Fotografia Anabel Navarro Llorens:

Como uma modelo plus size foi da vergonha profunda à positividade corporal

Ali Tate fala sobre as questões políticas relacionadas a ser modelo fora dos padrões da indústria.

por Tish Weinstock; Traduzido por Amauri Gonzo
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mai 17 2018, 10:00am

Fotografia Anabel Navarro Llorens:

Artigo originalmente publicado na VICE UK.

Ali Tate nunca sentiu que cabia na sociedade. Com um porte maior do que a média, ela se sentia gorda, feia, isolada e deprimida. Mesmo quando sua beleza rendeu um contrato como modelo, ela seguia se sentindo infeliz em relação à aparência. Ela odiava ser tachada de “plus size”. Isso era, na cabeça da Ali, uma confirmação de que ela seria maior do que o ideal. Mas aquele ponto de vista está a um mundo de distância da mentalidade dela agora. Seis anos depois, com campanhas para marcas como Mango e Reformation no CV, Ali nunca se sentiu melhor. E ela contou pra gente como aconteceu essa mudança radical de perspectiva.

Cresci em uma cidadezinha no norte da Califórnia chamada Saratoga, no universo tecnológico do Vale do Silício. Meus pais são donos de restaurantes, e eu joguei futebol americano na universidade depois de treinar por toda a minha infância. Eu era matriculada numa escola excepcional e tinha muitos privilégios na minha vida em casa. Tive uma sorte espetacular de várias maneiras.

Mas não tive sorte de tantas outras maneiras. Assim como muitas mulheres, eu era profundamente insegura com meu corpo quando estava crescendo. A primeira vez que entendi meu corpo de maneira negativa eu tinha apenas oito anos de idade. Não lembro exatamente do momento em que me olhei no espelho e não gostei do que via, mas eu sei que me sentia como um dos “gordos” rejeitados pela sociedade já numa idade muito nova.

Por jogar futebol americano eu já era mais do tipo tomboy do que as outras garotas da escola, mas isso não me desviou de tentar fazer parte da turma mais popular. Mas as garotas populares eram todas muito magras. Nunca fui magra. Meus ossos sempre pareceram maiores que dos outros. Eu era rechonchudinha, e mais alta do que a maioria dos meus pares. Eu adotei uma corcunda para compensar algo que eu sentia ser uma estrutura corporal muito grande. Os meninos tiravam sarro de mim, às vezes às escondidas, às vezes na minha cara.

Lembro de uma vez quando minha melhor amiga, Taylor, estava dormindo em casa, e nós ficamos na frente do espelho passando maquiagem e fazendo nossas melhores poses. Eu me imaginava como uma das belas e desejáveis mulheres nas capas das revistas que perdi tanto tempo observando. Mas depois de olhar para minha barriga gorda através da minha camiseta, eu percebi que isso não passava de uma fantasia distante. Eu nunca seria desejada – eu era gorda. Garotas gordas não eram desejadas, acreditava eu. Taylor setia a mesma coisa. Ela disse que não conseguiria jamais sair de casa sem passar o dia todo encolhendo a barriga. Nós tínhamos 10 anos e treinávamos futebol três vezes por semana – dificilmente poderíamos ser consideradas sedentárias.

A insegurança de sentir que meu corpo ocupava muito espaço no mundo me assombrou por anos. Na verdade ela não me abandonou mesmo quando eu era uma atleta no auge do condicionamento físico. Às vezes, depois de um treino, eu ainda dava uma corrida extra. Eu tentava vomitar minha comida por alguns meses, mas parava ao perceber que era algo que não conseguiria esconder dos meus amigos e família. Lembro de pessoas me dizendo que eu era linda, mas eu nunca acreditei. Eu pensava que elas estavam apenas sendo gentis, afinal, como alguém do meu tamanho podia ser bonita?

Mas então algo realmente incrível aconteceu, que me levaria ao um novo estágio em minha vida. Fui a Londres estudar em outro país por um ano e enquanto estava lá entrei em um concurso de modelos curvilíneas em uma tentativa desesperada de validação. Apesar de não ter vencido, garanti um contrato com uma agência de modelos plus size. Eu estava feliz – isso sugeria que eu era bonita, algo que procurei a vida inteira. Ainda assim eu me sentia em conflito; ser chamada de modelo plus size era algo do qual eu tinha vergonha. Parece que reiterava tudo que eu sentia a respeito de ser gorda. Eu não me sentia uma modelo de verdade. Nas primeiras sessões fotográficas de que participei eu me sentia muito envergonhada com as minhas fotos.

Mas com o tempo, na medida em que eu via mais modelos curvilíneas na indústria, a minha mente começou a mudar. Todos os anos de tristeza a respeito do meu corpo, desejando mais que tudo no mundo que eu pudesse ser magra, começaram a ceder; Eu vi mulheres lindas na minha indústria, e elas não eram magras! Isso significava que eu podia ser bonita também. Eu parei de me esconder; passei a vestir o meu tamanho de roupa com orgulho; parei de tentar ocupar menos espaço no mundo. Comecei a amar meu corpo. Dizem que se você fingir o suficiente, acaba se tornando realidade. Bom, certamente esse é o caso quando se trata de amar seu corpo.

Agora como uma modelo que trabalha na indústria plus size há mais de seis anos, eu vejo essa época em que meu corpo era um fardo como um pesadelo que passou. Parece insano para mim que eu conseguia me desprezar tanto. Eu me sinto mal pela minha versão mais nova, e às vezes eu gostaria de voltar no tempo e contar a ela o que eu sei agora. De que ter um corpo menor nunca te fará feliz. Que você só será feliz ao amar a si mesma. Eu me sinto mal pensando em quanto tempo e energia gastei tentando ser uma pessoa diferente de quem eu sou de verdade.

A indústria plus size está evoluindo. É bem diferente de quando eu comecei. Modelos como Ashley Graham abriram as portas para garotas que jamais seriam chamadas para modelar antes. A indústria plus size tem suas próprias modelos “indie”, como Paloma Elsesser e Barbie Nox, gatas sexu como Tabria Majors e belezas exóticas como Sabina Karlsson. Há mais espaço do que nunca na indústria para todos os tipos de mulheres; grandes, pequenas, negras, brancas, você escolhe.

À medida em que mais mulheres percebem uma representação mais justa entre as modelos, a diversidade vira a norma. Meninas agora podem olhar para as modelos e verem a si mesmas. Essa capacidade de normalizar um espectro diverso de mulheres tem sido extremamente benéfica para a saúde mental das novas gerações. Adolescentes hoje tem uma chance de evitar o que eu passei ao testemunhar uma maior diversidade de representação na mídia. Eu tenho esperança de que quando elas virem uma dessas modelos nas revistas, elas consigam também enxergar um pedacinho delas ali e pulem todo esse doloroso estágio de acreditar que nunca seriam dignas de amor ou admiração. Talvez a energia que seria devotada a tentar se encaixar nas visões estreitas da sociedade sobre o que é beleza possa ser usada pra, não sei, se tornarem políticas ou cientistas. De certa maneira, nivelar o espaço entre homens e mulheres como líderes e inovadores dentro do campo do trabalho e mudar o mundo para algo melhor.


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