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Sexo

Mulheres que fazem das nudes no Snapchat num negócio lucrativo

Numa era de trabalhos mal pagos, é fácil entender por que pessoas escolhem fazer dinheiro via “Snapchats premium”.

por Madeline White
22 Junho 2017, 6:58pm

Foto: Elle Monroe.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE UK .

Snapchat era o aplicativo que uma geração estava esperando. Em 2011 — o ano de lançamento do serviço —, a narrativa das redes sociais era basicamente: cuidado. Toda palavra, imagem e vídeo que você posta na internet é armazenado num complexo distante de servidores. Futuros chefes podem achar aquela foto em que você tenta ficar bêbado com um supositório de vodca. Sua mãe pode jogar seu nome no Google e encontrar aquele tuíte de cinco anos atrás no qual você chamava ela de "chata do caralho" e dizia que não pediu pra nascer.

Na Era do Compartilhamento, aquela máxima continuava pairando sobre nós: você não pode escapar do seu passado.

O Snapchat, no entanto, acabou com essa preocupação: toda mensagem que você manda é deletada dos servidores da empresa depois de lida ou quando expira, em 24 horas, o que significa que você pode postar o que quiser em relativa paz (e sem pensar que seu passado irá o condenar). A sacada, claro, fez com que pessoas postassem fotos sem roupa, afinal a galera só precisa de uma boa desculpa para ficar pelada.

O Snapchat anunciou uma proibição de "imagens picantes" em sua área de Descoberta no começo do ano, depois de reclamações de pais, e a empresa aconselha os usuários a não "distribuir conteúdo sexualmente explícito" nas Histórias públicas. Ainda assim, as Histórias privadas são uma outra questão. E, na verdade, é aí daí que uma indústria vem emergindo — onde mulheres jovens usam o serviço para distribuir conteúdo sexualmente explícito com base em pay-per-view.

Uma das postagens de Stacey Carlaa no Instagram.

Conheci uma dessas jovens mulheres quando me mudei para Londres alguns anos atrás. Eu não sabia quando a conheci, mas depois de segui-la no Snapchat, o que ela fazia para viver ficou bem claro. Ou seja, ela postava fotos dos peitos — não selfies sensuais da noite passada — e detalhes de como acessar os "shows premium", anunciados por clipes SFW.

Meu pensamento inicial, como estudante de administração, era que essa garota, @StaceyCarlaa, era um gênio. Ela cobrava £20 [cerca de R$84] pelo acesso aos shows, e uma lista de convidados mostrava que 15 pessoas estavam assistindo o vídeo dela na mesma hora que eu. Se Stacey fizesse dois shows por semana, com pelo menos 15 pessoas pagando £20 por cabeça, ela faria £600 [cerca de R$2.500] em poucas horas de trabalho.

Uma boa grana, mas depois de seguir Stacey no Snapchat e notar que seu então namorado desapareceu de suas Histórias, fiquei imaginando se essa linha de trabalho tinha consequências. "Isso causou tensão com algumas pessoas da minha família", me disse Stacey quando a questionei. "Mas minha mãe tem me apoiado."

Tirar a roupa na internet não é novidade. Desde que as webcams se tornaram acessíveis, os consumidores as usam para transmitir imagens de seus genitais, seja visando o lucro ou por puro prazer. Para muitos, a introdução a esse conceito foi a cena — agora, bastante problemática — de American Pie na qual o protagonista, Jim, tenta transmitir sua primeira transa para amigos, mas acaba convidando todo mundo da sua lista de e-mails para vê-lo tendo tendo uma ejaculação precoce.

Para outras pessoas — os desbravadores da rede mundial de computadores —, shows de sexo hardcore, disponíveis assim que foi possível conectar as webcams à internet, foram a porta de entrada para esse universo. E enquanto a conexão e a qualidade das imagens melhoravam, mais e mais pessoas começaram a se envolver, pagando por acesso a sites adultos ou por shows particulares. Apesar do pornô online ter sofrido com a proliferação de material gratuito online, a indústria do camming — que, diferente do pornô, oferece uma comunicação ao vivo com as modelos — só cresceu, e hoje faz algo em torno de £1 bilhão [mais de R$ 4 bilhões] por ano.

My Free Cams, um dos maiores sites de camming do Reino Unido, tem mais de 100 mil modelos e cinco milhões de usuários. Os membros compram tokens para pagar por diferentes serviços, como shows particulares, som total, vídeos maiores e poder mandar mensagens particulares para os membros, e o site fica com uma porcentagem do dinheiro pago pelos tokens antes que as modelos recebam sua parte. No Snapchat, como as modelos são pagas diretamente pelos clientes, não há dinheiro para o intermediário. (É impossível dizer quanto dinheiro está sendo gerado por meio do aplicativo, já que as contas são difíceis de encontrar e o Snapchat não se manifesta sobre essa tendência, nem quis comentar o assunto para esta matéria.)

Na era da "gig economy", é fácil ver como esse esquema é atraente. A maioria das mulheres com quem falei para esta matéria disseram que começaram a tirar a roupa no Snapchat porque estavam de saco cheio dos trabalhos mundanos mal pagos. Quando você percebe que pode ganhar £600 por algumas horas na frente do celular, portanto é compreensível que as pessoas entrem nessa de cabeça.

