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Entretenimento

Tudo que você precisa saber sobre os hacks russos na eleição dos EUA

Saiba aqui se a merda bateu mesmo no ventilador.

por Harry Cheadle
20 Dezembro 2016, 10:00am

Donald Trump como uma matrioska contendo Barack Obama. Te faz pensar, né? (Foto por Sefa Karacan/Anadolu Agency/Getty Images.)

Tá, você quer entender esse lance da Rússia. "Lance da Rússia" é um bom nome para a série de histórias rocambolescas sobre operações de hack que supostamente foram iniciadas por operadores apoiados pelos russos, numa tentativa de influenciar as eleições presidenciais dos EUA em favor de Donald Trump. Quer tenham sido os russos ou não, se eles realmente queriam eleger Trump, e o que deveria ou pode acontecer agora são questões polêmicas, e isso sem entrar no buraco que é o Twitter e outras fontes conflitantes que podem entornar o caldo. Então aqui está um lugar onde você pode ficar sabendo todas as informações básicas sobre o lance da Rússia:

O que aconteceu, resumidamente?
Durante a campanha presidencial dos EUA, houve vários incidentes em que hackers tiveram acesso a documentos privados dos democratas, principalmente do Comitê Nacional Democrata e do presidente da campanha de Hillary Clinton, John Podesta. Esses e-mails foram vazados para o público, pelo WikiLeaks e outros sites, resultando em histórias prejudiciais para a candidata. Muita gente, incluindo agências de inteligência norte-americanas, acreditam que isso foi trabalho de pessoas pagas pelo governo russo.

Por que as pessoas estão falando nisso agora?
O Washington Post publicou uma grande matéria citando oficiais anônimos dizendo que os russos fizeram isso porque queriam que Trump ganhasse – não, como se acreditava antes, porque a Rússia queria minar o sistema eleitoral norte-americano como um todo. O New York Times, também citando fontes anônimas, escreveu que o Comitê Nacional Republicano também foi hackeado, mas que seus documentos não foram mandados para o WikiLeaks como os do comitê democrata. Barack Obama ordenou que uma revisão do hack russo na eleição seja completada antes que ele deixe o gabinete.

Preciso confiar na palavra da CIA nesse assunto?
Mesmo se você não acredita nos oficiais anônimos da matéria do Post, há várias evidências de que a Rússia estava por trás do hack ao CND – nossos amigos da Motherboard podem te ajudar um pouco nisso.

Mas Donal Trump disse que ninguém sabe quem está por trás do hack.
Sim, ele disse.

Qual a certeza de que a Rússia 1) estava por trás desses hacks e 2) queria ajudar Trump?
Bom, aí é complicado, em parte porque qualquer evidência que a CIA tenha sobre o caso é sigilosa. Trump e seus simpatizantes estão céticos quanto ao envolvimento russo, ponto – John Bolton, que aparentemente é a escolha para a secretaria de estado, até disse que o hack ao CND pode ser uma "operação falsa". (Mas Bolton tem uma tendência a ser meio louco.) Um pessoal da esquerda, incluindo Glenn Greenwald do Intercept, não confia em histórias que dependem de citações anônimas de oficiais do governo, e tem razões para isso. O FBI aparentemente discorda da CIA em algumas coisas também, apesar dessas coisas não estarem esclarecidas, porque todo o material é sigiloso.

Enquanto isso, nem todos os republicanos estão seguindo Trump na negação do envolvimento da Rússia. No domingo, John McCain e Lindsey Graham, dois senadores de longa data do Partido Republicano, se juntaram aos democratas pedindo investigações aos ataques virtuais. Paul Ryan e Mitch McConnell, dois líderes republicanos da Câmara e do Senado, mais tarde indicaram que também querem as investigações.

Do outro lado da sala, Harry Reid, o líder da minoria do senado democrata, disse que o FBI sabia do envolvimento russo e dos motivos pró-Trump e pediu que o chefe do FBI, James Comey, renunciasse, já que ele supostamente escondeu informação enquanto dizia publicamente que o FBI estava investigando os e-mails da Hillary.

Então há todo um espectro de crenças entre figuras importantes, indo de "os russos podem não ter roubado nenhum e-mail" até "os russos roubaram e-mails porque queriam que Clinton perdesse, e o FBI escondeu que sabia disso porque também queria que ela perdesse".

A CIA pode estar errada?
Claro. Mas é difícil saber quais as chances disso até sabermos mais, e a agência não quer contar nada ao público.

