Saúde

A ascensão da rotina de skincare minimalista

Cansadas do dia a dia com vários passos e resultados medíocres, mulheres estão diminuindo drasticamente os produtos para pele que usam.

por Marie Solis; Traduzido por Marina Schnoor
08 Maio 2019, 2:14pm

Julia Kuo

No pico de sua rotina de skincare, Aurora Hinz estava usando 10 produtos, a maioria diariamente: dois sabonetes para o rosto, um tonificador, sérum, dois hidratantes, máscara de papel, um esfoliante e dois tratamentos para acne de farmácia. Hinz sempre sofreu com espinhas, e quando skincare virou moda, ela decidiu parar de cobrir sua acne com maquiagem e chegar à raiz do problema com produtos para a pele. Ela normalmente comprava produtos de marcas como Cosrx, Innisfree e Tony Moly, cada item custando entre US$ 10 e US$ 50.

Ela sentia que era algo mais virtuoso, diz Hinz. Trocar camadas de corretivo por produtos “naturais” parecia, bom, natural. Além disso, era divertido: Hinz, que é coreana, gostava de participar da onda de beleza coreana que estava chegando aos outros países quando ela estava no colegial. Mas depois de anos tentando acalmar a pele com centenas de dólares em produtos e poucos resultados perceptíveis, Hinz procurou um dermatologista em 2017, e se livrou da maior parte de sua rotina de skincare em favor de produtos receitados e aprovados pelo médico. E funcionou.

“Honestamente, acho que só me deixei levar por todo o marketing, embalagens e marcas”, disse Hinz, agora com 20 anos. “Nenhum dos produtos que experimentei funcionaram tão bem quanto os que o dermatologista me deu. Minha pele está mais limpa que nunca.”

É difícil definir exatamente quando o skincare – um termo que agora significa muito mais que meramente cuidar da pele – se tornou a tendência cultural que é hoje. Mas a Coreia é um bom lugar pra começar: K-Beauty começou a entrar nos mercados ocidentais por volta de 2015, quando o valor de exportação de produtos de beleza coreanos para os EUA subiu 60% comparado com o ano anterior. Uma das exportações mais populares era uma rotina de skincare de 10 passos, que envolvia precisamente: limpeza com óleo, limpeza com espuma ou creme, tonificante, uma essência, uma emulsão, um sérum, uma máscara de papel, creme para os olhos, hidratante e, finalmente, protetor solar. Se você comprasse todos os dez passo de uma vez – o que era possível em sites como Soko Glam e Peach & Lily – o kit podia custar entre US$ 199 a US$ 273.


A longa rotina forneceu às mulheres ocidentais os andaimes básicos para criar sua própria rotina de skincare, trocando produtos pelo próximo item “indispensável”, ou simplesmente aqueles que as amigas indicavam. Desde então, a indústria só inflou, com endosso de influencers do Instagram e YouTube, além de marcas multimilionárias como Glossier e Drunk Elephant, onde um sérum de Vitamina C de 30 ml custa US$ 90. Segundo uma pesquisa de 2017 amplamente citada do varejista de skincare SkinStore, a mulher norte-americana média gasta cerca de US$ 2.900 por ano em skincare e maquiagem, e substitui seus produtos a cada três meses.

A indústria de skincare ainda está prosperando e deve crescer. Mas há sinais de descontentamento: mulheres como Hinz, que já compraram a mitologia mainstream cercando o skincare, começaram a questionar os méritos de rotinas tão elaboradas, e imaginar se não estão fazendo mais mal que bem para sua pele – ou se esses produtos têm qualquer efeito mesmo. Cansadas, algumas passaram a reduzir drasticamente suas rotinas; outras se voltaram para dermatologistas e cuidado médico profissional.

Hinz diz que o conselho definitivo que ela dá para pessoas ainda usando regimes caros e complicados de skincare: Se você puder, procure um médico.

“Acontece que eu não tinha muitos dos problemas que achava que tinha com a minha pele... ela estava tão irritada por causa dos produtos que eu estava experimentando”, diz Hinz. “Acredito fortemente que a melhor coisa a se fazer pela sua pele é pular toda essa loucura e ir direto para um dermatologista.”

