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O que significa a cidade em 2016

Especialistas falam sobre ocupação de espaços públicos, mobilidade e o futuro.

por Talita Marques
10 Novembro 2016, 6:05pm

Foto via iStock.

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Andando pelas cidades, é possível perceber que os espaços de convivência coletiva estão cada vez mais sendo ocupados. Não à toa, a grande maioria da população brasileira vive em cidades. De acordo com o censo de 2010, 84,4% da nossa população é urbana e essa porcentagem deve crescer: a previsão divulgada pela ONU é que até 2030, 90% da população do país viva em cidades.

"Os cidadãos estão tomando conta do espaço público mais ativamente devido a características comuns às habitações urbanas: apartamentos pequenos, espaços diminutos", e é por isso que, explica a professora da Faculdade de Arquitetura do Mackenzie, Pérola Felipette, "as pessoas necessitam de ambientes amplos de convívio social."

O arquiteto e urbanista Victor Delaqua lembra do espírito democrático dos ambientes coletivos: "Os próprios cidadãos se abriram para uma mudança de modelo de cidade. Ruas, avenidas e praças, antes vistas como espaços de trânsito, passaram a ser ocupadas por festas, feiras e diversos outros usos que destacam a reivindicação dos espaços públicos."

Os cidadãos estão tomando conta do espaço público porque necessitam de ambientes amplos de convívio social. — Pérola Felipette

Para Victor, existe uma tendência em habitar áreas mistas da cidade, com as pessoas se contrapondo à ideia da vida em condomínios fechados, movimento observado décadas atrás. Proteger o pedestre e o ciclista é fundamental, de acordo com ele, para garantir a qualidade de vida nesses espaços.

"Além de ser mais sustentável e saudável para a população, pensar a mobilidade por meio de uma escala mais humana também favorece diversas atividades econômicas", lembra Victor.

O engajamento indivíduo e cidade, a participação ativa do cidadão no lugar no qual vive e suas consequências, é o ponto destacado pela arquiteta e urbanista Camilla Ghisleni. "Trata-se de um cidadão que carrega o desejo de reconquistar a cidade por meio das brechas do próprio planejamento urbano. Acredito que esta seja a grande mudança que a cidade contemporânea vem enfrentando em relação ao espaço público", diz ela.

Além de iniciativas individuais e com os coletivos urbanos, que têm transformado os espaços públicos, Camilla destaca os movimentos de ocupação cultural de edificações abandonadas, que ganham vida também com ações artísticas.

Ela manda: "A cidade contemporânea é coletiva e, coletivamente, é possível transformar os espaços, sejam ruas, calçadas, parques, espaços esquecidos ou renunciados. Esta, a meu ver, é a nova cidade, que representa a inconformidade do cidadão contemporâneo, que abandona seu estado de contemplação e passa a agir".

Pedalando, passamos de contempladores a protagonistas na cidade. — Camilla Ghisleni, Urbanista

Camilla diferencia a observação da cidade de dentro de um carro em relação a quem caminha ou pedala: "Pedalando, passamos de contempladores a protagonistas na cidade, compreendendo melhor sua dinâmica, descobrindo tanto seus problemas quanto suas qualidades. Tais 'flanâncias' são fundamentais para alimentar o sentido de pertencimento ao lugar, o primeiro passo para a criação de cidadãos engajados e ativos, tão necessários para cidade contemporânea".

O uso da bicicleta no nosso país vem muito antes de 2016 e está intimamente ligado a uma necessidade de transporte barato. Talita Noguchi, sócia da empresa paulistana Las Magrelas e apresentadora do Chave Quinze, joga essa ideia.

Para ela, que vive em São Paulo, as ruas do centro expandido mudaram muito a relação com o ciclista urbano ao longo dos últimos anos, principalmente pelo trabalho de cicloativistas e ciclistas que, ao colocarem suas bikes na rua como meio de transporte, foram tirando esse modal da invisibilidade.

O videomaker Saulo Gomes, que se locomove de bicicleta, engrossa o coro. Ele acredita que melhorias aconteceram, mas sobretudo por conta das pessoas, que se organizaram para proteger seus direitos e promover alguma mudança local.

Foto via iStock.

