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30 anos de 'Scum' do Napalm Death, primeiro disco de grindcore do mundo

Nicholas Bullen, membro fundador, ex-baixista e ex-vocalista reflete sobre a jornada com toques eletrônicos do disco desde seu lançamento em 1987.

por J R Moores; Traduzido por Thiago “Índio” Silva
26 Junho 2017, 4:48pm

Há 30 anos, um grupo de jovens músicos de Birmingham criou um disco que causaria um impacto enorme no mundo, atravessando barreiras, gêneros, cenas e gerações. Com 28 faixas politizadíssimas em pouco mais de 30 minutos, o álbum de estreia do Napalm Death abalou estruturas com sua velocidade, peso, brevidade e extremidade puras e simples. Acertadamente, Scum é tido por muitos como o primeiro disco de grindcore do mundo.

Provavelmente você não precisa de mim para entender a duradoura influência do Scum para o metal. Arroz de festa em listas do tipo "DISCOS MAIS FUDIDAMENTE PESADOS DE TODOS OS TEMPOS", é inegável sua reverberação em bandas mais modernas como Pig Destroyer ou Full of Hell. Sinceramente, se você é músico ou fã de muitos dos subgêneros metálicos existentes e nunca se familiarizou com o Scum, é hora de correr atrás do atraso. Ainda assim, sua influência vai além do grindcore, metal ou mesmo do rock como um todo.

Cabe mencionar que os dois lados do disco foram gravados por duas bandas quase que completamente diferentes. Os envolvidos no lado A logo abraçaram sonoridades mais industriais e eletrônicas: o guitarrista Justin Broadrick é o idealizador de projetos de industrial e pós-metal como Godflesh e Jesu, além de ser metade do duo de "illbient" Techno Animal, junto de Kevin "The Bug" Martin, também lançando material eletrônico sob as alcunhas Pale Sketcher e JK Flesh. O único integrante do trio que gravou o lado A e também marcou presença no lado B, o baterista Mick Harris, também deixaria a banda em 1991 para criar o proto-dubstep meio trip-hop do Scorn, além de outro projeto ambiente chamado Lull. Nicholas Bullen, que fundou o Napalm Death na adolescência e tocou baixo e cantou nas primeiras doze faixas de Scum, também participou dos três primeiros discos do Scorn. Desde então, os experimentos sonoros de Bullen incluíram desde paisagens sonoras, instalações, arte performática, obras acusmáticas e outros trabalhos, digamos, mais esotéricos.

A associação destes projetos com o gênero eletrônico é óbvia, mas as produções do Napalm Death, especialmente aquele primeiro disco, tiveram efeitos profundos em incontáveis músicos que não tem nada a ver com o rock. Gravando sob o nome Broken English Club, o artista techno Oliver Ho, em 2015, homenageou o Napalm Death na caruda ao intitular uma de suas faixas "Scum". O finado Mika Vainio, integrante dos pioneiros do electro finlandês Pan Sonic era outro fissurado em Napalm Death: ao falar de seus discos favoritos em entrevista ao The Quietus em 2014, Vainio deixou clara sua empolgação com os primeiros discos do Napalm Death e Carcass (cujo guitarrista Bill Steer tocou no lado B de Scum), comparando sua obra ao "jazz grindcore" de Interstellar Space de John Coltrane.

O frequente parceiro de Björk, Bobby Krlic (conhecido também como Haxan Cloak) afirmou que sua própria abordagem de som surgiu quando um irmão mais velho lhe mostrou os discos do Napalm Death e outras bandas extremas semelhantes. O artista multidisciplinar, curador e criador de noise avant-techno Russell Haswell atribuiu sua visão multigêneros à experiência de ter visto o lendário DJ Jeff Mills de Detroit numa noite e um show do Napalm Death na outra. Em 2014, o produtor francês Mondkopf lançou um disco sob o nome Extreme Precautions com a seguinte ressalva: "Estava pensando em fazer um EP de techno. Mas eu estava ouvindo só Brutal Truth, Assück, Napalm Death e Pig Destroyer na época, então me deixei levar pelo grindcore e blast beats. Foi porrada mesmo. Compus este disco em uma semana e foi um processo de expressão intensa para mim."

