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Ex-escravas sexuais do ISIS encontram esperança numa cerimônia de 'rebatismo'

Na investida do Estado Islâmico contra o povo yazidi, mulheres estupradas explicam como, depois de escapar da violência, encontram esperança num novo ritual.

por Corrine Redfearn; Traduzido por Marina Schnoor
08 Novembro 2017, 2:48pm

Esquerda: Sausan Khalaf, 18 anos, sobreviveu ao ISIS e foi “rebatizada” na fé yazidi. Direita: Os antigos arcos de pedras que cercam o pátio do templo de Lalish. Todas as fotos por Francesco Brembati.

Reportagem originalmente publicada no Broadly .

Por dois anos e meio, Sausan Khalaf escondeu um cartão de memória de 16 gigas na meia. Num dia bom – um dia em que ela tinha permissão para tomar banho, pentear o cabelo e trocar uma abaya preta por outra – ela se despia, enrolava a meia duas vezes e escondia bem entre suas roupas. A menos que sabão caísse nos seus olhos, ela não perdia as roupas de vista. O resto do tempo o cartão ficava no mesmo lugar, deixando uma pequena marca em seu tornozelo enquanto ela esperava desesperadamente seu sequestrador do ISIS e suposto "marido" sair de casa.

"Eu queria me matar sempre que ele me estuprava", lembra Sausan agora, ajoelhada num colchão no chão na casa da tia em Sharya, uma cidade calma do Curdistão Iraquiano. "Tentei muitas vezes. Mas não consegui."

A adolescente não levanta os olhos enquanto fala. Capturada por extremistas islâmicos semanas depois de completar 15 anos, em 2014, e libertada em março deste ano, Sausan mantém o olhar no celular, evitando contato visual. "Eu só ficava sozinha quando ele terminava de me estuprar. Então ele fechava a porta, e eu trocava o cartão de memória no MP3 player que ele me deu para memorizar o Corão."

Sausan então ficava sentada num canto do quarto com um fone no ouvido, para saber se seu captor de 55 anos não estava voltando, ouvindo canções yazidis (conhecidas como strans), os olhos fechados na esperança de conseguir ver os rostos dos pais.

"Eu estava com muito medo e vergonha do que estava acontecendo comigo", ela diz. "Mas o desespero era o pior sentimento. Eu pensava que mesmo se escapasse, minha família nunca me aceitaria de volta. Não importava quantas canções ouvisse – eu sabia que não merecia mais ser yazidi."

Ela para, e depois começa a chorar.

Nascida na região montanhosa de Shingal, nordeste do Iraque, Sausan e as seis irmãs foram criadas para serem otimistas com as diferenças entre suas vidas e a dos quatro irmãos. As garotas nunca podiam sair sozinhas, enquanto os irmãos podiam ficar na rua até o sol se pôr. Escola também estava fora da questão – educar as sete irmãs seria muito caro e inútil na fazenda onde elas precisavam colher frutas. Mas apesar de uma vaga tristeza por não poder aprender a ler e escrever, Sausan tinha esperança no futuro.

O mais importante, a mãe instruiu, era que elas se mantivessem yazidis "puras" – tanto antes como depois do casamento. Se apaixonar era permitido, mas se afastar de sua religião estando com um homem não-yazidi traria vergonha para toda a família e a necessidade de punição. Sausan nunca perguntou aos pais o que aconteceria se um dos irmãos fizesse sexo com uma mulher não-yazidi. "Isso nunca foi mencionado", ela diz agora, lentamente.

Visitantes de Lalish, um templo sagrado yazidi, fazem fila descalços para visitar o lugar.

Os yazidis são uma minoria étnico-religiosa originária do Curdistão, surgida por volta de 1200 DC. Estimas-se que haja entre 700 mil e 1,5 milhão de yazidis no mundo hoje – com metade provavelmente ainda morando numa região do Oriente Médio que vai da Síria ao Iraque.

Antigamente conhecidos como "adoradores do diabo", hoje seu sistema de crenças parece só arbitrário como qualquer outra religião (uma desaprovação histórica de usar a cor azul continua rendendo manchetes). Canções antigas falam de um anjo caído que tomava a forma de um pavão e descrevem como a Arca de Noé foi salva de afundar por uma cobra particularmente inteligente. Na falta de um texto religioso oficial, as crenças derivadas do judaísmo, cristianismo, islamismo e zoroastrismo continuam a ser passadas na oralidade. Mas o grosso das diretrizes teológicas vêm de Lalish.