"Entrei no meu Snapchat normal e disse 'Quem quer pagar para me ver pelada?' E comecei daí."

Há dois fluxos de renda por meio dessas contas. O primeiro, e mais popular, é a conta dedicada no Snapchat, postando conteúdo diariamente que os clientes pagam uma vez para desbloquear. O segundo são os shows premium, no quais você paga diretamente à modelo tendo acesso à uma lista, onde ela realiza um show "ao vivo", conteúdo que fica disponível para você por várias horas.

Poucas pessoas escolhem esse último caminho, talvez por considerar pessoal demais — mais íntimo até que shows de webcam convencionais. A coisa com o camming é que esse é um tipo de conteúdo estacionário. Você se senta no seu quarto de frente parar o computador. Há uma estrutura; os espectadores veem a modelo e seu ambiente de um ou dois ângulos fixos. É mais uma transação. No Snapchat — na mente dos seguidores, pelo menos — há um acesso maior à vida das modelos. Elas podem postar um vídeo passeando com o cachorro, depois um vídeo dos peitos; a foto com uma roupa nova, depois uma selfie NSFW.

Elle Monroe é uma snapchatter de Londres que cobra £50 [cerca de R$ 210] por acesso vitalício à sua conta premium. Num bom dia, ela diz que consegue cerca de 20 assinaturas — levantando £1 mil [mais de R$ 4 mil] em apenas 24 horas. Elle disse algo que me surpreendeu: ela não sente necessidade de ter outro trabalho, já que ganha o suficiente com o Snapchat para se sustentar.

"Eu estava sentada aqui um ano atrás, sem dinheiro e sem conseguir entender como montar um site de webcam, então entrei no meu Snapchat normal e disse 'Quem quer pagar para me ver pelada?' E comecei daí", explicou, acrescentando que estava "tão nervosa que precisei tomar uma garrafa de vinho" da primeira vez, até ficar mais confortável com os shows.

"Às vezes me sinto mal comigo mesma, mas aí percebo que foi isso que me deu a liberdade financeira para trabalhar na minha arte, ter uma agenda livre e estar realmente no controle da minha vida."

Como qualquer trabalho relacionado a sexo na internet, essa ocupação tem seus benefícios — "Gosto de não ter que acordar cedo todo dia, de ser minha própria chefe e ter uma vida de luxo" — e seus pontos ruins: "Os pedidos estranhos incluem xingar a namorada do cara, fazer xixi nos meus pés" — o que nunca aceitei, óbvio – "os humilhar por ter um pau pequeno... a lista continua".

Uma modelo dos EUA, que pediu para permanecer anônima, já que só quatro pessoas próximas sabem que ela tem uma conta premium, por isso vamos chamá-la de Rochelle, me disse que começou a postar esse conteúdo pelas mesmas razões que Elle: falta de grana e um desejo de controlar o próprio tempo. Perguntei como ela se diferencia das outras contas no que já é um mercado competitivo.

"Acho que as pessoas já têm um crush estabelecido em certas garotas que se encaixam nos seus gostos", disse Rochelle. "A única coisa que faço que muitas outras não fazem é anal. Nem sempre gosto do jeito como algumas pessoas falam comigo, mas isso não me incomoda tanto quanto antes. Isso pode te fazer sentir suja, e não de um jeito bom, mas aprendi a bloquear essas pessoas e seguir em frente. Às vezes me sinto mal comigo mesma, mas aí percebo que foi isso que me deu a liberdade financeira para trabalhar na minha arte, ter uma agenda livre e estar realmente no controle da minha vida."

O salário-mínimo nos EUA é de US$7,25 por hora [em torno de R$24], o que significa que uma semana de trabalho (40 horas) paga US$290 [cerca de R$ 870] descontando os impostos. Contratos "zero hora" — nos quais os empregadores não são obrigados a fornecer um número mínimo de horas trabalhadas — são muito comuns tantos nos EUA quanto no Reino Unido (e em breve no Brasil), o que deixa muita gente sem uma fonte confiável de renda. Se você é uma jovem aspirante a artista, como Rochelle, por que não ganhar uma grana extra quando pode?

CrazyyCatt

A última modelo com quem falei foi "CrazyyCatt", uma garota tatuada e de cabelo rosa que mora nos EUA. Como outras, ela entrou no Snapchat porque isso rende "uma grana decente". Ela cobra uma taxa única de US$65 [cerca de $216]. "Em algumas semanas consigo 15 assinaturas, em outras cinco", diz ela, o que rende entre US$325 e US$975 por semana [de R$1.100 a R$3.250]. Ela faz isso há apenas seis meses, mas parece gostar — por enquanto. "Vou parar quando me entediar", me disse.

E aqui está outro ponto atraente: o Snapchat dá a essas mulheres o poder de gerar uma renda substancial, com total autonomia sobre quando e onde. Elas podem postar um nude de um trocador; transmitir um vídeo ao vivo de sua cozinha. Diferentemente dos sites de webcam, elas recebem 100% do dinheiro, e podem investir no que quiserem. Elle está investindo seu dinheiro, Rochelle tem tempo de perseguir uma carreira nas artes graças a sua recém-descoberta liberdade financeira.

Algumas pessoas trabalham em escritórios, outras mostram os peitos no Snapchat. E desde que todo mundo esteja feliz, é difícil achar um problema nisso.

@madiewhite

Tradução: Marina Schnoor

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