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INDIA

Fui da seita de 'Wild Wild Country' e era bom demais

Hoje, Raymond van Mil é um fotógrafo da vida noturna em Amsterdã e colabora com a VICE.

por Ewout Lowie
09 Maio 2018, 10:00am

Fotos cortesia de Raymond van Mil.

Matéria originalmente publicada pela VICE Holanda.

Raymond van Mil vem fotografando a cena noturna de Amsterdã nos últimos oito anos e é colaborador regular da VICE Holanda. Quem é holandês provavelmente conhece ele como o fotógrafo que dispara o flash na sua cara quando você está bêbado na pista de dança, mas provavelmente nunca ouviu ninguém se referir a ele como “swami Antar Sangit”. Os anos antes da fotografia do cara de 46 anos eram muito diferentes da vida que ele tem agora. Antes de frequentar shows e clubes noturnos para documentar as baladas mais legais e moshs mais suados, Van Mil usava túnicas vermelhas e ficava pulando e respirando fundo com centenas de outras pessoas, enquanto tentava cair em transe. Ele era um dos rajneeshees, uma seita que recentemente ressurgiu como tópicos de conversa depois do documentário da Netflix Wild Wild Country.

A VICE falou com Van Mil sobre seus dias na seita e como ele se tornou um fotógrafo depois. A entrevista contém spoilers de Wild Wild Country.

VICE: De swami do Bhagwan a fotógrafo de festas. Por onde começamos?
Raymond van Mil: Em Nijmegen [uma cidade holandesa perto da fronteira com a Alemanha]. Eu tinha 20 anos e estava fumando muita maconha. Um dia comi um bolo espacial e acabei tendo uma bad trip que durou vários dias. Eu tinha ataques de ansiedade e meses depois ainda não tinha melhorado. Comecei a procurar ajuda e acabei com a mãe de um amigo, que era meio hippie. Não sei exatamente o que ela fez, mas foi tipo uma sessão de cura. Quando acordei depois, me senti bem de novo. Daquele momento em diante, fiquei curioso.

O que aconteceu depois?
Comecei a fazer aulas de ioga com um homem do Nepal. Gostei muito, mas também achei muito restritivo. Enquanto isso, amigos meus curtiam muito o Osho, que tinha morrido um pouco antes disso [Nota do editor: Bhagwan, mais tarde chamado de Osho, era o guru que começou o movimento dos rajneeshees; ele morreu em 1990].

Você imediatamente sentiu que tinha achado sua turma?
Bom, meus amigos disseram “você deveria fazer a meditação dinâmica”, que significa respirar bem fundo e ficar se movimentando freneticamente. Eu morava numa garagem grande em Nijmegen e recebia seguro-desemprego, então tive tempo de fazer isso por meses, sozinho na minha garagem, usando um CD que me deram. Aquilo mudou todo o meu ser.

E foi aí que você soube que Bhagwan era seu cara.
Sim. Meu melhor amigo foi para a Índia e me ligou dizendo: “Cara, você precisa vir pra cá”. Então fui para um ashram [como chamavam os lugares onde os rajneeshees conviviam] em Pune e fiquei lá cinco semanas.

Você chegou a Índia, pegou um trem para Pune...
Aí você pega um riquixá para chegar ao ashram. Você chega na entrada – um tipo de portão – onde tem que se registrar. Também tive que fazer um exame de HIV. A epidemia de AIDS estava no auge e ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo, então eles examinavam todo mundo para garantir. No final você recebia um passe de entrada.

O passe que van Mil recebeu para poder entrar no ashram.

Como era lá dentro?
Parecia um festival tropical. Eles tinham palmeiras, livrarias, uma ótima cozinha, um salão de meditação enorme – tipo uma tenda de festival. Você dormia e comia perto do local geral do ashram. As pessoas que moravam em Pune alugavam casas.

A coisa do ashram não era um grande golpe?
Não, não custava nada. Os livros eram vendidos pelo preço de impressão, e a comida também era barata.

O que você fazia lá o dia todo?
Eu acordava e comprava o café da manhã e um lassi de manga, depois andava até o ashram. Você podia fazer cursos, mas eu não tinha dinheiro, então fiz só coisas que eram grátis – ficar na livraria, papear com as pessoas lá, meditar e ler os livros do Osho, claro. Toda noite acontecia uma grande meditação com umas mil pessoas, e eu também participava. Eram umas 1.500 pessoas no ashram inteiro, e a maioria se reunia à noite para meditar.

E o aspecto sexual? As pessoas faziam sexo em público como em Wild Wild Country?
Essa parte tinha acabado quando cheguei lá. Era tudo muito livre, mas acho que a coisa do “sexo em público” acontecia principalmente nos anos 70.

Ficar em livrarias e meditando por cinco semanas parece meio chato na verdade.
Algumas pessoas vão pra lá para se soltar, mas eu estava muito interessado em meditação. Eu queria explorar a prática inteiramente.

Como eram essas sessões grandes de meditação?
O Osho ensinava todo tipo de coisa. Às vezes ficávamos sentados; às vezes fazíamos meditação dinâmica. Também fazíamos meditação do riso – que é rir por três horas, depois passar uma hora meditando. Ou de sons inarticulados: fazendo qualquer som que vem a sua mente por 45 minutos direto.

