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Como os Cartéis Falsificam e Vendem Remédios

Medicamentos falsificados estão se tornando um problema cada vez maior ao redor do mundo.

por Alexandra Ossola
23 Setembro 2014, 2:58pm

Crédito: Shutterstock

As duas pessoas acusadas pelo FBI, semana passada, de falsificação e tráfico não faziam parte de um cartel famoso. Não estavam vendendo metanfetamina ou cocaína. A dupla – Marla Ahlgrimm e Balbir Bhogal, uma farmacêutica e um farmacologista – foi indiciada por "conspirar para fornecer pelo menos quatro milhões de medicamentos falsificados, sem marca" para consumidores americanos de uma empresa farmacêutica sediada na Costa Rica.

Medicamentos são considerados falsificados quando o produto é fabricado com ingredientes ilícitos, ou quando o medicamento é vendido como legítimo sem ter sido produzido por uma companhia farmacêutica – foi o que Roger Bate, um acadêmico de passagem pelo Instituto Empresarial Americano, na cidade de Washington, que já publicou bastante material sobre o assunto, me contou.

Medicamentos falsificados estão se tornando um problema cada vez maior ao redor do mundo. É complicado falar em números exatos, mas o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA estima que 10% a 30% de todos os medicamentos em países em desenvolvimento sejam falsificados, onde é difícil impor leis de fabricação. Nos EUA, os relatórios apontam para algo entre 1% ou 2%. Esses produtos podem conter um excesso, ou falta, ou nenhum dos ingredientes ativos da medicação. Para as pessoas que têm o azar de tomar um remédio falsificado, os efeitos podem oscilar entre nada (se o medicamento for um truque), reações alérgicas, envenenamento e até mesmo morte.

Pílulas falsificadas de Viagra, apreendidas. Crédito: Alfândega e Proteção das Fronteiras dos EUA

O caso de Ahlgrimm e Bhogal fornece informações sobre a procedência desses medicamentos, e como chegam às mãos de consumidores americanos. Do relatório do FBI:

...De junho de 2007 a maio de 2010, Ahlgrimm e Bhogal, que tem dupla cidadania, americana e indiana, teriam realizado a fabricação, na Índia, de milhões de comprimidos e substâncias controladas, incluindo alprazolam e fentermina, e medicamentos de receita, incluindo carisoprodol e Viagra falsificado.

Quando alguém nos EUA encomendava algo da empresa farmacêutica costa-riquenha, ainda segundo a declaração do FBI, a própria dupla atendia aos pedidos com remédios contrabandeados e os enviava aos consumidores. Da produção à venda, provavelmente era uma operação pequena. "Pode ser um negócio familiar", disse Bate. "Mas muitas entidades são enormes."

As operações que produzem medicamentos ilegais podem ser pequenas, com base em porões ou garagens na Índia, ou podem ser enormes e profissionais, operando sob condições quase idênticas às empresas farmacêuticas. Certamente, há muito mais operações pequenas que grandes, Bates acrescentou, "mas se considerarmos o volume de pílulas que entra no mercado, os números podem ser bem próximos". Isso porque as operações maiores têm a capacidade de produzir milhões de pílulas por mês, em alguns casos, frequentemente com ingredientes de baixa qualidade.

Medicamentos falsificados estão se proliferando por conta de alguns cenários diferentes. Um deles é que reguladores começaram a investigar a fundo, então estão atrás de cada vez mais produtores, disse Bate. Mas um fator mais assustador é que cartéis que costumavam produzir cocaína e heroína mudaram para drogas legalizadas.

"Está cada vez pior [em partes por causa da] guerra contra as drogas, isto é, contra os narcóticos", disse Bate. "Se você faz parte do Cartel Cali, entrar no mercado farmacêutico faz sentido", porque as punições para produzir drogas legalizadas são bem mais leves que para narcóticos. Além disso, Bates acrescentou, há um mercado novo, muito maior, de pessoas que compram os produtos.

Fazer os medicamentos não é muito difícil. Para conseguir a receita química do Viagra, uma das medicações mais amplamente falsificadas, qualquer pessoa pode ver a patente que a Pfizer inicialmente arquivou em um documento guardado no gabinete de patentes dos EUA. Os passos para sintetizar o remédio estão até na Wikipédia. Empresas farmacêuticas revelam essas informações, Bates disse, porque isso garante que o governo proteja a patente e não deixe outras companhias fazerem exatamente a mesma coisa.

Além disso, todos os fabricantes têm acesso a ingredientes químicos básicos, cuja qualidade oscila entre verdadeiros níveis farmacêuticos, ingredientes baratos e até mesmo versões falsificadas. Para as pessoas que misturam os ingredientes químicos, "há a possibilidade de inalaram compostos que não deveriam", disse Bate. "Se usarem [produtos químicos] verdadeiros e misturarem, pode explodir na cara deles – como em Breaking Bad. Mas não é muito comum."

A mistura final é então prensada em pílulas, às vezes com verdadeiras máquinas de prensa para pílulas, compradas com facilidade no mercado internacional, sem licença necessária. Mas Bate, que já participou de invasões a redes de drogas no Oriente Médio, viu máquinas muito mais rudimentares usadas para esse propósito, incluindo uma prensa móvel austríaca dos anos 70.

Esses grupos operam como células terroristas.

Alguns ingredientes, no entanto, não podem ser falsificados, e costumam ser justamente os ingredientes que afetam a aparência de uma pílula. O azul distinto do Viagra vem de dióxido de titânio, e qualquer pessoa que já tomou Viagra sabe disso. Se a pílula não for azul, disse Bate, ninguém vai tomar. "Cabe aos falsificadores deixá-las com a aparência correta", disse Bate.

Assim que um medicamento é produzido, e parece legítimo, falsificadores precisam tentar inseri-lo na rede lícita. Às vezes, pequenas operações usam alguém que finge ser um vendedor do atacado para comercializar os medicamentos a um farmacêutico, que pode ou não ser cúmplice. Em países com sistemas de reembolso à moda antiga, como o Egito, farmacêuticos podem vender os remédios que eles não distribuíram de volta aos fornecedores, então medicamentos falsos vendidos a apenas um distribuidor podem inundar os armazéns de uma verdadeira empresa farmacêutica.

Grandes falsificadores não conseguem ser tão sutis, então geralmente montam sua própria operação de venda por atacado, adulterando o rastro burocrático e subornando reguladores. "Esses grupos operam como células terroristas", disse Bate, com o número de cúmplices envolvidos em torno de 400 indivíduos, às vezes chegando aos milhares.

Para refrear o fluxo de pílulas ruins, autoridades do governo tornaram-se vigilantes, analisando com cuidado o rastro burocrático de um medicamento, checando cada passo da cadeia de suprimento. É bem mais difícil quando encomendam os medicamentos na internet, e é por isso que Ahlgrimm e Bhogal conduziram sua operação durante três anos sem serem pegos pelo FBI. Mas Bate gostaria de ver mais punições para a negligência criminal, para as empresas que fizeram vista grossa e deliberadamente deixaram produtos falsificados passar.

"Claro, não dá para julgar alguém que acabou de ser enganado [por falsificadores], mas significa que talvez não estejam monitorando o rastro burocrático tão bem quanto deveriam", ele disse. "Por ora, eles se safam de assassinatos. Quem sofre o verdadeiro risco não são os fabricantes dos produtos, são os consumidores."

Tradução: Stephanie Fernandes

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