Pelvs e The Cigarettes celebram 20 anos de suas memoráveis falências indie

João Paulo Vicente

João Paulo Vicente

Lançados em 97, 'Members to Sunna', da Pelvs, e 'Bingo', do The Cigarettes, finalmente apareceram no Spotify.

No comecinho de novembro, apareceram no Spotify os álbuns Bingo, primeiro do The Cigarettes, e Members to Sunna, segundo da Pelvs. Se você acreditar em números, passaram batido: mais de um mês depois, nenhuma das 29 músicas de ambos os discos chegou a mil audições. Uma recepção semelhante à de quando foram lançados em CD pela Midsummer Madness vinte anos atrás. Se você não liga para isso, melhor: os dois clássicos do rock alternativo brasileiro da época em que indie nem era adjetivo continuam muito bons.

Bingo e Members to Sunna foram os primeiros lançamentos em CD do selo carioca Midsummer Madness, isso quando gravar nesse formato era uma conquista para uma banda independente. Em meados dos anos 90, a MM já tinha diversas fitas K7 bem-sucedidas (o que na época significava vender algumas centenas de cópias) e com o barateamento da produção e prensagem dos CDs, esse parecia o próximo passo. No entanto, ainda faltava grana. "Então dois amigos que conheci pelos meninos da Pelvs, o Rodrigo Letier e o Marcos Rayol, se ofereceram para entrar como sócios e pagar pelos discos”, conta Rodrigo Lariú, mandachuva da Midsummer.

Para fechar esse cenário, Gustavo Seabra e Dodô Azevedo, respectivamente o guitarrista e vocalista e o então baterista da Pelvs, tinham acabado de abrir um estúdio na praia de Botafogo, o Freezer. Assim, havia dinheiro para prensar os discos e um local para gravá-los de graça. A ideia inicial era produzir apenas o CD da Pelvs, mas como os custos caíram pela metade com a existência do Freezer, o Cigarettes entrou no pacote.

"Nós começamos a falar disso no final de 96 e todo mundo sempre ia beber no Freezer antes de ir para as festas. Eu lembro que ficava tentando saber se ia rolar mesmo... Não era tão fácil arrumar um estúdio para gravar, eu tinha um medo de dar zebra", diz Marcelo Colares, o nome por trás do Cigarettes. Não deu zebra: durante o primeiro semestre de 97, ambas as bandas gravaram seus discos quando sobrava um tempinho livre no cronograma. "A gente só entrava quando tinha horário vago. O engraçado é que na mesma época o Piu-Piu e sua Banda estavam gravando um disco também, que todo mundo apostava que ia estourar." O Piu-Piu era um cara que bebia o próprio mijo durante os shows. A banda não estourou.

Apesar de feitos no mesmo período e com a mesma estrutura, os dois discos são muito diferentes. O Members to Sunna é um CD de inéditas, enquanto no Bingo a maioria das faixas são regravações dos hits das fitas K7 lançadas nos anos anteriores pela Midsummer Madness. O primeiro tem uma produção mais refinada e cheia de ambiências em contraste com as gravações anteriores da banda, enquanto o segundo soa bastante cru, até lo-fi em alguns momentos. De fato, lembra Lariú, as principais críticas que rolaram depois do lançamento é que a Pelvs tinha feito um álbum calmo demais e que algumas músicas do Cigarettes pareciam piores do que nas demos.

"As histórias de gravação são completamente diferentes. O da Pelvs a gente tinha controle sobre o que queria, tinha sido pensado para caralho, queríamos que fosse climatizado e acústico”, conta Gustavo Seabra, antes de emendar num causo sobre a música de abertura, um longo solo improvisado inspirado na trilha sonora do filme Dead Man, feita pelo Neil Young. Um jeito bem estranho de começar um disco. “Era para ter só 30 segundos (tem 5m31s), mas aí falaram para eu ir tocando que depois a gente recortava o melhor pedaço. Na hora da masterização, feita pelo Marcos Rayol, ele ficou com preguiça de ficar escolhendo o pedaço e falou 'vamo botar essa porra toda'. Ele é muito engraçado, a gente achou engraçado e botou a porra toda. Agora ninguém tem saco de ouvir, todo mundo pula", diz ele.

Colares, por sua vez, também sabia o que queria, mas não dominava a infraestrutura do estúdio como os amigos da Pelvs. No começo, Gustavo ficou responsável por produzir o mixar o Bingo, mas conforme esse processo avançava apareceram desencontros de como os dois imaginavam o disco. "O Gustavo estava em outra onda, queria valorizar mais as melodias sem tanta distorção, queria que soasse meio Ben Lee, e eu não curtia muito", afirma Colares.

Para finalizar o Bingo por conta própria, ele contou com a ajuda de Sol Moras, que trabalhava no Freezer e tocava guitarra em outra banda da Midsummer Madness, a Stellar. Sol emprestava a chave do estúdio para Marcelo, que esperava o expediente encerrar e ia sozinho de madrugada, às escondidas de Gustavo e Dodô, mixar o disco. "Eu ia torcendo para não ter ninguém e ficava a madrugada inteira até de manhã, dia de semana, dia de final de semana. E nunca tinha mixado numa mesa de som antes", ele lembra.

