"Prefiro ser 'viado' do que ladrão, como muitos dos que hoje tomam conta do futebol brasileiro", diz o ex-bandeirinha Sérgio Cenedezi, 52. Crédito: Felipe Larozza/ VICE

​O sindicato secreto dos árbitros gays

Como a homofobia no alto escalão do futebol impede juízes e bandeirinhas homossexuais de trabalhar.

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jul 12 2016, 9:00am

"Prefiro ser 'viado' do que ladrão, como muitos dos que hoje tomam conta do futebol brasileiro", diz o ex-bandeirinha Sérgio Cenedezi, 52. Crédito: Felipe Larozza/ VICE

Ele já apitou mais de 100 jogos de equipes de primeira divisão do Brasil. Tem partidas internacionais no currículo e perdeu as contas de quantos países visitou. É um "árbitro top", como costumam dizer no meio. No entanto, ele não se sente realizado. Há dois anos, optou por terminar um relacionamento com outro homem para não colocar a carreira em risco. É o preço que um juiz de futebol gay paga para ser aceito na profissão.

"Se para um jogador, que é idolatrado por onde passa, já é difícil se assumir, imagina para um árbitro que é xingado pelo estádio inteiro toda vez que entra em campo?", afirma o juiz, que pediu absoluto sigilo de sua identidade para falar com a reportagem de VICE Sports. Ele teme as consequências de revelar sua orientação sexual entre seus chefes da Comissão de Arbitragem da CBF e, principalmente, entre torcedores e dirigentes de clube, que já o ameaçaram depois de jogos com marcações controversas.

Sérgio Cenedezi, 52, bandeirinha por quase duas décadas, tomou caminho diferente. De 1985 a 2003, trabalhou como assistente em vários jogos de campeonatos estaduais, Brasileiro e Copa do Brasil, sem nunca esconder de seus pares que é homossexual. "Eu sou assumido. Modéstia à parte, só trabalhei tanto tempo à beira do gramado porque eu era muito bom. Senão teriam me matado", conta.

Hoje aposentado da arbitragem, Cenedezi é secretário de um tribunal de justiça em São Paulo. Ele guarda poucos amigos do futebol. E um desgosto. Apesar de ter sido um dos bandeirinhas mais requisitados da década de 90, não alcançou o posto máximo de sua antiga profissão. "Faltou botar o escudo da Fifa no peito", diz. "Várias vezes fui cotado para receber a indicação da CBF. Mas sempre alguém surgia com o comentário: 'Ah, ele é viado'. Pois digo que prefiro ser viado do que ladrão, como muitos dos que hoje tomam conta do futebol brasileiro."

"Ser gay não é crime. Por isso não escondo nada de ninguém", afirma Sérgio Cenedezi. Crédito: Felipe Larozza/ VICE

Embora o preconceito tenha contribuído para barrar sua ascensão ao alto escalão do apito, Cenedezi diz não se arrepender da escolha de revelar sua orientação sexual. "Ser gay não é crime. Por isso não escondo nada de ninguém", afirma o ex-assistente, que também revela já ter saído com jogadores de grandes clubes do país. Relacionamentos extracampo, porém, enfatiza, não interferiam em suas marcações. "Preferências pessoais jamais influenciaram meu trabalho."

Como em todas as profissões, gays não são novidade na arbitragem. Há até uma expressão para se referir a eles no meio: "membros do sindicato". Ainda assim, todos continuam sofrendo para exercer o ofício no terreno mais machista do futebol.

Penalidade mínima

Ofensas e atitudes homofóbicas costumam ser relativizadas no contexto futebolístico. Entre os homens do apito, comportamentos preconceituosos fazem parte da normalidade e estão imunes de punição. Em junho, o árbitro Marcelo de Lima Henrique postou em sua página no Facebook uma defesa ao deputado Jair Bolsonaro: "Prefiro votar em louco do que em incentivador de boiolices, maconheiro e inimigos da família(...) Não sou politicamente correto, não apoio boiolices". O Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) entendeu que não havia motivo para abrir denúncia contra o árbitro por suas declarações.

