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‘Os Incontestáveis’, um road-movie capixaba

O diretor Alexandre Serafini fala sobre a produção que mostra um acerto de contas entre gerações.

por Matheus Trunk
03 Fevereiro 2017, 2:54pm

Todas as fotos são still de 'Os Incontestáveis'.

Dois irmãos vagam pelas estradas do Espírito Santo em busca de um Ford Maverick que pertenceu ao pai. Os dois acabam envolvidos numa trama que envolve a Guerra do Contestado. Esse é o enredo do longa-metragem de ficção Os Incontestáveis que foi exibido no 23º Festival de Cinema de Vitória e na 20º Mostra de Cinema de Tiradentes. Apesar do baixo orçamento, o filme combinou no elenco nomes como o capixaba Fábio Mozine e Will Just ao lado de veteranos do cinema brasileiro como Fernando Teixeira e Tonico Pereira. "A equipe virou uma verdadeira família. Nossa torcida é que o filme estreie comercialmente até o fim do ano", conta o diretor Alexandre Serafini. 

Serafini, elenco e equipe técnica rodaram uns mil quilômetros para realizar um road-movie com carros antigos. "Foram idas e vindas contando com locações extras. Não ficamos restritos ao Espírito Santo. Parte da trama foi filmada em Minas e na Bahia", conta o diretor.

A VICE conversou com Serafini sobre o filme, as dificuldades de produção e o atual momento do cinema capixaba.

VICE: Como surgiu a ideia de realizar um road-movie no Espírito Santo? Alexandre Serafini: O Saulo Ribeiro, que é o co-roteirista, me ligou pedindo uma ideia para um romance que ele queria escrever que tivesse um Mustang. Fiquei um tempo sem saber o que dizer para ele, daí eu perguntei se em vez de Mustang ele não usaria um Maverick, que tem mais a ver com Brasil e nossa realidade. Ele concordou. Daí confesso que as ideias brotaram fácil: carros, busca do passado e a estrada. Tudo isso me trouxe a questão do Contestado, algo que me interessa e que é pouco conhecido. No final, tudo virou um roteiro que está sendo romanceado pelo Saulo.

Quais foram suas principais influências para esse trabalho? Como é meu primeiro filme vejo influência de tudo que já vi e gosto. Mas as influências mais diretas são Two-lane Blacktop do Monte Hellman pelo espírito competitivo e mal-humorado dos personagens. Percebo traços de Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia do Peckimpah pelo conflito social armado e principalmente O Incrível Exército de Brancaleone pela anarquia, humor e essa busca do impossível por personagens que beiram o patético.

Como você chegou na dupla de protagonistas, Will Just e Mozine? A ideia de ter o Mozine veio ainda escrevendo o roteiro no fim de 2011. Tentamos outras pessoas para fazer o Mau, enquanto tentávamos amolecer o coração do Mozine para fazer o Bel. Ele mesmo nos apresentou o Will e percebi que havia uma química bem interessante entre eles e isso poderia funcionar na tela. Nos ensaios eles foram relaxando e tudo funcionou bem depois.

Foi muito difícil rodar com carros antigos como Opala e Ford Maverick? Muito. São carros que carregam uma fragilidade pela idade avançada — que precisava ser respeitada. Lógico que não respeitamos e em muitas vezes pagamos por isso.

Foto: Divulgação.

Como foi trabalhar com veteranos como Fernando Teixeira e Tonico Pereira? Eles foram duas bênçãos para todos nós porque vieram nos ajudar com muita simpatia, carisma e profissionalismo. Na verdade, ao invés deles nos deixarem nervosos pelas suas longas carreiras eles nos trouxeram uma enorme tranquilidade. Foi muito prazeroso trabalhar com eles e nos tornamos grandes amigos. 

Quais foram as maiores dificuldades em fazer um filme como esse? Olha...tudo! As estradas são muito perigosas. Tivemos que construir estruturas para filmar os carros porque era inviável alugar certos equipamentos. Não tínhamos orçamento para isso tudo. O calor absurdo do verão de 2015 era a janela de tempo ideal para juntarmos a ótima equipe que tivemos. Enfim, foi bem difícil, mas trabalhamos com uma equipe maravilhosa, empenhada e muito dedicada.

Os Incontestáveis começa como uma comédia em road-movie e depois ganha o misticismo. Você quis que o filme trabalhasse com dois momentos diferentes? Sim. A chegada da narrativa à zona de conflito do Contestado, na segunda metade do filme, provoca vários acertos de contas com o passado e isso provoca a ruptura de alguns personagens. Esse momento acaba sangrando a própria narrativa do filme. Acho isso fundamental para a segunda parte funcionar com a força que ela precisa ter e atingir os sentidos que eu pretendia.

Como você avalia o atual momento do cinema realizado no Espírito Santo? Continua sendo difícil. Mas até dez anos atrás estava bem pior e mais para o passado era impossível. Temos aqui um grupo forte, talentoso e aguerrido. Estamos evoluindo e produzindo mais tanto por forças individuais e em conjunto. Eu diria que agora seria o momento de crescer muito. Mas a situação precária por conta dessa sabotagem ao país me faz temer o futuro.

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