Saulo diz que o rolê nas ruas de São Paulo melhorou: "No geral, acho que os motoristas estão mais pacientes em relação à velocidade da bicicleta, buzinam menos."

"Os carros ainda são os reis da cidade e a cidade ainda é feita pra eles. Mesmo ações tímidas, mas muito eficazes, como fechar algumas vias para lazer uma vez por semana, muitas vezes são recebidas como uma grande afronta", comenta. Saulo diz ainda acreditar que novas experimentações podem convencer mais pessoas de que outra relação com a cidade é possível.

Para alcançar a democratização do espaço urbano, segundo Camilla, é importante ressaltar que não basta voltar os olhos à implementação de transportes alternativos. "É necessário pensar nestes deslocamentos como percursos que permitam a conexão de realidades e o cruzamento de fronteiras (geográficas e sociais), não como espaços limitados a certas áreas da cidade", reflete.

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E para a pessoa com deficiência, como anda a cidade? Quase 24% da população nacional se classifica com algum tipo de deficiência, segundo análise do IBGE baseada no censo de 2010. A porcentagem engloba surpreendentes 45,6 milhões de cidadãos.

Mas Billy Saga, presidente da ONG Movimento Superação, não traz boas notícias. O desenho universal está longe de ser seguido. Billy é cadeirante há 18 anos e conta que barreiras arquitetônicas e atitudinais ainda existem e estamos longe de uma sociedade inclusiva.

Segundo Billy, mesmo que este ano as Paralimpíadas tenham sido pauta e possam ter ajudado a desfazer alguns mitos, há ainda um longo caminho: "Na real, a acessibilidade ainda é muito precária nas grandes cidades. Imagina nas pequenas, imagina no interior, nas periferias no Brasil".

A maioria de nós é pedestre em algum momento do dia. Não precisa ser especialista para concordar que há muito a ser feito. "O deficiente físico, o carrinho de criança, os idosos, são todos desprezados em uma cidade que não soube respeitar o pedestre. Pedestre em São Paulo é o alvo", carimba Luiz Célio Bottura, consultor de engenharia urbana.

Luiz Célio conta que a ciclovia é necessária para totalizar a malha de circulação, mas há erros: "Tem que ter uma boa pista, ser bem pavimentada e sinalizada. A sarjeta não pode ser parte da ciclovia".

Horácio Figueira, vice-presidente associação brasileira de pedestres, avalia que se deve "retirar gentilmente o espaço para o automóvel, cedendo-o ao transporte coletivo, aos pedestres, ciclistas e entregas de cargas urbanas."

Camilla cita exemplos de cidades que conseguem se organizar, mesmo com pouco dinheiro. "Eu poderia citar aqui algum exemplo europeu como as cidades holandesas de Houten e Amsterdã, mas precisaria levar em conta a diferença populacional, econômica e geográfica discrepante em relação às cidades brasileiras".

"Eu destacaria aqui a cidade Bogotá, na Colômbia, que sob a administração de Enrique Peñalosa passou por mudanças urbanas e sociais significativas, como a proliferação de espaços públicos de qualidade, inseridos principalmente na periferia da cidade, e a mudança no setor de transportes".

A capital colombiana, para Camilla, é um exemplo da utilização do espaço urbano. "É importante destacar que as ruas e praças, sempre tomadas pela população, colocam em cheque a afirmação errônea de que os brasileiros não ocupam os espaços públicos por uma questão cultural latino-americana. Ou seja, o problema é muito mais político do que se imagina", afirma.

Outro exemplo colombiano é lembrado por Victor, Medellín. A cidade, de acordo com o arquiteto, sofria com problemas urbanos parecidos com os de São Paulo, além do problema do narcotráfico. "No entanto, por meio de uma política que investiu em questões de transporte público, educação e espaços culturais, a cidade se transformou completamente, olhando para áreas antes ignoradas e trazendo diversas soluções de planejamento, políticas inclusivas abertas à participação popular e inovações institucionais", diz.

Victor enfatiza que a cidade possui contrastes, mas apresenta "uma qualidade espacial tanto em zonas ricas como em áreas pobres, oferecendo diferentes modais de transportes, acessibilidade, um cuidado com suas vias e, principalmente, espaços públicos de encontro e lazer."

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