Tech by VICE

Como os SMS ajudam fazendeiros a evitar ataques de leão no interior da Tanzânia

De 2010 para cá, os celulares ajudaram a diminuir os conflitos entre humanos e vida selvagem no país africano.

por Kaleigh Rogers
04 Abril 2016, 4:46pm

Crédito: Matt Biddulph/Flickr

Já faz um bom tempo que as mensagens de texto não são muito úteis para nós mas, para os fazendeiros do grupo étnico Massai da Tanzânia, esse tipo de tecnologia ainda tem suas vantagens: como, por exemplo, avisar o chefe quando um leão captura uma cabeça de gado.

Os celulares são itens recentes no país. Ainda que em muitos lugares do país as linhas de telefone fixo sejam raras, os celulares se tornaram, de uns anos para cá, aparelhos populares e mudaram drasticamente a maneira como fazendeiros interagem com a vida selvagem, segundo um estudo publicado semana passada na revista Environmental Management.

"Em 2010, menos de metade das famílias tinha telefone. Simplesmente não havia aparelhos o suficiente, mal era um item popular", disse Timothy Baird, professor-assistente de geografia da faculdade Virginia Tech, nos EUA, e coautor do estudo. "Agora quase todos têm um celular."

Baird e seus colegas de pesquisa passaram o verão de 2014 inseridos numa comunidade de fazendeiros Massai, no norte da Tanzânia, para investigar como a tecnologia recém-adotada afeta os diversos aspectos da vida Massai.

Antes dos celulares se proliferarem, informações como essas seriam comunicadas por meio de um jovem pastor correndo o mais rápido possível para buscar ajuda

O estudo é a primeira publicação resultante do trabalho da equipe. Embora ainda precise de mais dados para afirmar categoricamente que os celulares minimizaram a frequência de conflitos entre homens e animais selvagens, a pesquisa demonstrou que as pessoas estão utilizando os aparelhos para evitar, administrar e reagir a eles.

Em termos de impacto selvagem no cotidiano humano, os fazendeiros enfrentam três grandes problemas: os animais comem as plantações, os animais caçam o gado e os animais atacam pessoas.

Celulares oferecem uma nova maneira para gerir todos esses problemas. Os fazendeiros enviam mensagens de texto e telefonam para os outros para organizar eventos a fim de repelir os babuínos e direcioná-los de volta à floresta. Também enviam mensagens e fazem ligações para alertar funcionários próprios e outros trabalhadores sobre sinais de animais selvagens por perto. Quando um pastor avista pegadas fresquinhas de leões rumo a um pasto específico, manda um torpedo aos amigos para não passarem por ali com o rebanho. Quando ocorrem ataques selvagens (em plantações, gados ou, raramente, humanos), os celulares oferecem uma maneira fácil e rápida para mitigar o assalto.

"Em uma entrevista coletiva, os participantes descreveram um caso recente em que pastores conseguiram pedir ajuda enquanto leões atacavam os bois", conta o artigo. "Guerreiros chegaram ao local rapidinho e afugentaram os leões, depois organizaram o transporte das carcaças de volta às propriedades. Isso permitiu que as famílias ficassem com a carne, embora tivessem perdido o gado. Os entrevistados descreveram como, no passado, os leões teriam consumido toda a carne antes de alguém conseguir agir."

Antes dos celulares se proliferarem, informações como essas seriam comunicadas por meio de um jovem pastor correndo o mais rápido possível para buscar ajuda, explicou Baird. Ele disse que os Massai estão usando o celular para tarefas diversas. Contudo, na agricultura, em particular, já se tornou parte integral do modo de operação. "Rapazes que sabem ler e escrever [e que, portanto, conseguem enviar mensagens de texto] e usar um telefone são pastores extremamente produtivos agora", disse Baird. "Já não é mais uma questão de astúcia, coragem ou estratégia de cuidados com a terra, vida selvagem e afins. Saber mexer em um celular agora é pré-requisito. Quando são enviados aos campos, os pastores precisam carregar um aparelho consigo."

Baird também disse que há uma série de outros estudos em curso que exploram os demais aspectos da agricultura e da vida cotidiana que os celulares impactaram, como a possibilidade de fazendeiros venderem seu rebanho mostrando as fotos do telefone ao comprador em potencial em vez de levarem o próprio animal ao mercado.

Claro que os celulares tiveram um impacto fortíssimo em todos os aspectos da vida dos fazendeiros Massai, sem dúvidas, bem como tiveram para nós, mas Baird comentou que, por ser um fenômeno novo, ainda não há muita documentação acerca dessas mudanças.

Tradução: Stephanie Fernandes