O ataque hacker realmente levou à derrota de Clinton?
Não há como saber. As matérias escritas sobre os e-mails vazados podem ter feito a equipe de Clinton ficar mal na foto, mas o povo tinha outras razões para não querer votar nela, e outras razões para votar em Trump. Alguns, como Paul Krugman do New York Times, acham que a eleição é "ilegítima" por causa do ataque e da decisão de Comey de escrever uma carta para o congresso destacando a investigação do FBI sobre Clinton – mas sei lá, cara. Trump ganhou.

Obama, ou o FBI, qualquer um, não poderia ter vazado essa informação sobre o hack russo antes da eleição?
Talvez. Talvez eles não soubessem o que sabem agora, seja lá o que eles saibam. (Por isso debates sobre informação sigilosa são complicados.) Ou talvez eles hesitaram porque uma acusação como "a Rússia está ajudando Trump a ganhar a eleição" poderia por si só desequilibrar a eleição, e as agências de inteligência não queriam tomar partido. (Talvez Obama achasse, como todo mundo, que Clinton ia ganhar e não soltou a bomba na véspera da eleição. Mas isso é só uma suposição, que é só o que podemos fazer agora.)

Se a Rússia estava ajudando Trump, isso o torna um "fantoche" russo, como Clinton o chamou uma vez?
Trump tem se desviado de acusações de laços com a Rússia há tempos – investidores russos teriam colocado dinheiro em seus negócios, e seu antigo chefe de campanha, Paul Manafort, trabalhou para Viktor Yanukovich, o ex-líder ucraniano pró-Rússia. Mas a ideia de que há alguma conexão nefasta entre a campanha de Trump e o presidente russo Vladimir Putin nunca foi provada. Há razões mais diretas para a Rússia apoiar Trump: Ele falou sobre trabalhar com Putin, era menos hostil que Clinton quando se tratava da Rússia, e falou várias coisas positivas sobre Putin.

Os EUA não está sempre interferindo em eleições?
O país fez muito disso na Guerra Fria, assim como a União Soviética. Nos últimos anos, a Rússia vem trabalhando para ajudar políticos Putin-friendly serem eleitos na Europa, então a ideia de que eles pudessem fazer algo parecido nos EUA não é um grande choque.

Que papel Julian Assange teve nessa história?
O WikiLeaks publica todo tipo de informação que recebe de toda fonte, então não é surpresa que o site de Assange tenha publicado os e-mails do CND e de Podesta. Ninguém com credibilidade está acusando Assange de ser um espião russo ou algo assim. Mas Assange obviamente tinha algo contra Clinton durante a campanha. No cenário mais provável, se Assange, Trump e Putin queriam derrotar Clinton, eles não precisavam trabalhar juntos pra isso.

Alguém cometeu, sei lá, alta traição ou algo do tipo?
Nenhum cidadão norte-americano foi acusado de nenhum crime. Mesmo se a campanha de Trump tiver sido ajudada pela Rússia, neste ponto não parece que a campanha se comunicou com a Rússia sobre o hack.

Clinton pode processar para reverter o resultado da eleição se o envolvimento da Rússia for comprovado?
Bem, são os EUA, então qualquer um pode processar qualquer pessoa por qualquer coisa – mas mesmo se o hack russo for comprovado além de qualquer sombra de dúvida, e mesmo se mostrarem que isso foi uma tentativa de ajudar Trump, parece impossível provar que todas essas atividades foram responsáveis pelo resultado da eleição. E se a Suprema Corte revoguasse uma eleição já decidida seria um precedente terrível. As eleições iriam acabar.

Mas espera, e o Colégio Eleitoral? Ele pode responder a essa notícia não escolhendo Trump, mesmo ele tendo vencido na maioria dos estados?
Isso é tecnicamente possível se colégios suficientes ignorarem o desejo dos eleitores que os direcionaram para votar em Trump – mas de novo, parece um precedente muito antidemocrático, e é bem impossível. Alguns colégios pediram por uma reunião da inteligência antes de divulgarem os resultados oficiais em 31 de dezembro (o que tem o apoio de Podesta), mas apenas em colégios republicanos. Trump venceu 303 colégios eleitorais quando só precisava de 270 – é muito difícil que 34 colégios voltem atrás.

A eleição já acabou.

E se surgirem provas de que a campanha de Trump estava em contato com Moscou sobre o hack?
Harry Reid disse ao Huffington Post que "alguém na campanha de Trump estava por dentro do negócio. Sem dúvida", mas não especulou se Trump sabia o que estava acontecendo. Não está claro qual a base de Reid para dizer isso, e se há provas que o apoiam, ele ainda não as tornou públicas. Claro, uma campanha presidencial envolvendo um governo estrangeiro para sabotar o rival seria um grande escândalo.

Tem algum jeito disso levar a uma situação onde Trump não vire o presidente dos EUA?
Não, desculpa.

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Tradução: Marina Schnoor

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