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Pabllo Vittar: "Um artista não quer seus fãs morrendo e apanhando"

Conversamos com a diva sobre seu novo álbum 'Não Para Não', suas influências de música brasileira, sonhos adolescentes e como é ser Pabllo Vittar no país de Bolsonaro.

por Yuri Eiras; fotos por Valda Nogueira
05 Outubro 2018, 12:03am

Foto: Valda Nogueira/FARPA/VICE

Pabllo Vittar dessa vez foi longe demais, mais exatamente até Los Angeles, nos Estados Unidos, para produzir o seu novo disco, Não Para Não, lançado nesta quinta-feira (4) nas plataformas digitais e distribuído pela gigante Sony Music. Mas, apesar da pitada de produtores gringos como Turbo Tito, a artista que estourou a bolha do sucesso em 2017 com hits como "K.O", "Sua Cara" e "Corpo Sensual" está mais brasileira do que nunca. O novo álbum flerta com o axé, o pagode, o tecnobrega, o forró, e bebe do que há de mais puro na fonte da música nacional, contando ainda com as participações de Urias, Dilsinho e Ludmilla. Pabllo Vittar não merece o retrocesso do Brasil atual, mas o Brasil atual precisa, mais do que nunca, da arte de Pabllo Vittar.

O Noisey bateu um papo com a estrela. Entre gargalhadas, olhos marejados e muito close para fotos, Pabllo Vittar falou um pouco desse ano louco tanto na sua carreira quanto na sociedade. Carismática que só, foi ela quem abriu a conversa. Confira a entrevista abaixo enquanto ouve o novo disco, Não Para Não:

Pabllo Vittar: Eu sou muito fã da VICE! Eu lembro da minha primeira matéria para a VICE, Eu ainda estava com “Open Bar” (o primeiro single), nem lembro o ano.

Noisey: Pois é. Agora, 2018, você lança um segundo disco. Viagem a Los Angeles para produzir o novo álbum, ensaios diários para uma apresentação histórica no Prêmio Multishow , lançamento de um novo disco. Você não descansa, mulher?
Eu costumo falar que drag não dorme. Eu tô muito feliz porque tenho trabalhado igual ao ano passado, muito focado no Não Para Não, meu novo filhinho. Eu ainda estava fazendo a turnê do primeiro álbum, o Vai Passar Mal, e no meio desses shows doidos eu me reunia com o Rodrigo Gorky (produtor de Vittar) para dar enfoque nesse projeto. E ainda tem gente que acha que é fácil fazer um álbum.

Eu quis trazer nesse álbum toda minha vivência musical, desde quando eu morava em Belém do Pará, no interiorzinho. Fazer esse álbum foi uma terapia e uma regressão. Por isso tem muito de brega, de cumbia, reggae, axé, pagodeira da Bahia. Eu amo a pagodeira da Bahia! Lembro de ainda adolescente, no Maranhão, ir aos shows de swingueira baiana.

Você foi pra gringa produzir o Não Para Não, e isso poderia indicar que as músicas viriam com uma cara de pop internacional. Mas, pelo contrário, o álbum está ainda mais brasileiro que o primeiro, que a galera já tinha pirado com a mistura de tecnobrega, as viradinhas de bateria típicas do forró. Essa brasilidade é algo que você faz questão de manter?
Eu amo música brasileira! Eu fico muito animada de falar disso. Quando eu era criança ouvia de tudo, de Caetano Veloso, Gilberto Gil, até Pixinguinha. Minha mãe ouvia Pinduca! Ele é do Norte, faz cumbia, carimbó, e eu ficava louca com o LP dele, uma foto com um chapéu de couro enorme.

O pessoal pergunta muito: “vai lançar música em inglês?”. Eu não descarto, quero sim experimentar, mas ai, eu amo tanto fazer isso! Essa é a Pabllo Vittar. Mano, a gente é muito rico musicalmente falando.

E é um álbum muito curtinho, não é? Tem dez faixas, assim como o primeiro…
Os melhores perfumes sempre vão estar nos menores frascos. E quando você dá doses homeopáticas de coisas muito boas para os fãs, eles vão ficar querendo mais.

Foto: Valda Nogueira/FARPA/VICE

Me conta sobre Los Angeles. Como foi essa experiência? Foi sua primeira viagem para os Estados Unidos?
Ter gravado esse álbum lá tem uma energia de sonho realizado. Foi minha primeira viagem, e eu aprendi muito. O lado Pabllo Vittar profissional aprendeu muito. Eu fico feliz com essas conquistas porque eu me dedico muito no que eu faço, e quando eu vejo que estou crescendo, no caminho certo, então ok, let’s go!

O Não Para Não tem uma diferença grande no seu timbre de voz. Se você ficou conhecida pelos agudos no primeiro álbum, esse tem muita faixa em tom mais grave. Você aprovou essa experiência?
Eu queria muito um álbum em que eu explorasse outras regiões da minha voz, como o grave, os médios. A qualidade vocal mudou muito do primeiro álbum para esse, o (Diego) Timbó entrou para minha equipe, é meu coach vocal, e tem dado um gás antes dos shows e principalmente nas gravações. Esse disco é legal porque minha voz está muito limpa.