Lar de um templo cônico sobre uma fonte de água de quatro milênios, Lalish é o local yazidi mais sagrado no Curdistão. Aqui, a apenas 56 quilômetros de Mossul, nós são amarrados em tiras de seda colorida para dar sorte e lenços são jogados contra pedras sagradas para trazer boa fortuna. Conselheiros espirituais se sentam de pernas cruzadas em almofadas ao longo da parede do pátio, prontos para compartilhar sabedoria a qualquer momento.

Mas independentemente de todos os rituais fotogênicos, o Yazidismo tem uma regra particularmente rígida: indivíduos não podem se casar fora da religião, e transar com alguém de fora geralmente rende expulsão imediata e permanente da comunidade. Esse princípio é considerado o meio mais importante para proteger a cultura deles.

Mas também leva mulheres e meninas a sofrerem consequências inimagináveis para preservar a reputação de suas famílias – especialmente num país onde violência de gênero é lugar-comum. Segundo dados de 2013 coletados pela ONU, 46% das mulheres casadas no Iraque já experimentaram abuso dos maridos, e 46% das meninas entre 10 e 16 anos sofreram violência nas mãos de um familiar.

"Eu digo a elas: 'Vocês são minhas filhas: O que aconteceu não te define. Vocês terão uma vida boa de novo'."

Muito antes do ISIS aparecer em Sinjar, um relatório do Ceasefire Center for Civilian Rights and Minority Rights Group International de 2015 apontou que o número de sequestros de mulheres no Iraque tinha aumentado desde 2003. Como parte de uma minoria, mulheres yazidis eram especialmente vulneráveis a sequestros, mas muitas famílias não davam queixa dos desaparecimentos por medo do estigma do abuso sexual que elas experimentavam no cativeiro.

A abordagem yazidi para as chamadas mortes de honra foi notícia internacional em 2007, quando Du'a Khalil Aswad, de 17 anos, foi apedrejada até a morte em Bashika, uma cidade iraquiana do distrito de Ninawa, depois de ser acusada de se apaixonar por um muçulmano. Há pouquíssimos dados sobre quão frequente era essa forma de feminicídio antes da morte de Du'a, mas seu assassinato rasgou o véu de segredo sobre a punição. Quatro dos homens que apedrejaram Du'a foram sentenciados à morte pelo governo iraquiano em 2010. Apesar de protestos internacionais, a lei yazidi continuou a mesma.

"Não importava se uma garota tivesse consentido ou não em fazer sexo com um homem não-yazidi", diz Jihan Ibrahim Mustafa, fundadora e diretora executiva da Organização de Reabilitação de Mulheres curda fundada pela UNICEF. Mustafa passou as últimas duas décadas trabalhando principalmente com mulheres yazidis. "Nessa sociedade o ato em si é sempre culpa dela, e quase sempre é o bastante para garantir sua morte."

Outros líderes yazidis – homens – contestam isso. "Se uma mulher fosse estuprada por um muçulmano ou cristão, nós pensaríamos numa alternativa dependendo das circunstâncias", me diz Baba Chawesh, um dos conselheiros espirituais mais antigos de Lalish. "Mas isso nunca aconteceu. A garota sempre consentiu. Então nunca tivemos que pensar nisso."

Baba Chawesh, um dos conselheiros espirituais mais antigos da comunidade yazidi.

Eles tiveram que começar a pensar nisso em agosto de 2014. Depois de capturar Mossul, o ISIS elegeu Sinjar como o próximo alvo, e foi atrás da população de 400 mil yazidis do lugar por antigas diferenças religiosas e vulnerabilidade. Armados com facões, fuzis e explosivos, comboios de homens em uniforme militar e trajes tradicionais árabes chegaram à cidade em caminhões e motos, hasteando bandeiras negras do ISIS. Especialistas acreditam que entre 2.100 e 4.000 yazidis foram mortos nos dias que se seguiram – metade deles baleados, decapitados ou queimados vivos pelos extremistas – e mais de 10.800 foram levados cativos. A maioria era de mulheres e meninas, que logo foram leiloadas em mercados públicos ou nas redes sociais como esposas e escravas sexuais.

"Levaram alguns meses para a ficha cair, e para todo mundo perceber o que estava acontecendo com essas mulheres", diz a yazidi local Mamosta Falih Hassan, 54 anos, voluntária em Lalish há quase 40. "Mas uma coisa de repente ficou clara – se as garotas escapassem, ou se conseguíssemos resgatá-las, então excomungar 4 mil delas não era uma opção. Matá-las com certeza não protegeria a honra de nenhuma família. Isso só faria os yazidis serem tão horríveis quanto o ISIS."