Nicholas Bullen saiu do Napalm Death pouco após gravar o lado A de Scum e seus outros trabalhos deixam claro que ele não é um cara de se prender ao passado. Independente disso, foi encomendada à Bullen uma apresentação no Supersonic Festival em Birmingham em comemoração ao 30º aniversário de lançamento do Scum. Trajando uma camisa colorida e limpando o suor da testa regularmente, Bullen usou uma mesa de mixagem, uma porrada de microfones, muitos pedais de efeitos e samples do lado A de Scum e uma fita com o primeiro ensaio da banda de 1981, criando um verdadeiro turbilhão de brutalidade sonora. O negócio foi tão bruto que a mesa que Bullen usava foi pro saco depois de 30 segundos e precisou ser substituída. A apresentação pôde ser finalizada com uma segunda mesa, mas possivelmente ela vai precisar passar por terapia pra se recuperar de tanto abuso.

Bullen batizou a apresentação de Universal Detention Centre. Como Scum, ela tinha uma clara mensagem de esquerda, como explicado por Bullen alguns dias antes do festival: "Ela segue o contínuo do Napalm Death de seus primórdios no sentido de que achei apropriado tentar tratar do tema de que as liberdades das pessoas são cada vez mais limitadas. Não que eu esteja me referindo à alt-right e seu desejo de dizer o que bem entende, falo mais das limitações físicas das pessoas, no sentido de onde moram, onde podem ir e como existem neste mundo."

Limites e barreiras soam como um anátema para Bullen, e a influência de Scum em artistas de música eletrônica é menos incongruente quando se leva em conta que parte da sonoridade do Napalm Death foi inspirada pela música eletrônica. Ao ouvir John Peel na rádio, dar rolê em lojas de discos e trocar fitas k7 na juventude, Bullen descobriu o ruído mecânico de bandas pós-punk como Cabaret Voltaire, Throbbing Gristle e The Normal. Dois anos antes de Justin Broadrick entrar para a banda, ele e Bullen fizeram amizade por conta do amor dos dois por power electronics, incluindo aí os lançamentos de selos como Broken Flag e Come Organization. "Toda aquela brutalidade foi uma grande influência ao combinar com os pólos mais extremos do hardcore e thrash", relembra Bullen. "Há trechos no lado A de Scum que referenciam diretamente esse som eletrônico mais áspero e bruto, que hoje chamam de 'noise'. Há um trecho em 'Sacrificied' e também no começo do disco [Multinational Corporations], Elas foram compostas de forma a incluir aquilo que o Throbbing Gristle chamou de 'paredes de som', como pontos de ruptura."

Apesar de diversas outras influências. a música eletrônica também afetou a maneira como Bullen desenvolveu o vocal típico do grindcore. "Eu estava bastante empolgado com o uso de modulação em anel do Cabaret Voltaire e Throbbing Gristle. Como descobriria mais tarde, este tipo de modulação seria usada comumente na voz em obras eletrônicas modernas. Gostava da sensação de distância e frieza alienígena que aquele som transmitia. Em partes, isso foi uma influência da minha juventude e nos programas de TV que assistia, que muitas vezes incluíam vozes modificadas e distorcidas. Penso especialmente nos Cybermen de Doctor Who e os Sea Devils. Antes de começar a curtir música, aos seis ou sete anos, era obcecado por terror e ficção científica. Tentamos distorcer as vozes ao máximo possível, definitivamente."

Acho que foi John Peel quem disse que ouvir os discos do Napalm Death em volume baixo resultava em uma experiência semelhante ao de obras como as de Brian Eno e levadas adiante por outros artistas do gênero ambient, algo que Bullen consegue apreciar e explicar. "Em pontos no final do espectro, ou seja, volume muito baixo e muito alto, os detalhes começam a se mesclar em padrões sonoros e consigo entender como você poderia ouvir grindcore enquanto música ambiente porque o som meio que cai pelas bordas. Sobra tom, forma e sensação. O mesmo ocorre com volumes extremos. Muitas vezes as pessoas encaram o volume alto apenas como uma espécie de expressão da masculinidade, de que aquilo foi feito pra ser coisa de macho. Mas não penso assim. Encaro como uma maneira diferente de se alterar consciência e audição, alterando o espaço dentro um cômodo e sua arquitetura."

Deve-se dizer, porém, que por mais que a música pesada, agressiva e extrema possa parecer exibição de masculinidade vulgar, este não é o caso do Napalm Death. Essa afirmação vale tanto para a fórmula criada no Scum e tudo mais que a banda fez em suas muitas outras encarnações. Apesar da intensidade da música e do gutural primitivo, nunca senti que aquilo se tratava de um exercício de masculinidade, o que certamente só agrega ao apelo universal do Napalm Death.