Me conta sobre as participações do álbum. Você convidou Urias, Dilsinho e Ludmilla, três artistas bem diferentes entre si.
Eu amei muito. A Urias é minha amiga, minha irmã. Ela esteve comigo desde o começo, e sou fã, ela é uma puta de uma artista, com uma mensagem e uma carga muito importantes.

O Dilsinho eu conheci ano passado num programa, e achei ele um príncipe (risos)! Eu fiquei apaixonada na voz dele. Quando decidimos ter uma participação masculina no álbum, já pensei logo nele. Vamos fazer um pagodinho com o Dilsinho, vai ser bafo!

E a Ludmilla... sou fã desde as épocas mais antigas. Eu morava em Araguari (MG), ainda estava no Ensino Médio e ela já cantava uns funks babados. Uma artista maravilhosa.

Foto: Valda Nogueira/FARPA/VICE

Espera. Você morou em Araguari além de Uberlândia? Em quantos lugares você já morou na vida?
Não consigo contar. Só não morei no Sul, mas morei no Norte, Nordeste, Sudeste, e em várias cidades diferentes. E olha que nem sou filho de militar, nem cigano (risos)!

Voltando ao disco, ele é muito verão, como é a sua cara, mas a faixa “Ouro”, com a participação da Urias, traz uma mensagem muito legal. Fala um pouco sobre essa música.
Essa música é uma tatuagem de amizade. É sobre irmandade, sobre dar força para as pessoas que estão contigo desde o começo. A gente não faz nada sozinho. Nem para uma folha cair da árvore ela cai sozinha.

Eu lembro de estar no ônibus voltando da faculdade conversando com a Urias, quando eu nem sonhava em cantar. Agora, estamos gravando juntas. Olha só que doido.

Estamos numa semana turbulenta. No sábado, milhares de mulheres foram às ruas pelo Brasil afora gritar #EleNão, e rolou ato pró-Bolsonaro também. No domingo, aconteceu a Parada LGBTQ no Rio. Essa semana você lança um disco novo, e domingo tem eleição. Como é ser Pabllo Vittar no país de Bolsonaro?
Eu fiquei tão feliz de ver as mulheres indo pra rua e tomando tantos lugares, no Nordeste teve tanta gente gritando #EleNão. Diz muito sobre nossa resistência. Eu quero poder falar para a comunidade LGBT+, quero falar para as mulheres, quero falar para as mães que criam seus filhos sozinhas, que querem que seus filhos cresçam num país legal, sem tanto ódio. Falo para as pessoas de bem.

E não fica calada, mano. Nem tem como ficar calada. Tem que se posicionar mesmo e mostrar quem somos de verdade.

Você diz que não tem como ficar calada. Você acha que artistas pop que arrebatam o público LGBTQ e feminino tem a obrigação moral de se posicionar?
Os artistas em geral têm uma voz muito grande, principalmente os que estão inseridos no mercado. Eles têm o dever de mostrar para os seus fãs que estão do lado do bem, sabe? Que ele não quer ver o fã gay dele apanhando, que ele não quer ver a fã menina sendo molestada, ou tendo seus direitos negados. Que ele não quer ver os fãs dele morrendo e apanhando, não tendo emprego ou passando fome.

Acho que é necessário eu, enquanto fã, saber que você me apóia e que você não vai contra a minha existência (nesse momento, Pabllo embargou a voz). Não é só subir no palco, rebolar e ir embora. O buraco é mais embaixo.

Esse tema te toca muito, não é? Você costuma ler sobre eleição, sobre declarações de candidatos?
Eu não sou uma pessoa que vai muito atrás das notícias porque eu fico até triste. Penso: mano, como tem gente que não se informa?

Foto: Valda Nogueira/FARPA/VICE

Por falar em notícia: e as fakes news? Os memes de vice do Lula
Meu sonho (risos)!

Você leva numa boa ou te incomoda também?
A gente está ironizando algo que é real. Quando a pessoa fala que eu vou fazer uma tour falando de sexualidade nas escolas... se alguém inventa isso, é porque isso não é ensinado. As pessoas precisam de informação. O real babado é que as pessoas têm que parar de acreditar que se tá na Internet, é verdade.

Eu fuxiquei seu Instagram e percebi três coisas. Você é muito nova (Pabllo fará 24 anos em novembro).
Nem tanto!

Muito alta (mede 1,87m).
Um pouco!

E tem cara de adolescente!
Eu sempre falo para eles (produtores) que tenho cara de teenager (risos)!

Essa adolescente que mora dentro de você ainda está deslumbrada com tudo o que está acontecendo ou já se acostumou?
Essa adolescente nunca vai morrer. Eu não me acostumo com várias coisas, tipo ter que acordar e dar entrevista para 25 veículos. Quando eu lançava meu EP, eu só lançava e falava: “gente, ouve aí”. Mas, eu fico muito empolgada com isso tudo porque eu sempre quis. Sempre quis ter essa rotina de estrela.

Quando eu tô cansada, sempre brinco que saí de algum filme, As Patricinhas de Beverly Hills ou Mean Girls... isso me faz lembrar quem eu sou. Ainda sou a mesma criança que ficava imaginando como seria minha vida. E não é que no fim das contas tudo o que eu imaginava está acontecendo?

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