e todos os atores com quem você está filmando, mas você deve ter em mente livros e filmes especiais feitos por outras pessoas. De certa maneira, 30% das ideias desse filme vieram de pessoas que já as usaram no passado.

Sobre drogas, pouco tempo atrás estava rolando um surto aqui em São Paulo sobre golpes em baladas onde davam quetamina para as pessoas achando que era cocaína.
Isso é muito perigoso, porque as doses para usar quetamina têm que ser muito, muito menores. Você dar quetamina para uma pessoa que acha que é cocaína pode causar uma overdose. E essa droga é usada para tranquilizar cavalos e todo tipo de animais. Tem drogas que são mais complicadas do que outras. A quetamina é extremamente complicada.

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Gaspar Noé em SP. Foto: Larissa Zaidan/VICE Brasil

O lance é que durante essa época muito se discutiu sobre a cultura hedonista em festas e também o uso de drogas. Isso é algo te veio em mente quando você pensou no filme?
As pessoas tomam bastante quetamina na Inglaterra, EUA e Berlim, mas na França não é muito popular. Qualquer coisa que você usar, inclusive o álcool, é sempre uma questão do quanto você vai tomar, com quem você está, onde você está e qual contexto tudo isso se encaixa. Existem experiências que podem ser prazerosas com a quantidade, pessoas e o contexto certo. Senão, tudo pode se tornar um grande pesadelo. Porém meu filme não é sobre isso, eu fiz um filme sobre drogas no passado que é o Enter The Void. Em Clímax é mais sobre como um grupo ou uma família pode destruir algo. Eu diria que a droga no filme é só uma desculpa para criar uma história sobre criação e destruição.

Uma coisa engraçada do lançamento de hoje é que estão tentando recriar o cenário da festa em Clímax, mas após assistir o filme tenho certeza absoluta que não gostaria de participar em nada parecido com isso.
Eu também não gostaria. Já vi festas que deram errado não por causa do uso de drogas, mas muito por causa do uso excessivo de álcool e a tristeza. Existem pessoas que não conseguem lidar com isso quando bebem. Mas claro que quando as pessoas viram o filme falaram "nossa estou feliz que esse tipo de coisa nunca aconteceu comigo", assim como as pessoas gostam de assistir filmes sobre a guerra porém ninguém quer estar em uma. Exceto pessoas que realmente são soldados que gostam de crueldade humana.

Você chegou a assistir Paris Is Burning?
Eu assisti metade e dormi, mas eu não me inspirei no filme, fiquei mais inspirado nos bailes de voguing que fui algumas vezes e também assisti o documentário Rize do David Lachapelle sobre dançarinos de krump e lembro de ver uma batalha entre duas crianças dançando como se estivessem possuídas pelo demônio. Eu fiquei impressionado em como alguém consegue dançar dessa forma tão louca.

O filme não é sobre voguing, tem seis dançarinos dentre os personagens, mas também tem krumpers, waackers e alguns de eletrodancers. Tem também um acrobata, um contorcionista de Camarões.

Sua experiência anterior em dirigir videoclipes te ajudou em alguma forma a filmar as cenas de dança?
Na verdade não, eu fiz um videoclipe só que tem uma garota dançando para um artista chamado Sebastian chamado "Love in Motion", mas nunca filmei pessoas dançando. Aliás, tem muitas coisas nesse filme que eu nunca havia tentado. Filmei em ordem cronológica, tudo acontece em uma noite em uma locação só.

E você participa em todas as etapas dos seus filmes. Você filma, edita, escreve e tudo. Como não enlouquecer com o processo?
Acho que eu ficaria louco se deixasse outras pessoas fizessem isso. Editar o filme é muito divertido, operar a câmera é bem divertido e escrever o roteiro ao vivo com os atores é muito legal. Eu gosto de trabalhar com outras pessoas.

Toda entrevista que acho com você sempre querem falar da cena de estupro em Irreversível e as de sexo explícito em Love. Você se enche um pouco de falar sobre isso?
Quando você dirige filmes, você não gosta de falar sobre seus próprios filmes. Prefiro muito mais falar sobre os filmes de outra pessoa.

Então quer conversar sobre, por exemplo, os filmes do Zulawski?
Ah, pode ser sobre a vida em geral também.

Você chegou a dar um rolê em São Paulo?
Eu cheguei hoje aqui, essa é a minha primeira vez na cidade. Nós fomos até a Cracolândia, mas não descemos do carro. Eu pedi para ver coisas estranhas na cidade e me levaram para comprar DVDs do Zé do Caixão e quis ver uma área de uso de drogas na cidade. É bem assustador. Em muitas cidades grandes você tem essas áreas de drogas, em Vancouver tem uma área assim.

Bom, falando de coisas assustadoras. Fiquei pensando aqui se seria mais assustador fazer uma maratona de filmes de zumbi ou assistir apenas um filme do Hanneke?
Olha, A Fita Branca é um tipo de filme de terror. Eu gosto de terror psicológico, na verdade. Vi recentemente um ótimo filme sueco chamado Border. Eu não fico mais assustado quando vejo, é como ler um quadrinho, fico mais assustado com outros filmes tipo aquele 4 meses, três semanas e 2 dias que é sobre duas garotas romenas tentando fazer um aborto. Eu assisti várias vezes e ainda fico aterrorizado com o filme.

Para terminar, o diretor grego Yorgos Lanthimos acabou de lançar A Favorita que envolveu certamente uma grande produção hollywoodiana. Você se vê fazendo algum tipo de produção grandiosa?
Eu não me importo de trabalhar com atores americanos, mas eu não sou atraído pela indústria americana de forma alguma. Eu não me vejo fazendo isso.

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