Bullen atribiu isso ao fato de que o Napalm Death surgiu em um meio diferente quando comparado ao resto da música pesada. "O Napalm Death veio do punk politizado, que por sua natureza inclui uma gama variada de ideias, influências e espaços de uma forma que talvez o resto do rock pesado não tenha. Com o Napalm Death, tudo está, focado em ideias de uma maneira que não se encontraria nos extremos, digamos, do power electronics atual ou goregrind, que realmente tem inspiração de outras fontes. Musicalmente, a inspiração é semelhante, mas o resto é diferente", diz Bullen. "Também tem a ver com aspectos técnicos da coisa. Tocando numa velocidade mais alta, há menos oportunidade para se replicar os tropos tradicionais do rock, o foco em exibições de virtuosismo que poderiam ser vistos como algo indulgente, já que simplesmente não há espaço para fazer aquilo dentro da sonoridade. Quando estava no Napalm Death, quando tocávamos as partes mais lentas, elas serviam mais como uma folga entre as partes velozes e não com os clichês do som pesado. O rock em si nunca me interessou: gosto de algumas partes dele, mas minha coleção de discos não tem lá muito de 'rock'".

O alcance global de Scum é digno de nota também. Os produtores mencionados acima vem dos mais variados cantos do mundo, em que hoje é possível também encontrar várias bandas de grindcore. No line-up do Supersonic Festival tivemos ainda a participação dos japoneses do Melt-Bana, cujo cyber-grind alterado e loucão certamente deve muito ao Napalm Death, mesmo sem soar muito parecido com seu predecessores. De fato, os vocais agudos de Yasuko Onuki são o oposto do vocal estilo "monstrão" grave característico do grindcore, por mais que Bullen já tenha notado que tais extremos acabam se completando.

Antes da gravação de Scum, Bullen e seus colegas se inebriaram ao som intenso de bandas punks japonesas como GISM, Kuro e Crow. "O que amávamos nas bandas de hardcore japonesas é que elas morriam de amores pelo hardcore oitentista britânico, que era bastante barulhento e focado em distorção e feedback. Era quase como um bate-bola entre os dois tipos de som. Eles pegaram aquela influência, criaram sua sonoridade e, quando a ouvimos, amplificamos o que gostávamos naqueles discos e levamos adiante. Havia um nível de intensidade característico do punk japonês que não era necessariamente replicado na Inglaterra. Então, dentro daquele contínuo, o Napalm Death atua como mais um desdobramento disso, talvez levando-o à sua conclusão lógica, em que as faixas deixam de ser uma canção e viram som puro."

A influência global sofrida pelo Scum não se restringia ao Japão: bandas finlandesas como Kaaos, Rattus e Cadgers também foram significativas, dentre outras. "Trocávamos tudo em fitas em 1982 e 1983, com o mundo todo", lembra Bullen. "Não tínhamos grana para os discos: eram importados e limitados e simplesmente não tínhamos dinheiro pra isso. Estávamos todos na escola. Mas dava pra comprar um pacote com dez fitas e uns selos. Recebíamos coletâneas da Finlândia, Itália, Holanda, Suécia, do mundo inteiro. Era demais". Com certeza foi igualmente estimulante para o mundo ouvir Scum assim que saiu. Yasuko Onuki tinha 15 anos na época de seu lançamento. Quatro anos depois, ela formaria o Mizu, que logo se tornaria o Melt-Banana.

Bullen pode ter deixado seus dias no Napalm Death para trás, mas como demonstrado pelo Universal Detention Centre, Scum segue como parte crucial de seu DNA como trampolim para uma longa e variada carreira artística. Ele não acompanhou o que rolou com a banda deste então, por mais que isto não reflita a qualidade da obra já que seus gostos voláteis jamais o permitiriam acompanhar uma banda por 30 anos. O Napalm Death continua tocando faixas do Scum mesmo sem ter nenhum dos membros da formação que gravou aquele disco, o que não incomoda Bullen.

"No meu ponto de vista, eles são o Napalm Death agora e tem o direito de tocar aquele material se quiserem. Eles estavam lá na época, Shane [Embury] e Barney [Greenway], estavam ouvindo, não vejo problema nenhum em tocarem", comenta. "Eu mesmo não nutro nenhum preciosismo quanto a isso. Eu não irei tocá-las, por que eles não poderiam? Enquanto grupo, talvez eles queiram que seu público ouça todos os aspectos de sua carreira, faz parte do Napalm Death, então funciona."

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