Foto por @1993agosto

Djonga, o menino que queria ser Deus

Em seu segundo disco, o rapper mineiro solta a voz e reflete sobre vida pessoal e carreira, sem deixar de rimar sobre questões sociais e raciais.

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14 março 2018, 5:52pm

Foto por @1993agosto

Seis dias atrás, quando resolveu postar no Instagram a capa do seu novo disco, Djonga escreveu na legenda que "2017 tinha sido o pior ano da sua vida, e o melhor também". O melhor ano é fácil de entender: seu álbum de estreia, Heresia, ficou entre os melhores lançamentos do rap nacional do ano passado, sua faixa "Olho de Tigre", do projeto Perfil da Pineapple StormTv, foi alçado a hino de resistência negra e, para fechar, ele e o BK’ ainda participaram do último show do Racionais MC’s (que rendeu uma performance memorável de "Vida Loka Parte 2"). Só que, junto com todo esse reconhecimento repentino, questões como fama, dinheiro, ego inflado e autoestima elevada foram aparecendo vida de Gustavo — nome de batismo do rapper mineiro. E é mais ou menos sobre essa sua nova realidade que Djonga discorre em O Menino Que Queria Ser Deus, seu segundo disco, lançado nesta terça-feira (13), exatamente um ano após o lançamento do seu primeiro trabalho solo.

"Foi tudo muito rápido, eu não soube exatamente como lidar com essa fama que eu até estava esperando, mas não daquele jeito e naquele momento", contou Djonga, em entrevista ao Noisey. "Você fica meio tãn-tãnzinho: num dia você é um cara comum que sonha alto. No outro você é o cara que todo mundo acha foda, que todo mundo quer tirar foto junto, que todo mundo quer estar perto, que todo mundo ama, que todas as mulheres querem agarrar, que todos os caras querem ser amigo."

E, ao mesmo tempo em que foi colocado nesse pedestal hype, Djonga sentiu a pressão de ser cobrado para se manter sempre no "topo". "Eu não me sinto uma pessoa muito comum dentro do rap também. Porque eu e mais algumas outras poucas — um pouco mais que um tempinho atrás, mas ainda poucas — pessoas estamos trazendo debates pesados sobre questões raciais e sociais, que é muita responsa de falar. Algumas coisas que a gente fala geram perseguição. Eu não falo nada achando que vai passar batido. E tudo isso nos coloca em situações desconfortáveis em alguns momentos. Mas eu já sabia que seria assim."

Djonga nasceu em Belo Horizonte, na Favela do Índio, e cresceu no bairro de São Lucas, Santa Efigênia. Foi criado para ser uma pessoa comum, um trabalhador comum, apesar de ter tido contado no seu bairro com situações que poderiam tê-lo levado para o mundo do crime. Apesar disso, ele diz que sempre se sentiu diferente de todo mundo. "Não nesse sentido clichê, de que 'artista' é um 'ser diferente'. Não é isso. Diferente mesmo, de sonhar alto, independente do que eu fizesse. Se eu fosse um advogado, eu queria ser o melhor advogado. Se fosse pra eu ser bandido, eu queria ser o patrão." Entrou no rap por meio de sarau de poesia e, junto com os MCs Hot Apocalypse, FBC, Clara Lima, Oreia e o produtor Coyote Beats, criou a DV Tribo, antes de se lançar na carreira solo com o Heresia e, agora, com O Menino Que Queria Ser Deus. "Acabei virando artista, e também quero ser o melhor artista".

O nome do novo disco veio justamente de uma reflexão que Djonga teve sobre o que é ser artista: alguém que cria, que trabalha com estética, que dá vida à sua arte, à sua criação. Mais ou menos como Deus é o Criador e cria as suas criaturas. "De alguma forma, eu sempre quis criar, manipular as coisas. Mas não manipular de uma maneira negativa — na verdade, às vezes, também, porque somos todos meio perversos", explica Djonga. "Eu sempre quis estar à frente do tempo, no controle do jogo. Sou meio assim, ambicioso. Aí, quando estávamos conversando no estúdio sobre um possível título, eu falei: na verdade, eu queria ser Deus — mas Deus são tantas coisas."

