Identidade

Fiz um ménage com meu namorado e a garota com quem ele estava me traindo

Ela olhou pra mim e disse: “Tudo bem se eu beijar seu namorado agora?” Senti um nó na garganta e não conseguia olhar, mas também tinha que olhar.
Traduzido por Marina Schnoor
Sirin Kale
conforme dito para Sirin Kale
02 Março 2020, 8:27pm
threesome
Ilustração por Niallycat.

Já tive bons ménages e outros que foram meio que um erro de julgamento na minha juventude. Sempre achei que ménages são como sexo normal. Você tem uns bons, alguns constrangedores, e tudo no meio disso. No começo da minha vida sexual, eu era tipo uma cobaia quando se tratava do mundo do namoro e do amor.

Quando eu tinha 18 anos, meu primeiro namorado, que eu amava muito, estava envolvido na comunidade de pickup artists. Ele participou de uma convenção de pickup artists e tinha uma convenção pornô acontecendo no mesmo hotel. Ele me disse – por AOL Messenger, que era o que a gente usava na época – que ele tinha participado de uma orgia com três atrizes pornô que ele conheceu na convenção. Fiquei impressionada e magoada ao mesmo tempo.

De repente, me vi exposta ao mundo dos pickup artists, pornô e poliamor. Eu queria saber mais sobre algo que foi bem doloroso experimentar, então comecei a pesquisar sobre esses mundos. Estranhamente, tentei ser mais ativa na minha igreja na época, mas entrei no caminho pickup artist em vez disso. Fui trabalhar e morar uma comunidade pickup, e eles me ensinaram minha arte.

Vivendo numa comunidade nômade pickup artist, comecei a explorar, frequentemente com relacionamentos lésbicos e bissexuais. Eu dizia pra mim mesma que estava tendo aventuras fantásticas, mas no fundo sabia que aquilo não era pra mim e estava entrando em pânico. Sempre tive um desejo por experiências de uma certa intensidade, mas isso pode rapidamente sair do controle e você só está procurando novos limites para quebrar.

Muitos anos atrás, descobri que meu namorado da época estava me traindo, e era o pior tipo de traição: ele tinha saído com a garota pelas minhas costas, e não tinha transado com ela, mas estava muito atraído. Então entrei em contato com a garota e a convidei para uma festa num hotel com a gente, onde eu sabia que algo bacântico ia acontecer. Acho que eu estava loucamente tentando ter algum controle da situação.

Ela era lindíssima, aluna da Universidade Oxford, cinco ou seis anos mais nova que eu. Estávamos numa casa grande e antiga, onde fomos recebidos com champanhe e ostras. Eu estava usando um vestido Dior – que custou mais do que qualquer outra coisa na minha vida – e ela estava usando sapatos de salto alto e um vestido sumário e barato, e estava linda. Ela era muito gostosa. Ela tinha um material genético insano. Ela arrasava em todos os padrões de beleza.

Teve um momento na festa em que estávamos nos maquiando num espelho do hotel, e caiu a ficha de que algo estava seriamente errado: estávamos nos maquiando pelo mesmo cara. Então ela me olhou e disse: “Tudo bem se eu beijar seu namorado agora?”. Senti um nó na garganta e não conseguia olhar, mas também tinha que olhar. Foi como se eu estivesse tendo uma experiência fora do corpo. E acho que meu parceiro também não estava gostando. Ele parecia muito desconfortável.

Em cada estágio, como a primeira vez que a vi beijando ele, ou quando a vi nua, eu não sabia o que ia acontecer depois. Mas como eu já tinha dito sim, era como se a próxima coisa tivesse que acontecer – uma cadeia de sins.

Depois da festa, acabamos de volta no hotel. Parecia inevitável que teria que acontecer algo sexual entre nós. Meu namorado estava prestes a surtar, ele não conseguia manter a ereção – ele só ficava andando pelo quarto. Então eu a amarrei e fiz sexo com ela enquanto meu namorado assistia.

Na hora percebi que essa era a coisa mais fodida que eu já tinha feito. Mas depois que transamos, olhei pra ele, e eu o conhecia bem – eu sabia o que ele estava pensando, que provavelmente ele não ia conseguir fazer sexo. E eu disse “Você quer comer ela? Vou sentar aqui e assistir”. Fiquei sentada lá, realmente tentando estragar a experiência, mas, ao mesmo tempo, fazendo algo desesperadamente errado e realmente o magoando.

Bom, ele não conseguiu realmente transar com ela, e quando ficamos com sono, percebemos que não havia espaço suficiente na cama pra todo mundo, então sentei na beira da janela enquanto o sol nascia, literalmente vendo os dois dormirem de conchinha. Lembro que o cabelo dela estava preso numa longa trança, e eu conseguia ouvir os corvos lá fora. Me senti supermal.

No dia seguinte, tínhamos que dirigir oito horas de volta para Londres. Ela sentou no banco de trás e tudo foi muito estranho. Quando paramos para comer, eles sumiram juntos, e isso me fez perceber quão ridículo era aquele cenário. Eu estava tentando ser legal e descolada, mas sentia que eles tinha a intimidade emocional, e eu é que estava de fora. Decidi que no futuro, se um parceiro me traísse, eu seguiria a rota tradicional de jogar as coisas dele numa lata de lixo e terminar com a pessoa.

Depois do ménage, tentei reconfirmar nosso relacionamento me mudando pra casa dele. Moramos juntos por um ano, e durante esse tempo ela se tornou uma figura de tormento pra mim. Ele estava meio obcecado por ela. Descobri depois que ele tinha ficado com ela pelo menos uma vez sem me contar depois do ménage. O relacionamento acabou rápido depois disso – descobri que estava grávida e ele me deixou. Decidi ter o bebê, mas acabei tendo um aborto espontâneo no final da gestação.

O aborto basicamente me acordou. Pensei: “O que diabos estou fazendo. Não tenho um parceiro, não tenho ninguém que me ame e me apoie. Mantive o relacionamento como uma coisa morta-viva, e olha o que me restou agora”. O momento de terminar com ele não era quando ele foi embora e me deixou grávida. Era um ano antes, por volta da época do ménage, quando as coisas deixaram de ser saudáveis. Mas em vez disso, comecei a jogar esse jogo. O ménage e a gravidez foram como um reset hardcore do meu senso de eu.

Me interessei pelo mundo do ménage porque algum cara teve uma experiência de orgia com umas atrizes pornô. Aí entrei nessa busca para aprender sobre sexo, sedução e amor, e no caminho acabei perdendo minha perspectiva de excesso. O que o excesso faz e te permitir escapar da autorreflexão. A coisa da garota legal e descolada era só fachada. Eu tinha chegado ao outro lado daquele período. O ménage começou e encerrou um período da minha vida onde eu sentia que estava vivendo e explorando algo de que não me arrependo. Mas agora, sinto que sou a pessoa que era antes de começar tudo isso.

A entrevista foi editada e condensada para melhor entendimento

My First Time é uma coluna e podcast em inglês explorando sexualidade, gênero e kink com a curiosidade de um virgem. Todo mundo sabe que a “primeira vez” é sobre muito mais que perder o cabaço. De experimentar com kink a tentar algo novo e selvagem , todo mundo passa por várias primeiras vezes no quarto – é assim que o sexo continua divertido, certo?

Esta semana, falamos com coach de namoro feminista Hayley Quinn sobre a primeira vez que ela fez um ménage à trois com o namorado – e a garota com quem ele estava traindo ela.

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