Sausan passa pelas fotos em seu celular. Pela primeira vez durante nossa entrevista, ela está ocupada demais para passar a ponta de seu lenço nervosamente nos olhos. "Essa é fora do templo", ela diz, mostrando uma selfie tirada na escadaria da entrada de Lalish. "Essa é de depois da cerimônia." A segunda foto mostra a garota de 18 anos cercada pela família, com um alívio mal disfarçado estampado no rosto de todos.

A foto foi tirada logo depois do "rebatismo" dela, ela explica, quase sorrindo. "Foi quando todo mundo me disse que o que aconteceu comigo não importava, que eu ainda era yazidi. Que aqueles dias tinham acabado e que todo mundo estava feliz por eu estar segura de novo."

"Não deveria ser preciso uma tragédia dessa escala para provocar mudança, mas depois do massacre de Sinjar, o líder espiritual supremo yazidi Baba Sheikh emitiu oficialmente uma fatwa, uma lei religiosa, para impedir as mortes por honra", diz Jihan. Ela não tem certeza do mês em que isso aconteceu, mas acredita que provavelmente em novembro daquele ano. "Pelo que entendo da situação, os líderes espirituais se reuniram para discutir o que fazer com as mulheres que foram capturadas pelo ISIS. Juntos eles decidiram por um tipo de cerimônia de 'rebatismo'."

Dentro da câmara com a fonte sagrada em Lalish, onde um yazidi molha a testa com água santa.

Em Lalish, Baba Sheikh, um homem de 80 e poucos anos com uma expressão severa e um maço de cigarros no bolso, confirma. "Quando as sobreviventes escapam do ISIS e são mandadas para os acampamentos de PDI [Pessoas Deslocadas Internamente], mando mensagem as convidando para minha casa em Lalish", ele explica. "Eu digo a elas: 'Vocês são minhas filhas: O que aconteceu não te define. Vocês vão ter uma boa vida de novo'. Juntos vamos ao templo e aplicamos água da fonte em seus cabelos, e eu digo 'Vamos te deixar feliz por ser yazidi; isso não foi culpa sua. Vamos te ajudar a esquecer'. Sempre parece que um grande peso foi tirado dos ombros delas."

Ele se recusa a responder quando pergunto se ele se arrepende das mortes por honra do passado. É hora da oração e ele precisa ir, ele diz, se levantando rapidamente e puxando um cigarro do maço com um suspiro.

Baba Chawesh é mais direto sobre o que motivou essa mudança súbita: "Se não fizéssemos isso, nossa comunidade não sobreviveria", diz o conselheiro espiritual de 72 anos. "Não sei se vamos continuar quando o ISIS for derrotado e todas as mulheres forem resgatadas. Acredito que sim."

Os anciãos de Lalish me dizem que já devem ter batizado mais de 500 mulheres nos últimos 24 meses, apesar de admitirem que não estão registrando os rebatismos. Muitas mulheres voltam diversas vezes – encontrando consolo no simbolismo de se lavarem de seu passado, ainda buscando se assegurar do perdão da fé.

No final das contas, seus líderes espirituais podem ter dito que elas foram aceitas de volta na comunidade yazidi – mas pode ser difícil lembrar disso quando essas mulheres chegam em casa, longe das árvores de mirtilo de Lalish. Algumas dizem que a desonra do estupro diminuiu nos últimos três anos, mas isso não significa que desapareceu completamente.

Para outras, o batismo continua representando a única oportunidade de riscar o passado e focar no futuro – e para suas famílias começarem a acreditar nisso também.

Ramziya acredita que cai nessa categoria. Encontro a jovem de 20 anos quando ela emerge de uma câmara que abriga a piscina de batismo, cercada por barras douradas; o cabelo ainda molhado da água santa. Faz sete meses que ela escapou do ISIS, e espera que o batismo limpe os estigmas que ainda a cercam.

"Eu queria a cerimônia porque sabia que era um jeito de mostrar que ainda sou comprometida com a minha fé apesar do que aconteceu", ela diz. "Eu não sabia o quanto isso me faria sentir melhor com o futuro. Os homens que conheço já são mais respeitosos comigo porque sabem o que passei, mas agora fui batizada, e estou confiante que um dia vou poder me casar e ter filhos também."

Para Sausan, um marido é a última coisa que ela quer. "Saber que minha família e minha comunidade ainda me amam é tudo que me importa", ela diz. "Agora só quero me lembrar como me sentir segura de novo." E com isso, ela volta a colocar um fone e fechar os olhos.

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