É o mesmo conselho que Elena Politiski, 25 anos, começou a dar quando encontrou um dermatologista em Nova York. Antes disso, Politiski estava convencida que comprar os produtos mais caros da Kiehl's e Supergoop aliviaria sua rosácea, uma condição de pele que surgiu depois que ela se formou na faculdade. Por anos, ela estocou um arsenal de produtos que ela renovava de quatro a seis meses de cada vez, nenhum deles parecendo ter qualquer efeito. “Eles não melhoravam nem pioravam a condição”, reflete Politiski.

Quando ela finalmente procurou um dermatologista, o médico disse: “Nenhum desses produtos vai funcionar para sua pele”.

Dos 10 dermatologistas com quem a VICE falou, três disseram que quase sempre o problema é que os pacientes usam muitos produtos que compram na farmácia ou na internet, e que não são certos para eles. Mas os sete outros disseram que histórias como a de Hinz e Politiski se tornaram cada vez mais comuns nos últimos anos, com a modinha de skincare contemporânea atingindo seu pico. Quando os pacientes entram no consultório, muitos deles já experimentaram dezenas de produtos e gastaram milhares de dólares – geralmente frustrados com a falta de resultados. Marcar uma consulta com um médico geralmente é o último recurso.

“Os pacientes chegam e contam que têm um sabonete para o dia, um para a noite, tonificador, tratamento para manchas, algum tipo de óleo, algum tipo de creme antioxidante, uma esponja facial, o que geralmente só piora a acne – um monte de coisas”, disse Rachael Cayce, dermatologista de Los Angeles trabalhando na DTLA Derm. “Atendo 30 pacientes por dia e tenho essa conversa com uns 15. Geralmente o que faço é diminuir os produtos que eles usam.”

Cayce pede que os pacientes tragam seus produtos de skincare na consulta. E muitas vezes ela fica chocada ao descobrir que eles gastaram centenas de dólares em um único produto, quando ela sabe que no final da consulta a receita sairá por US$ 15.

“Um regime de skincare é só uma parte do plano maior para atingir sua melhor pele, então investir muito tempo e dinheiro em produtos nem sempre é produtivo”, escreveu Tara Rao, dermatologista do Schweiger Dermatology Group de Nova York, num e-mail. “Muitas vezes, alguém com uma pele propensa a acne e inflamações vai incorporar produtos e passos adicionais num esforço para resolver o problema... E mesmo encontrando algo que lide com a questão, há muita tentativa e erro que nem sempre tem final feliz.”

Enquanto alguns pacientes estão ansiosos para ouvir uma opinião profissional sobre seus problemas de pele, outros resistem. Cayce disse que seus pacientes às vezes ficam relutantes em tirar produtos de suas rotinas, ou não estão dispostos a desistir de produtos caros que já compraram. Isso é verdade até para alguns membros da equipe dela, que ela já viu usando produtos que sabem que não combinam com sua pele. Outros ainda vão insistir que sua opinião sobre skincare está correta, especialmente se passaram horas lendo sobre séruns em subreddits de skincare.

“Mesmo quando estou falando com pessoas que sabem que sou dermatologista, elas vão querer me dizer o que fazer com a minha pele”, disse Cayce. “Elas não diriam nada se eu fosse cardiologista.”

A dermatologia entrou num tipo de impasse com o skincare comercializado e seus muitos defensores. Como membro do comitê de redes sociais da American Academy of Dermatology, uma das maiores organizações de dermatologia do mundo, Anthony Rossi diz que ele e seus colegas estão constantemente tentando imaginar como tornar informações apoiadas pela ciência sobre cuidados com a pele mais acessíveis ao público. Mas ele admite que é difícil competir com centenas de influencers de skincare no YouTube e Instagram, que envolvem os espectadores com avaliações de produtos e tutoriais. “Ninguém quer ler um artigo científico sobre cuidados com a pele”, ele disse por telefone.

