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Educação Ocupada

​“Nós vamos ocupar de novo” diz aluna de uma das três escolas desocupadas pela PM em Campinas

Sem resistência dos estudantes, PMs armados fizeram reintegração de posse em três colégios campinenses na semana passada.

por Marie Declercq
01 Novembro 2016, 12:00pm

Foto: Lucas Jacinto/VICE Brasil publicada originalmente aqui.

Três escolas estaduais foram desocupadas quase simultaneamente em Campinas na quinta-feira (27) pela Polícia Militar. Conforme foi dito por um advogado e a estudante presente em uma das reintegrações da PM, não houve a apresentação de nenhum mandado judicial e sim uma ordem do secretário de Segurança Pública.

A história de três escolas campinenses é como a de muitas outras Brasil afora: E.E. Ruy Rodrigues, E.E. Carlos Alberto Galhiego e a E.E. Hugo Penteado foram ocupadas em repúdio à PEC 241. Na última quinta, porém, mais de 40 pessoas, a maioria estudantes secundaristas, foram apreendidos por volta das 06:10h da manhã e levados para a 2ª Delegacia Seccional da cidade, 4º Distrito Policial e a 2º Distrito Policial. O caso foi registrado e os alunos foram liberados um pouco depois das 11 horas da manhã.

A primeira escola estadual, ocupada em Campinas, Newton Pimenta Neves, foi tomada na noite de 11 d eoutubro pelos estudantes. O ato durou menos de 48 horas quando a PM fez a reintegração levando 25 estudantes - entre homens, mulheres e adolescentes - da ocupação para o 2º Delegacia Seccional. Quinze estudantes foram qualificados por dano ao patrimônio.


Assista ao nosso documentário sobre as ocupações contra o plano de reorganização da rede estadual de ensino em São Paulo:



Na E.E. Ruy Rodrigues, os alunos ocuparam com tranquilidade o local na segunda passada (24), recebendo as chaves da diretoria e também liberaram o acesso de pais, alunos e membros da comunidade na ocupação para entenderem do que se tratava. "A gente também recebia visitas de advogados para explicar sobre as leis. Até veio gente com ligações com alguns partidos, mas não deixamos nenhum deles passar uma ideologia para os alunos e os pais. O intuito não é esse", explica A.R. de 17 anos, uma das alunas da escola ocupada em questão. A diretora da escola, Márcia Beffa, elogiou a ocupação dos alunos e diz não ter ocorrido nenhum incidente. "Nós tivemos sorte", conta A.R. sobre a postura da diretora. "Sabemos que não é todo mundo da escola que apoia as ocupações. "

Na noite de quarta-feira os alunos da Ruy Rodrigues receberam, por meio de um informante, a notícia de que a Polícia Militar pretendia desocupar as escolas na manhã seguinte. Conforme informado, a PM apareceu no horário previsto para fazer a reintegração de posse. Os estudantes já estavam com advogados, uma inspetora do colégio e também uma representante do conselho tutelar que acompanharam a ação. A secundarista diz que ninguém da PM apresentou um mandado judicial.

Cerca de 19 alunos foram conduzidos até o 4º Distrito Policial de Taquaral na manhã de quinta-feira. "Por volta das 6:15 a PM arrombou o portão e pulou o muro para entrar na escola. Depois disso, entrou um micro-ônibus da polícia, quatro viaturas e mais ou menos 50 policiais. Eles pediram para todo mundo esperar no pátio enquanto eles revistavam nossas mochilas, nossas coisas, revistaram a escola inteira. "

O advogado Alexandre Mandl, que prestava jurídico apoio aos alunos da Ruy Rodrigues e também acompanhou a desocupação da Carlos Alberto Galhiego, disse que havia um grande número de policiais presentes para realizar a desocupação. Todos estavam armados. "Ao perguntarmos se havia um mandado judicial, a PM nos informou que tinham um parecer da Procuradoria-geral do Estado que permitia a desocupação", conta. "Não teve resistência, mas questionamos esse procedimento de cumprir as desocupações sem ordem judicial."

Assim como na escola Ruy Rodrigues, as reintegrações simultâneas na E.E. Carlos Alberto Galhiego e a E.E. Hugo Penteado Teixeira ocorreram pacificamente e sem nenhum registro de vandalismo. Ambas foram ocupadas na terça-feira (25). Uma quarta escola estadual, Antônio Carlos Lehman, foi ocupada na noite de quarta (26), mas não estava nos planos da PM fazer a reintegração de posse no mesmo dia junto as outras.

Segundo a secundarista da Ruy Rodrigues, mesmo após a PM promover a retirada dos alunos, eles pretendem ocupar novamente o local contra a PEC 241. "Nós vamos ocupar de novo a E.E. Ruy Rodrigues", avisa. "E as outras escolas da região vão ser sim reocupadas mesmo que sem ajuda da direção. Nós queremos ter o direito de fazer o ENEM e também queremos que programas como o FIES e o ProUni continuem. Por isso que achamos que a PEC 241 vai justamente acabar com esse nosso direito. "

A Secretaria de Educação confirmou as desocupações feitas pela Polícia e informou não ter havido nenhuma ocorrência.

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