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Brasileiras contam suas experiências viajando sozinhas

Você pode, sim, ser sua melhor companhia.

por Kel Lima
14 Dezembro 2017, 10:00am

Fazer coisas sozinho pode ser um desafio pra muita gente. Eu mesma me incluo nesse grupo. Os motivos são basicamente: a solidão e o medo, sem contar aquele desconforto de achar que estou sendo julgada ao fazer algo que meio mundo acha que eu deveria fazer acompanhada (sim, estou tentando tratar tudo isso na terapia), como sair pra jantar ou ir ao cinema, por exemplo.

Quando o assunto é viajar sozinha, me preocupo menos, mas confesso que nem sempre é fácil. Estar naquele lugar maravilhoso e não ter do lado alguém pra curtir junto (e dividir os perrengues também) é meio frustrante. E, como mulher, às vezes também tenho que encarar as mesmas tretas machistas de sempre: olhares e investidas nojentas, pessoas perguntando onde está o meu namorado e o receio de ser estuprada ou assaltada andando sozinha à noite.

Mas olha, viajar sozinha pode ser bem bom: me perder pelas ruas de Praga simplesmente porque me deu vontade, passar 20 minutos olhando embasbacada pro Código de Hamurábi no Museu do Louvre sem me preocupar com quem estivesse me esperando impaciente, chegar em Arequipa às 5h da manhã, sem hospedagem reservada, escolher um hostel por intuição e conhecer pessoas incríveis e loucas que vou lembrar pra sempre, ficar pelo menos duas horas sentada em um morro, entre as ruínas de Machu Pichu, desenhando, porque queria, do meu jeito, aproveitar cada segundo daquele que foi o meu sonho desde os 10 anos de idade.

Então, neste fim de ano, antes da temporada oficial de férias, conversei com mulheres que viajaram sozinhas. São exemplos de várias jornadas que nos lembram que você pode ser, sim, sua melhor companhia.

Mariana Rydlewski, 29 anos

Eu sempre viajei sozinha. A primeira vez estava na faculdade e fui para Cuba num congresso acadêmico. Apesar de ter ouvido de família e amigos que eu deveria ter cuidado, o maior sentimento era a animação de descobrir uma nova cultura, e não o medo de que alguma coisa acontecesse. Depois que fui e tive uma experiência incrível, viajar sozinha se tornou mais que uma opção: virou um hobby. Já fui para Europa, EUA, Ásia e tenho vários planos para conhecer muitos outros lugares. Uma das experiências mais completas foi quando decidi rodar o litoral do Nordeste de Pernambuco até o Ceará de carro e sozinha. Lembro de passar uma manhã toda na praia dos Touros, sentada na areia e vendo o trabalho (ou seria a arte?) dos pescadores no mar. E essa é a diferença de viajar só: eu estava inteiramente imersa naquele momento. Da mesma forma, dirigir sozinha pela estrada de uma pista só, à noite, com nenhuma iluminação, no meio do mato, sem GPS e sob uma chuva torrencial para chegar numa Praia da Pipa semi alagada também traz vários aprendizados. Também já travei uma longa batalha com um inseto gigante num quarto em Caraíva que me fez dormir do lado de fora com medo de ser atacada durante a noite. Nesses momentos, senti medo de estar sozinha, que é maior ainda por ser mulher. Mas apesar disso, o sentimento de soma de estar num lugar diferente, conhecer pessoas e viver a cultura, para mim, são muito maiores. Pode parecer um pouco misantropo, mas recomendo essa experiência a todo mundo. Viajar sozinha significa ter toda a atenção para os detalhes. Você ouve as conversas das pessoas na rua, que você não entende nada. Você sente os cheiros que saem de cada café, restaurante, barraquinha na rua. Você vive o lugar que você está. E para quem está na dúvida se deve viajar ou não, apesar de ir sozinha, você nunca fica sozinha. Conheci mais gente enquanto estava só do que quando viajei acompanhada.

Goldie Aragão, 37

Desde abril de 2016 viajo pelo mundo sozinha. Até agora já foram 37 países. Neste momento estou na Índia (segunda vez este ano), onde vim fazer um curso de yoga, após trabalhar como voluntária no Nepal. Viajar sozinha pode ser mais fácil do que a gente imagina. Primeiro que sozinha você está mais aberta a conhecer pessoas e, acredite, tem muita gente boa e do bem neste mundão! Segundo, uma mulher sozinha com uma mochila sempre sensibiliza, as pessoas estão dispostas a ajudar, seja com informação, localização, transporte, etc. Terceiro, você é dona do seu destino e pode fazer o que quiser, como quiser. Isso abre os caminhos para a viagem mais incrível de todas, a interna. Ouvir a voz da sua intuição, das suas vontades e do seu coração podem te levar a lugares que você nunca imaginou, o auto conhecimento que não está em livro algum. Eu gosto muito da frase "o medo paralisa". Porque só o nosso próprio medo pode nos impedir de fazer qualquer coisa. Eu tinha medo de altura, até que descobri que se desafiasse isso, eu poderia vencê-lo. E aí a vida me colocou no caminho alguns problemas de saúde e vi que meu medo de altura não era nada perto do medo de morrer e me arrepender das coisas que não fiz, que não me dei a chance, que não me permiti. Por isso, nesse tempo viajando, eu aproveitei para escalar montanhas, encarar precipícios, voar de balão e fazer até paragliding. Além disso, enfrentei até mesmo o medo de que encarar certos países que "são proibidos". No Egito, fiquei 16 dias e quebrei esses estereótipo ao conhecer diversas mulheres viajando sozinhas. Não deixe o medo te paralisar, o mundo não é tão cruel como parece, é que gente do bem não dá muita audiência. E estar sozinha não é ficar só, é ficar com a melhor companhia do mundo, a pessoa que você mais ama, você mesma.