A AAD agora está tentando capturar um público usando uma abordagem similar a das personalidades da internet, tuitando vídeos curtos, ou links de rotinas de skincare aprovadas por dermatologistas para homens. “Pensamos em nós como influencers de skincare, e queremos que o público nos veja assim também”, continuou Rossi.

Alguns influencers de skincare pensam do mesmo jeito: Rio Viera-Newton, jornalista de beleza do The Strategist conhecida por compartilhar um Google doc detalhando sua rotina de cuidado com a pele, diz que ela sempre deixa claro que está falando de um ponto de vista de suas experiências pessoais – não fazendo uma declaração geral sobre que produtos funcionam pra todo mundo. E ela continua promovendo o valor de procurar um profissional para abordar certos problemas de pele; ela se consulta com um regularmente.

“Dermatologistas são uma fonte incrível e têm uma riqueza de conhecimento quando se trata de demonstrar a ciência por trás de problemas de pele e como produtos funcionam”, Viera-Newton escreveu num e-mail. “Tenho eczema severa que minha dermatologista ajuda a gerenciar com pomadas e cremes. Não sei como eu lidaria com o problema sem ela.”

Mas nem todo mundo que está abandonando sua rotina de skincare está se voltando para um dermatologista.

Nneka Udeagbala, que tem 21 anos, diminuiu sua rotina de skincare depois de uma viagem para o exterior, que a fez notar que a aparência de sua pele tinha mais a ver com clima e dieta do que com os oito produtos que ela usava diariamente. Agora ela usa apenas dois produtos simples de farmácia que produzem os resultados mais consistentes.

Veronica Carleton, da mesma idade, está simplificando sua rotina depois que se mudou para fazer faculdade. Preocupada com as acne da filha, a mãe de Carleton deu a ela vários produtos para experimentar – incluindo um esfoliante, um sabonete, um sérum, um tratamento de reparo noturno, creme corretivo para manchas e um creme de clareamento – nenhum deles se mostrou eficiente. Agora, Carleton diz que usa apenas um produto, um sabonete facial suave, e os resultados são muito melhores.

“Minha pele não parecia tão boa há anos”, ela disse.

Mas mesmo que Carleton tenha encontrado uma nova rotina que funciona para ela, ela diz que nunca insistiria para outra pessoa experimentar: lidar com as opiniões dos outros sobre o que ela devia fazer com a própria pele era muito irritante, e ela descobriu que seguir o conselho de outras pessoas (seguindo uma rotina de vários passos) era cansativo. “Parte da culpa por eu ter acabado no fundo desse buraco era as pessoas dizendo 'Você precisa fazer isso e aquilo'”, ela disse. “Era uma coisa em cima da outra, e não quero fazer isso com ninguém.”

Ceticismo com skincare comercial não é novidade, isso surgiu quase imediatamente depois que o movimento atual de skincare ganhou tração. Em janeiro de 2018, uma matéria do Outliner chamada “The Skincare Con” se tornou um para-raios em debates sobre a nova obsessão com skincare: se isso era meramente um esquema elaborado para fazer as mulheres gastarem amis, ou se era um jeito válido de cuidar de si mesma. A matéria desencadeou o que o Vox chamou de “guerra do skincare”; uma batalha que acontecia principalmente no Twitter, travada não só para responder se skincare era um golpe, mas também para chegar à raiz de preocupações muito maiores sobre mitos cercando o cuidado pessoal e aperfeiçoamento próprio que compramos para lidar com a vida.

A ascensão do skincare tem sido apenas outro resultado do movimento de autocuidado, “a solução Instagramável” dos millennials para os buracos no sistema de saúde, escreveu a jornalista do Tonic Shayla Love em dezembro. Como Love explicou, a atual definição de autocuidado pode validar todo um espectro de comportamentos até o ponto da contradição: “Comer de maneira saudável ou indulgente; passar tempo sozinho ou com amigos; malhar ou tirar um dia de descanso; fazer manicure ou esquecer rotinas de beleza”. O ponto é fazer o que você precisa para se sentir bem.