"Se no Congresso Nacional, um deputado [Bolsonaro] propaga discurso de ódio contra os gays livremente, no campo de futebol é ainda pior", diz Sérgio Cenedezi. O burburinho em torno da homossexualidade na arbitragem remonta ao fim da década de 80, quando o trio MBB chocou a sociedade da bola ao assumir publicamente sua orientação sexual. Margarida, Bianca e Borboleta eram os nomes de guerra dos árbitros Jorge José Emiliano dos Santos, Walter Senra e Paulino Rodrigues da Silva, respectivamente.

Margarida foi o primeiro a se declarar. Peitou o então mandachuva da Comissão de Arbitragem, João Ellis Filho, que chegou a dizer que, enquanto fosse presidente, nenhum juiz homossexual apitaria jogos. Em sua defesa, Margarida era enfático: "Antes ser lembrado como um juiz bicha do que como um juiz desonesto". Surgia ali "o sindicato", do qual Cenedezi sempre fez parte. "Naquela época tinha mais gay do que hétero no quadro de árbitros", conta.

Clésio dos Santos, o Margarida, teve de abandonar a carreira por causa de seu personagem gay. Crédito: Arquivo pessoal

Em vez de amenizar a discriminação, a grande influência que o trio MBB exerceu até o início dos anos 90 fez com que outros juízes saíssem do armário e gerou cicatrizes profundas na arbitragem. Muitos enxergavam Margarida e seus seguidores como detratores da profissão. Iniciou-se, então, uma verdadeira caçada aos árbitros gays, curiosamente liderada por Armando Marques, ex-árbitro que sofria com gritos de "bicha, bicha!" nos estádios e insultos homofóbicos de dirigentes. Em 1998, por exemplo, o presidente do Vasco, Eurico Miranda, o chamou de "homossexual travestido". Um ano antes, Armando Marques havia assumido a presidência da Comissão de Arbitragem e começado uma perseguição silenciosa aos homossexuais sob seu comando.

Mesmo casado com uma mulher há 32 anos e pai de três filhos, Clésio Moreira dos Santos acabou sendo uma das vítimas da fúria persecutória de Armando Marques. Mais velho de uma família de sete irmãos, ele foi abandonado pelo pai aos 11 anos. Ainda na adolescência, começou a trabalhar com teatro de rua na cidade de Palhoça, em Santa Catarina. Virou árbitro de futebol e, aproveitando o talento para encenar, resolveu adotar o personagem Margarida, em homenagem ao antigo árbitro. Entrou para o quadro da CBF em 1995 e chamava a atenção por vestir um uniforme inteiramente rosa. Suas atuações de gestos extravagantes caricaturam um árbitro gay.

Apesar de sempre ter deixado claro que não é homossexual, o Margarida genérico incomodou o ex-presidente da Comissão. "O Armando Marques mandou um recado para o presidente da Federação Catarinense [Delfim de Pádua Peixoto]: 'Avisa pro seu Margarida aí que viado aqui só tem um'. Depois disso, ele começou a me escalar em jogos sem expressão, em lugares remotos. Tive de abandonar a carreira profissional", afirma Clésio, que deixou o quadro de arbitragem em 2002.

Atualmente, Margarida apita somente em jogos festivos. Fatura mais dinheiro do que nos tempos em que era árbitro da CBF. Sua situação é emblemática: ele ganha a vida encarnando o personagem de um árbitro gay, algo que um homossexual de verdade dificilmente conseguiria. Armando Marques foi presidente da Comissão de Arbitragem até 2005. Não teve filhos e jamais revelou sua orientação sexual. Ele morreu há dois anos, mas sua herança homofóbica ainda paira sobre a arbitragem nacional.