(Goldie fala sobre suas viagens na página facebook.com/golporai)

Cris Marques, 33

Já passei por muitos lugares, conheço 18 estados do Brasil e 27 países. Viajar sozinha é um exercício diário de confiança e desapego, pois ainda vivemos em uma sociedade que nos coloca em um lugar de fragilidade e insegurança. Só que os riscos que nós mulheres estamos sujeitas são os mesmos em qualquer lugar, seja na nossa cidade ou do outro lado do mundo. Eu fico pensando na quantidade de mulheres que são abusadas e mortas sem nunca terem saído para viajar, sem nunca terem saído do seu estado e muito menos além da fronteira. Os números de assédios e crimes contra mulheres viajando são baixíssimos, comparado com a violência doméstica, por exemplo. Ou seja, eu acho a questão principal não é sobre os assédios e perrengues de viajar sozinha, é sobre ser mulher. Somos viajantes, independente do gênero. Claro que existem lugares no mundo em que as condições culturais obrigam a nos adaptarmos aos hábitos locais, como em alguns países no Oriente Médio, que têm regras mais rígidas quanto ao que vestir, por exemplo. Hoje, estamos vivendo um momento de transição em que muitas mulheres estão viajando sozinhas. Foram anos de opressão e de regras ditando o que podíamos ou não fazer. Não podemos deixar que paralisem nossos sonhos nem que nos afastem de nossa intuição. A dica que dou é: observe, esteja atenta, mas nunca deixe de caminhar.

(Cris é autora do blog de viagens raizesdomundo.com)

Camila Mont’Alverne, 25

Já fiz 3 viagens sozinha, para a Colômbia, para o Peru e para o México, e tomo muitas precauções, como escolher bem a região do hotel, estudar os locais que pretendo visitar e horários que são mais seguros, esse tipo de coisa que você não precisaria se preocupar tanto caso não fosse mulher. Para mim, uma das coisas mais incríveis de viajar sozinha é mandar na própria viagem como preferir. Isso dá uma liberdade enorme e torna a experiência ainda mais prazerosa, sem o estresse de ficar discutindo com mais 4 pessoas o que vão fazer agora e acabar perdendo um bom tempo nisso. Viajar sozinha também passa uma sensação muito legal de que o mundo está logo ali, acessível pra você, mostrando que você tem condições de se virar em qualquer lugar que estiver. Acho que o mais importante para encorajar mulheres é que se aprofundem as condições para que possamos ocupar os espaços com segurança, e isso vai além de viagens, mas dentro das próprias cidades, ambientes de trabalho, em casa etc.

Juliana Diógenes, 27

Fiz a minha primeira viagem sozinha em junho de 2017 para a Colômbia. Não planejei ir só, foi bem por acaso. Cheguei a ter uma chance de ir sozinha para o mesmo país em 2015, quando tinha começado a planejar a viagem com uma amiga e ela desistiu. Já era a vida me dando uma "forcinha", né? Mas não tive coragem. Este ano, decidi que viajaria para a Colômbia. Marquei com dois amigos e eles não puderam ir. Decidi abraçar a ideia porque senti que era um sinal. Conversei com amigos experientes em viajar por conta própria e pesquisei relatos de mulheres brasileiras que haviam viajado sozinhas para a Colômbia. Disseram que o machismo era semelhante ao do Brasil, mas me senti mais assediada no país colombiano do que aqui. Um taxista me perguntou por que uma mulher bonita como eu viajava sozinha, outro quis saber onde estava meu namorado... Eles ficavam mais à vontade para fazer comentários machistas quando eu dizia ser brasileira. Gosto de encarar como um aprendizado, um "teste de fogo", ter passado por essas situações porque me fez perceber o quanto sou mais forte, independente e responsável do que imaginava. A viagem mostrou que posso sair da minha zona de conforto para me manter aberta ao novo. Conheci muitos viajantes solitários no caminho porque me forçava a conversar mais. Para me sentir segura, planejei a viagem mais cercada de informação do que se estivesse acompanhada e foi maravilhoso ter mais domínio e consciência sobre o meu roteiro. Portanto, estudem o destino e se planejem, mas permitam brechas para também se jogar em roteiros de outros viajantes pelo caminho.