Em outubro de 97, Rodrigo Lariú recebeu mil cópias de cada um dos discos, entregues juntos pela fábrica. Ambos trouxeram surpresas na parte gráfica. Bingo, que tinha dois cartões com opções de capas diferentes no encarte, foi embalado com o verso de um desses cartões na frente — uma imagem bonita, mas que sequer identificava o nome da banda ou álbum. Para evitar ter que desembalar todos os discos, a Midsummer instruía as lojas a abrir apenas um disco e usá-lo para exposição com uma das artes corretas. O mesmo era feito na banquinha durante os shows.

Já o Members to Sunna tinha um riscadão preto na parte de trás do CD. Ali existiria um aviso de que o disco trazia uma faixa multimídia, o plano inicial de produção. Mas como isso ficaria muito caro, deixaram de lado. O problema é que a galera responsável pelo design disco não curtiu, então ao invés de apagar o aviso, só o riscaram. Ao ser lembrado da história, Gustavo só diz: "Isso aí é a Pelvs cara"

De qualquer forma, quando colocaram os custos no papel, os sócios da Midsummer acharam que tinham encontrado um negócio da China. Cada CD saiu por R$ 3 e seria vendido por R$ 10 — o lucro previsto era incrível. Só faltou levar em consideração a estrutura precária de distribuição da época e o pouco apelo comercial do som produzido pelas bandas. O disco da Pelvs demorou entre quatro e cinco anos para esgotar, diz Lariú. O do Cigarettes foi mais rápido, mas tudo por conta de uma história inusitada.

Pouco depois do lançamento, um português procurou a Midsummer interessado em distribuir o Bingo e lançar a carreira do Cigarettes na Europa por meio de um selo chamado Recital. Lariú não lembra do nome do cara, Marcelo diz que era "um nome bem de português mesmo, tipo Manuel", mas o fato é que ele comprou 500 cópias do disco para começar um trabalho de promoção. O próximo passo seria levar a banda inteira para fazer shows de divulgação.

Coisa grande, um sonho que seria realizado. A notícia saiu até no Lado B da MTV, na época apresentado pela Soninha. Marcelo largou o trampo num jornal carioca, montou uma banda para fazer a tour e esperou as passagens chegarem. Mas elas não chegaram. "Faltando dez ou quinze dias para a data que eles deveriam viajar, eu estava no pé do cara pelas passagens. Aí um dia ele cancelou tudo. Pagou os discos e sumiu. Foi um balde de água fria, eu não sabia como dar a notícia ao Colares", conta Lariú.

As poucas menções sobre Recital Records na internet mostram que o selo português atuou entre o final dos anos 90 e começo dos 2000, principalmente com metal e hardcore. Na página do Discogs deles não há menção ao Bingo.

Por conta disso, Marcelo voltou para Itaperuna, sua cidade natal no interior do Rio de Janeiro. "Fiquei meio abalado, tudo girava em torno disso e na última hora não aconteceu. Foi um baque tipo 'e agora?'", diz ele. "Como tinha até saída na MTV, um pessoal ficava tirando onda 'ah você não ia para Portugal, cadê?'.". Foi triste, mas ele ri quando conta isso hoje.

Os discos não causaram muito barulho fora do circuito independente. A internet era incipiente, saíram algumas notinhas na grande imprensa e um ou outro jornalista musical colocou o Bingo entre os melhores do ano. Mesmo assim, as duas bandas tocaram um pouco ao redor do Brasil. A Pelvs sofrendo para reproduzir ao vivo a complexidade das músicas do Members to Sunna e o Cigarettes improvisando formações conforme viajava.

"A gente era até meio badalado", conta Marcelo. Mesmo assim, demorou para ele superar as frustrações do disco não ter repercutido muito e a impressão de que talvez ele não fosse tão bom. "Isso aconteceu meio gradualmente, lembro que no meio dos anos 2000 as pessoas vinham me falar, dizer que tinha sido muito importante. Eu pensava 'será?'. Mas o tempo passou e continuam falando isso, então acho que de alguma forma eu consegui acertar ali, sabe."

Gustavo tem um sentimento semelhante: "A gente não tinha noção do que estava fazendo. Quando o disco subiu no Spotify, fazia tempo que não ouvíamos e todo mundo ouviu de novo. Tem uns exageros de produção, mas olhando para trás dá para ver como foi especial. Na época não demos a importância que damos hoje, todo mundo tem um carinho muito grande."

Recém-instalado em Londres, de onde continua a encabeçar a Midsummer Madness, Lariú acha que a expectativa que tinham em 97 era equivocada. Com todo mundo na faixa dos vinte e poucos anos, a reação natural era ser combativo, aquele lance de pensar que quem não se interessou está errado ou tem mal gosto. "Existia a ilusão de que ia virar, e quando isso não acontecia a culpa era de todo mundo menos da gente. Não tinha o distanciamento para perceber que esse tipo de som não ia virar nunca", diz. "Hoje em dia eu entendo que mesmo se poucas pessoas ouvirem, sejam tocadas, emocionadas, então tá valendo."

Uma semana depois do Bingo aparecer no Spotify, o The Cigarretes lançou um novo disco, Saturno Wins, pela Pug Records. Gustavo Seabra está gravando seu primeiro registro solo, em português, que se chamará Velha. A Pelvs soltará um novo álbum na próxima década.

Nunca ouviu e não sabe por onde começar? No Members to Sunna, "Next to Mantra" e "Bric a Brac Between Aspirins" são os hits, mas "The Mixer" é o segredo. No Bingo, pode ir de "Friendship" ou "Naturally Sad" sem medo.

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