Tipo bluehuahueeehuh bliiejoewhuuuaazoejoe
Tipo assim. Você faz isso por 45 minutos direto e depois senta parado. Sua mente fica em silêncio; toda a loucura some. Funciona sempre.

Como você acabou se tornando um swami?
Depois de alguns dias decidi fazer o sannyas, que significa se tornar oficialmente um seguidor e adotar um nome diferente. Tive que preencher um formulário e dizer qual era minha ocupação. Naquele tempo, eu fazia muita música, então meu nome se tornou “swami Antar Sangit”, que significava “música interior”.


Teve um ritual de iniciação?
Sim, durante um grande evento de meditação. Assistíamos um vídeo todo dia na hora em que Osho costumava dar suas palestras, seguido de meditação. Geralmente umas 10 pessoas faziam sannyas. Com os outros, tive que sentar numa fileira num corredor, e o líder colocou um colar nos nossos pescoços. Aí eles sussurraram meu novo nome no meu ouvido.

Foi tipo “Parabéns! Agora você é o swami Antar Sangit!”?
Algo assim. Foi muito simbólico. Você não precisava usar seu nome, mas eu decidi adotá-lo. Usei aquele nome por muito tempo. Algumas pessoas ainda me conhecem como Sangit.

O que aconteceu quando você voltou pra casa? Você voltou para a Holanda e de repente não era mais o Raymond van Mil.
Eu disse pra todo mundo que meditação era uma coisa muito séria para mim e que eu tinha feito o sannyas, e pedi para me chamarem de Sangit dali pra frente. A maioria concordou.

Parece uma conversa estranha.
Uma conversa muito estranha! É muito estranho falar sobre isso agora. Mas também é engraçado que eu tenha entrado de cabeça nessa.

Como as pessoas responderam? O que sua família disse?
Minha família... humm. Meus pais sempre foram muito compreensivos, mas nunca me chamaram de Sangit. Essa ponte era muito longa para cruzar, e eu entendia isso.

Sangit batendo um rango.

O que você fez depois do ashram?
Me juntei a um grupo comunitário Bhagwan que morava numa casa bem grande em Beuningen, perto de Nijmegen. Tinha muita gente lá, inclusive famílias. Tínhamos uma horta e uma sala de meditação, preparávamos comida orgânica juntos. Toda semana, nos sentávamos num grande círculo e falávamos sobre o que estávamos pensando e como nos sentíamos.

O que mais você fazia?
Nada. Desenhava, saía, meditava e fazia música. Acabei saindo porque não estava fazendo progresso. Estudei medicina chinesa por anos. Fiquei muito bom em tai chi chuan. Também participei de competições [de tai chi].

E você era bom?
Sim, muito! Fiquei em segundo lugar num torneio europeu de empurrar mãos. É um tipo de tai chi – tipo o sumô mas sem bater, onde você tem que empurrar a outra pessoa para fora do ringue. Ensinei tai chi por 10 anos.

Como você voltou a ser Raymond van Mil?
Quando tinha 30 anos, percebi que Raymond, meu nome verdadeiro, tinha esse peso pessoal que era mais importante. Era hora de terminar aquele período da minha vida. Comecei a explorar técnicas de meditação desenvolvidas por dois professores do Kwait. Com isso, acabei desenvolvendo meu próprio método.

Espera. Tem uma técnica de meditação Raymond van Mil?
Sim. Se chama Movimento Intrínseco.

Sangit praticando ioga.

Voltando ao Osho. O que você acha de tudo que aconteceu no Oregon nos anos 70? Aquelas eram pessoas do seu grupo que deixaram as coisas decarrilharem.
Só ouvi essa história muito depois. Dentro do Bhagwan isso é tipo um trauma – tudo saiu dos trilhos lá, com a morte misteriosa de Osho como resultado.

Você separaria o que aconteceu no Oregon do movimento Bhagwan em si?
As coisas não deram errado por causa do que o Osho ensinava. Deram errado porque um grupo enorme de pessoas construiu uma cidade totalmente nova e se mudou pra lá. Isso criou uma estrutura de poder completamente diferente, que exigiu que algumas pessoas tomassem a liderança.

Bhagwan é uma seita ou não?
Não pra mim. Mas aquele lugar no Oregon era. Aquelas pessoas investiram muito dinheiro para construir aquela cidade – sim, você pode chamar aquele projeto de seita.

E isso te deixa envergonhado?
Sim. Quando conto minha história pessoal para as pessoas, sempre acabo me defendendo do que aconteceu lá. Por outro lado, o projeto investiu mesmo na maneira experimental de abordar tudo. Eles tentaram de tudo, incluindo construir uma nova cidade. E isso não deu certo.

Vendo isso agora, qual a coisa mais importante que te atraiu para o movimento Bhagwan?
Era tudo completamente livre de julgamento e muito aberto. Quando você conhecia alguém, a pessoa parecia imediatamente da família. É quase igual a vibe que você tem num bom festival de música.

Isso te mudou?
Sim, me transformou numa pessoa completamente diferente, especialmente quando se trata de relaxar socialmente. Isso também me ajuda no meu trabalho. Você pode me mandar para qualquer lugar, para qualquer subcultura, e vou me sentir em casa.

Então, nesse sentido, você é o guru de fotos de balada Antar Sangit.
Sim. E eu não faria nada diferente.

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Tradução do inglês por Marina Schnoor.