Para muitas pessoas, o skincare é o que atende essa necessidade. Numa matéria para o The New Yorker, Jia Tolentino chamou 2017 de “o ano em que skincare se tornou um mecanismo para lidar com a realidade”. Tolentino disse que o skincare se tornou uma “pequena tentativa ridícula” de afirmar que ela “sobreviveria à administração Trump” – um jeito de exercer um mínimo de controle sobre forças políticas aparentemente intratáveis que a deixavam ansiosa com a situação do mundo.

Muitas mulheres com quem a VICE falou disseram que skincare também é um jeito de criar laços com outras mulheres. Politiski disse que quando se mudou para fazer faculdade, ela mandava máscaras faciais para as amigas em aniversários ou festas de final de ano, como um jeito de manter contato; quando elas a visitavam em Manhattan, ela as levava para a loja da Glossier no Soho. Udeagbala disse que quando saía com amigas de seu dormitório, elas costumavam mostrar suas coleções de skincare e os novos produtos que tinham comprado recentemente.

Encontre uma mulher que quer falar sobre sua rotina de skincare e vocês podem conversar por horas; mesmo quando liguei para mulheres que estavam eliminando ou simplificando drasticamente sua rotina, me vi sugada para os detalhes de jornadas de anos de skincare, indo da adolescência até a vida adulta. Falar sobre skincare pode ser um jeito de saber mais sobre a vida e rotina de outras pessoas; o que elas fazem na vida privada para se tornarem quem querem ser.

Quando skincare significa tanto assim, pode ser difícil abandonar essa mentalidade – quer a rotina “funcione” num sentido literal já não é mais o ponto.

No domingo antes de começar a escrever esta matéria, minha colega Rachel Pick anunciou no Twitter que estava se livrando de toda sua coleção de skincare depois de se consultar com um novo dermatologista. “Ontem durante a faxina de primavera, joguei fora meu rolo de microagulhas”, ela me disse. (Um rolo de microagulhas, aliás, é exatamente o que o nome diz.) “Ele fazia um guincho horroroso toda vez que eu usava, e meu marido dizia 'Por quê?' Realmente, por quê?”

Como algumas das outras mulheres com quem falei, Pick disse que foi ficando impaciente com o acúmulo de produtos de skincare que não pareciam ajudar seu problema de pele, e estava exausta da rotina. “Eu só queria ir dormir”, ela disse, “não fazer uma rotina de skincare coreana de 10 passos”.

Algumas marcas parecem já estar se preparando para acomodar pessoas como Pick. Nos últimos anos, o sabonete em barra ressurgiu, se tornando um novo item minimalista para “obcecados com skincare”, segundo uma matéria de março do Cut. “Fora a eficácia, as barras também agradam a Marie Kondo que existe em todos nós”, escreveu Jessica Teas. “Enquanto nos livramos da bagunça em outras áreas da nossa vida, faz sentido que o armário do banheiro também passe por um KonMari.” No mesmo mês, a Amazon expandiu para a indústria de skincare, introduzindo a linha Belei, que visa “ajudar os consumidores a gastar menos tempo e dinheiro procurando pelas soluções certas de skincare”, como disse Kara Trousdale, chefe da beleza da Amazon para marcas privadas, numa declaração.

Recentemente, a Vogue também abordou o ressurgimento do “skincare em dose única”, na forma de capsulas ou ampolas contendo uma mistura de produtos popularizadas por marcas como Elizabeth Arden nos anos 90, agora vendidas por Estée Lauder, L'Oréal Paris e, novamente, Elizabeth Arden.

Claro, diminuir sua rotina de skincare não significa abandonar todas as formas de cuidado com a pele de vez. A pele é o maior órgão do corpo humano, a primeira coisa que as pessoas veem. A maioria das mulheres com quem a VICE falou estavam procurando por um meio termo entre uma rotina de skincare de dez passos e uma de zero. E a maioria encontrou isso de maneira acessível quando abandonou a ideia de que o skincare comercial era uma panaceia para todos os problemas de pele.

“Nunca vou recusar uma noite de máscara facial com as amigas, e ainda me divirto conhecendo os novos produtos que surgem”, diz Hinz. “Acho que tem várias maneiras de participar dessa moda sem ter que comprar óleo de cobra.”

Matéria originalmente publicada na VICE EUA.

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