A tropa de choque do apito

Em 2009, o árbitro Halil Ibrahim Dinçdag foi proibido de apitar jogos oficiais pela Federação Turca de Futebol. Com base em um relatório do Exército da Turquia, que o havia dispensado dois anos antes por considerar sua homossexualidade uma doença, a Federação alegou que ele não poderia mais atuar nas partidas por supostamente ter um problema de saúde. Durante o processo de expulsão do quadro de arbitragem, dirigentes o acusaram de favorecer jogadores por causa da aparência. "Isso devastou minha vida", afirma Halil à VICE Sports. "Desde então estou sem trabalho. Não consigo emprego em lugar nenhum. Nesse período, ainda recebi o diagnóstico de um câncer. Os danos físicos, morais e materiais são incalculáveis."

No fim do ano passado, um tribunal de Istambul condenou a Federação a pagar indenização de cerca de 25.000 reais a Halil por discriminação sexual. "A justiça foi feita de forma tardia, após seis anos de luta. De qualquer forma, considero a decisão uma vitória para todo o movimento LGBT", afirma o ex-árbitro, que tenta se reerguer com a ajuda de amigos e milita em causas de combate ao preconceito em seu país.

Halil Ibrahim Dinçdag foi proibido de apitar porque sua homossexualidade seria uma doença. Crédito: Arquivo pessoal

A realidade por aqui não é tão diferente da Turquia. Boa parte das capitanias que comandam o futebol brasileiro é controlada por figuras ligadas a instituições militares. São dirigentes que se perpetuam no poder ao longo de décadas, muitas vezes se autointitulando de coronéis. É o caso de Antonio Carlos Nunes de Lima, coronel da reserva da Polícia Militar que se manteve no comando da Federação Paraense de Futebol por 20 anos e, recentemente, foi presidente interino da CBF. Na arbitragem, o controle militar é ainda mais rígido.

Marcelo de Lima Henrique, o árbitro que não apoia "boiolices", é sargento dos Fuzileiros Navais. Sérgio Corrêa, presidente da Comissão Nacional de Arbitragem, responsável pela escala de árbitros da CBF, ex-oficial da Aeronáutica. Seus antecessores Edson Rezende (delegado da Polícia Federal) e Aristeu Leonardo Tavares (tenente da PM) e seu vice Nílson de Souza Monção (coronel aposentado do Exército) também têm patentes de autoridade.

Não é à toa que os cursos oficiais de arbitragem seguem cartilhas quase militares. No código de conduta dos árbitros, há instruções até de vestuário, como não sair em público com a camisa para fora da calça antes dos jogos. "Querem que o árbitro passe uma imagem de sargentão, que banque o machão dentro e fora do campo", diz Margarida, que foi desaconselhado por vários colegas ao incorporar seu personagem. "Falavam que eu estava queimando o filme da classe."

Sérgio Cenedezi: "Na arbitragem, ainda existe um desprezo enorme por mulheres e gays." Crédito: Felipe Larozza/ VICE

Em um ambiente tão repressor, o machismo arraigado do futebol se tornou política institucional da arbitragem. Em 1997, Sérgio Cenedezi foi pioneiro ao criar o primeiro curso para mulheres no Sindicato de Árbitros de São Paulo. Não sem enfrentar forte resistência. "Todos diziam que lugar de mulher é no fogão, inclusive o Armando Marques. Eu quis quebrar esse preconceito. Mas a verdade é que, na arbitragem, ainda existe um desprezo enorme por mulheres e gays", afirma.

Procuradas pela reportagem, comissões e cooperativas regionais de árbitros informaram que não promovem campanha – nem a favor nem contra – homossexuais. O Sindicato dos Árbitros de São Paulo, por meio do diretor Carlos Donizeti, afirma que "como nunca tivemos denúncia [de preconceito] dos árbitros, não achamos necessário tomar nenhuma medida". A Comissão Nacional de Arbitragem, por sua vez, diz que não discrimina ninguém pela orientação sexual.

Denúncias de homofobia dificilmente chegarão aos ouvidos dos barões da arbitragem brasileira, já que, ao contrário de décadas atrás, não há sequer um profissional abertamente homossexual em seus quadros. Sob o risco de boicote no mercado de trabalho, os árbitros gays, que um dia levantaram a bandeira pelo impedimento do machismo, hoje só podem se resignar com o silêncio para manter seu sindicato em segredo.

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