A "autoestima que cresce tanto que hoje em dia ele chama de dívida externa" aparece no disco, assim como no Heresia, acompanhada de uma maneira ambígua, o que Djonga julga necessário. "Eu posso estar me colocando como foda nas músicas, mas ao mesmo tempo, me ponho como um bosta também", diz o rapper mineiro. "A gente vive numa sociedade bem maniqueísta. Bem bipolarizada. É sempre Bem e Mal, sempre duas forças. Acho que naturalmente a gente fica condicionado a abordar essas questões nas músicas. Mas eu gosto é de falar do Bem e do Mal que existe dentro de mim. Na verdade, sobre esses vários lados que existem dentro da gente. No Heresia, eu trabalhei isso, mas o MQQSD é mais maduro. O Heresia é o rap bem cru. O MQQSD é mais mal-passado, quase no ponto."

Além da fama, outra grande mudança que Djonga teve que enfrentar na sua vida em 2017 foi o nascimento do seu filho — que rendeu a faixa "Canção Pro Meu Filho". "Mudou toda a minha dinâmica, meu jeito de encarar a vida. E isso aconteceu tudo ao mesmo tempo que a minha vida profissional tava dando uma virada gigantesca", falou o rapper. "Ao mesmo tempo que eu tinha que lidar com a fama, trabalhar no rap, ganhar dinheiro, eu tive que aprender a ter responsabilidade, a guardar esse dinheiro, por causa de mim e, principalmente, do meu moleque."

Sobre a polêmica capa do disco, fotografada por @1993Agosto e Alvaro Benevente, que pode remeter esteticamente às capas "tosqueiras" do Memphis Rap do começo dos ano 1990, Djonga disse que não teve nenhuma referência direta específica, mas que a intenção foi, justamente, fazer com que o público discutisse. "Talvez tenha um pouco do ‘To Pimp a Butterfly’ (álbum de 2015 do Kendrick Lamar), porque eu apareço pisando naquele político branco, mas nada que tenha uma explicação exata". Outra possível influência do disco de K.dot para o rapper brasileiro é a evocação, de formas diferentes, da voz de Tupac Shakur: no final de "Mortal Man", K.Dot coloca um diálogo imaginário entre ele e o seu falecido ídolo conterrâneo. Já Djonga, no final da faixa "1010", recita um trecho da carta que Tupac escreveu para terminar seu relacionamento amoroso com Madonna.

Segundo Djonga, O Menino Que Queria Ser Deus é seu primeiro trabalho em que ele conseguiu pensar um álbum, com tempo de fazer todo o processo de pré-produção. "O Heresia foi lançado com mais pressa — e mesmo assim foi um dos melhores discos do ano, apesar de todos os problemas. Para OMQQSD, a gente ouviu muita coisa, muita música mineira, muitas outras referências, o que foi bom para trabalhar melhor o conceito", explicou o rapper. "No quesito de musicalidade, eu estou bem mais evoluído nesse disco. Busquei explorar mais outras áreas da minha voz, de aprender interpretar de maneiras diferentes e mais interessantes". Os beats foram todos produzidos pelo Coyote Beats, seu parceiro da DV Tribo. "O que a gente colocou bastante no disco foi a influência do funk. Quem conhece o meu trabalho sabe que é a minha maior influência musical, que é o bagulho que eu sempre mais ouvi, que eu mais curto. Então, ouvi muito funk também, principalmente porque a cena de BH está numa crescente fudida."

Além das diferentes nuances da própria voz de Djonga — para além de flow "gritado" do Heresia —, o novo disco também traz mais a interferência de instrumentistas e de outras vozes além da do Djongador. Foram cinco participações no total: dos rappers Sidoka, Sants, Hot (DV Tribo) e Karol Conká, e da cantora Paige. O backing-vocal ficou por conta de Jeffinho (12duoito), já a mixagem e a masterização são de Arthur Luna, junto com Coyote.

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