Gabriele Lamarck, 25

Alguns falam que viajar é a melhor maneira de se perder e se encontrar ao mesmo tempo... Eu diria que especialmente quando você viaja sozinha. Estou na conta de 15 países visitados e diria que viajei mais de 50 vezes na vida, isso inclui em grupos de 2 ou mais pessoas, com a família, com o namorado e sozinha. E para ser sincera, acho que minha forma favorita de viajar é aquela comigo mesma. Já fui para o Chile, Portugal, interior da Holanda, mochilei por vários estados do Nordeste do Brasil e fui incontáveis vezes para Jericoacoara somente com meu mochilão. Com certeza o denominador comum de todas essas viagens foram muitas reflexões sobre a vida, muitas descobertas sobre mim mesma e muitos amigos dos mais diversos lugares. A gente meio que espera que algo de ruim vá acontecer pelo simples fato de sermos mulheres, mas a real é que, por sorte, só tenho histórias muito boas para lembrar e compartilhar sobre essas experiências sozinha. Quando você está sozinha, você sempre está mais aberta para conhecer pessoas e isso te expõe a culturas e experiências bem diferentes. Na minha última viagem, mudei um pouco a receita e fiquei em um hostel com quarto só para meninas (eu sempre ficava em quartos mistos porque achava mais balanceado e que, de certa forma, seria mais fácil conhecer gente). Nessa experiência conheci várias meninas e todas elas eram solo travelers. Foram 4 hostels, em 3 estados do Nordeste e sempre o mesmo perfil de meninas nos quartos de hostel. Acho que a palavra que define aqui é independente. Todas eram independentes, abertas para conhecer gente nova e ter experiências diferentes.

Thaís Carneiro, 27

O rompimento de um relacionamento abusivo me deu fôlego suficiente para testar novos vôos e fazer as coisas que eu tinha vontade, mas não tinha feito antes por conta das cobranças que ele me fazia. Um desses desejos era viajar. Logo depois que terminamos, fiz duas viagens incríveis, para Buenos Aires e depois para o Rio de Janeiro. Foram tempos loucos, em que eu sentia o prazer de fazer diversas coisas pela primeira vez, mas por outro lado, me sentia perturbada. Mesmo assim abri mão das minhas certezas e dos meus medos e fui me deixando levar. E assim, a vida me levou para a Espanha com hospedagens solidárias por meio do Couchsurfing, a viagens com amigos pelo litoral paulistano tão pouco explorado e a uma vila de pescadores que fica a duas horas e meia de barquinho de Paraty, no Rio, com o amor da minha vida, o qual encontrei por esses caminhos tentando ele mesmo achar o dele.

(Thaís é autora do blog de viagens mulheresviajantes.com)

Lívia Aguiar, 30

Com quem vou conversar? Que lugares vou visitar? Como vai ser a viagem? E se eu me perder? E se eu ficar com medo? E se eu tiver um problema? E se…
Quando fui viajar pela primeira vez sozinha, em 2008, eu tinha uma longa lista de dúvidas e medos, mas também um enorme desejo por aventura. O desejo de liberdade venceu, fiz minha mochila e fui. Eu tinha 21 anos, estava morando no Paraguai, num intercâmbio pela universidade, e conheci várias mulheres mochileiras que me mostraram que viajar sozinha não era complicado nem mais perigoso do que viver no Brasil (ou no Paraguai). No final da minha estadia em Assunção, decidi ir por terra até Lima, no Peru, e pegar meu voo para BH de lá. Naquela época, não tinha acesso tão fácil à internet, mas essas mulheres desbravadoras que me inspiraram também me incentivaram e deram dicas de cidades, passeios, albergues e restaurantes que caberiam no meu orçamento de estudante. Montei um roteiro, mas o trajeto mesmo eu desenhei em tempo real, enquanto viajava. Lá fui eu América Latina adentro com meu caderninho recheado de recomendações que eu completei com minhas próprias experiências. A cada cidade que eu visitava, eu me libertava dos medos que alimentava na minha cabeça e vivia experiências que nunca tinha imaginado, como fazer um tour de jipe pelo Salar de Uyuni na Bolívia, andar pelos trilhos do trem até Machu Picchu e encontrar de novo e de novo vários conhecidos da estrada em diferentes cidades, já que a maioria das pessoas está fazendo mais ou menos o mesmo roteiro. Terminei esse mochilão de um mês viciada em viajar sozinha. Três anos depois, depois de experimentar o mercado de trabalho e juntar dinheiro, saí para fazer uma volta ao mundo durante 9 meses. Hoje, tenho 30 anos, 27 países carimbados no passaporte e 13 estados do Brasil visitados. Ainda falta muito para conhecer o mundo inteiro, mas não tenho pressa: mais importante que riscar um lugar da lista é o que eu vejo, ouço, sinto, conheço e aprendo no caminho.

(Lívia é autora do blog de viagens www.eusouatoa.com)

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