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Os impactos sofridos por Mariana que podem se repetir em Brumadinho

De estresse pós-traumático em crianças e jovens até a total falta de água. Já vimos esse filme. Não queríamos ver de novo. Nunca mais.

por Débora Lopes
28 Janeiro 2019, 3:42pm

Foto originalmente publicada na matéria "A apocalíptica vida sem água nas periferias de Governador Valadares (MG)". Foto: Felipe Larozza/VICE

Os danos do rompimento da barragem em Mariana, Minas Gerais, no ano de 2015, deixou um rastro nefasto. Ao longo dos anos, a VICE noticiou vários impactos absurdos deixados na conta de quem nada tinha a ver com a ganância e os dividendos da gigantesca Vale, dona da mineradora Samarco, responsável pelo crime ambiental na época. Para além dos danos físicos, morais e emocionais que as famílias atingidas em Brumadinho estão sujeitas, há também a possibilidade de que outros problemas se espalhem geograficamente. Listamos aqui alguns pontos que afetaram os arredores de Mariana e que, infelizmente, podem se repetir em Brumadinho e região.

A falta de água se transformando num cenário apocalíptico

Com a contaminação do Rio Doce, principal fonte de abastecimento da região, diversas cidades foram impactadas pela falta de água para cozinhar, beber e até mesmo tomar banho. Em novembro de 2015, quando a barragem do Fundão rompeu, a VICE esteve em algumas cidades mineiras e viu de perto o desespero das pessoas em busca de água. Em Governador Valadares, presenciamos um grupo de voluntários de mãos dadas, à noite, num bairro periférico, rezando: "Que Deus ajude nossa cidade a voltar a ser o que era antes". Se não fosse o trabalho voluntário de muita gente, a água com metais tóxicos seria a única opção para a população, que levou meses para se recuperar do prejuízo.

Estresse pós-traumático - principalmente em crianças e adolescentes

Num especial de saúde mental, a VICE publicou o apontamento de uma pesquisa realizada pela médica psiquiatra, pesquisadora e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Maila de Castro. Do total de vítimas entrevistadas na tragédia de Mariana, 42% eram crianças e adolescentes. Entre eles, 91,7% testemunharam o desastre e 8,7% receberam notícias traumáticas decorrentes do acidente. O grupo de estudos diagnosticou que 82,9% dos entrevistados deste núcleo foram rastreados positivamente para o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).

O aumento da violência doméstica

Contrariando ordens do Ministério Público, a Samarco pagou alguns auxílios pós-tragédia para homens – e não para mulheres – desestabilizando famílias na cidade. Em um dos casos que publicamos, uma mulher chegou a cortar as costas do ex-companheiro com uma faca depois de ele ter recebido R$ 20 mil de indenização e ela acabar sem teto e sem dinheiro. Antes da tragédia, ambos moravam juntos em uma casa em Bento Rodrigues. "O pior é se sentir humilhada, era muito ruim ver ele recebendo um dinheiro que eu também tinha direito”, disse a mulher.

Na época, o promotor Guilherme Meneghin mencionou que em 20% dos casos a Samarco "agiu com irresponsabilidade, repassando o cartão e a chefia da família para o homem, ao contrário do que recomendamos. Assim, ao menos metade destes casos geraram problemas onde tivemos que intervir".

O impacto econômico no turismo e no comércio local

Brumadinho é conhecida por abrigar o Instituto Inhotim, tido como o maior museu de céu aberto do mundo, e que foi fechado temporariamente no mesmo dia em que a barragem no Complexo do Feijão rompeu. A cidade é também conhecida por abrigar pousadas, fazendas e cachoeiras. Na época da tragédia, Mariana estava vazia, sem turistas, e até mesmo sem os funcionários da Vale, que faziam o comércio local girar. Numa reportagem que publicamos, uma empresária de turismo chegou a dizer que as pessoas enviavam e-mail para ela perguntando se era preciso levar água filtrada para a estadia. "Eles acham que a cidade está sem infraestrutura", comentou à época. Segundo informado pela prefeitura de Mariana ao G1, seis meses depois da tragédia, "o turismo de lazer a zero".

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