Ursula K. Le Guin e o Futuro da Esquerda
Arte de capa cortesia da Verso Books.

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Ursula K. Le Guin e o Futuro da Esquerda

"Tudo que temos, tiramos da terra; e, tirando com cada vez mais velocidade e avareza, nós hoje devolvemos pouco além do que tornamos estéril e envenenado."
10 Fevereiro 2015, 1:00pm

Quando alguém te dá a oportunidade de publicar um texto da Ursula K. Le Guin, você simplesmente aceita — mesmo que ​_você coordene uma revista de ficção _e o texto em questão seja um dos ensaios políticos da autora.

Na real, tudo está conectado. A recém ganhadora do National Book Award e ícone da ficção científica tem um longo e alardeado interesse por política; muitos de seus romances, como Os Despojados e Floresta É o Nome do Mundo_, são alegorias eficazes sobre o ambientalismo, o anarquismo e o Taoísmo. Aos 86 anos, ela ainda é uma pensadora das mais radicais, e o ensaio abaixo — uma defesa apaixonada do escritor e teórico político Murray Bookchin retirada do prefácio de_ uma recém-publicada coletânea de seus ensaios — é a prova disso.


"A Esquerda", um termo relevante desde a Revolução Francesa, ganhou novos significados com a expansão do socialismo, do anarquismo e do comunismo. A Revolução Russa instaurou um governo de base completamente esquerdista; movimentos de esquerda e direita dividiram a Espanha; partidos democráticos da Europa e da América do Norte se posicionaram entre os dois polos; cartunistas liberais retrataram a oposição como um nobre gordo fumando um charuto, enquanto os reacionários dos Estados Unidos demonizaram os "esquerdistas comunas" dos anos 30 até o final da Guerra Fria. A oposição esquerda/direita, embora uma simplificação, foi, durante dois séculos, amplamente útil tanto como resumo quanto como lembrete do equilíbrio dinâmico mundial.

Nós continuamos a utilizar esses termos no século 21, mas o que nos resta da Esquerda? A falência do comunismo estatal, a silenciosa inserção de ideias socialistas em governos democráticos e a incansável jornada em direção à direita liderada pelo capitalismo corporativo fazem esse pensamento progressivo soar antiquado, ou redundante, ou ilusório. A Esquerda é marginalizada em seu pensamento, fragmentada em seus objetivos, insegura de sua habilidade de unificar. Nos Estados Unidos, em especial, a guinada à direita tem sido tão acentuada que o mero liberalismo ocupou o papel de bicho-papão antes protagonizado pelo anarquismo e socialismo, e os reacionários são vistos como "moderados".

Assim, em um país que fechou seu olho esquerdo e se esforça para usar apenas a mão direita, onde se encaixa um ambidestro e binocular extremista como Murray Bookchin?

Acho que ele irá encontrar seu público. Muitas pessoas buscam um pensamento consistente e construtivo no qual embasar suas ações — uma busca frustrante. Abordagens teóricas que parecem promissoras à primeira vista, como o Partido Libertário, nada mais são do que uma Ayn Rand disfarçada; soluções imediatas e eficazes, como o movimento Ocupe Wall Street, se esvaem na sua própria falta de estrutura e energia para a luta maior. Os jovens, grupo que essa sociedade sabota e trai descaradamente, estão em busca de um pensamento inteligente, realista e duradouro: não outra ideologia inflamada, mas sim uma hipótese prática e eficaz, uma metodologia que mostre como reeinvidicar o controle do nosso próprio destino. Para conseguir esse controle, precisaremos de uma revolução tão poderosa e que afete tanto a sociedade quanto a própria força que ela visa a controlar.

Murray Bookchin era um especialista em revolução não-violenta. Ele passou a vida pensando sobre mudanças sociais radicais, planejadas e não-planejadas, e como devemos nos preparar para elas. Uma nova coletânea de seus ensaios, "The Next Revolution: Popular Assemblies and the Promise of Direct Democracy", publicado no mês passado pela Verso Books, traz um pouco da luz de seu pensamento para iluminar nosso futuro amedrontador.

Leitores impacientes e idealistas podem achá-lo desagradavelmente cabeça-dura. Ele se recusa a ignorar a realidade para sonhar com finais felizes, e não se deixa impressionar por transgressões travestidas de ações políticas: "Uma 'política' da desordem ou 'caos criativo', ou a prática ingênua da 'dominação das ruas' (que resulta muitas vezes em algo mais parecido com um festival aberto), rebaixa seus participantes ao comportamento de um turba adolescente". Isso certamente se aplica mais ao Verão do Amor do que ao Ocupe Wall Street, mas esse continua sendo um importante aviso.

Tudo que temos, tiramos da terra; e, tirando com cada vez mais velocidade e avareza, nós hoje devolvemos pouco além do que tornamos estéril e envenenado.

Mas Bookchin não é nenhum puritano. Eu o li pela primeira vez quando ele ainda era um anarquista, muito provavelmente o mais eloquente e inteligente de sua geração, e em sua caminhada além do anarquismo ele não perdeu seu senso de alegria e liberdade. Ele não quer ver essa alegria e liberdade soterradas mais uma vez sob os escombros de sua própria irresponsabilidade eufórica.

Atualmente, todo pensamento social e político precisa encarar a irreversível degradação do meio-ambiente pelo capitalismo industrial: o grandioso fato do qual a ciência tenta nos convencer há cinquenta anos, enquanto a tecnologia nos distraía cada vez mais dessas profecias. Cada benefício que a indústria e o capitalismo nos trouxeram, cada fantástico avanço no conhecimento e na saúde, na comunicação e no conforto, nos cobre com a mesma sombra fatal. Tudo que temos, tiramos da terra; e, tirando com cada vez mais velocidade e avareza, nós hoje devolvemos pouco além do que tornamos estéril e envenenado.

E ainda assim não podemos parar esse processo. Uma economia capitalista, por definição, vive em crescimento; como observa Bookchin: "O capitalismo desistir de sua expansão desenfreada significaria o seu próprio suicídio social". Em outras palavras, nós escolhemos o câncer como nosso modelo de sistema social.

A filosofia "cresça-ou-morra" do capitalismo se opõe radicalmente à ideia de interdependência e moderação da ecologia. As duas ideias não podem coexistir; e nenhuma sociedade nascida do mito de que as duas podem viver em harmonia pode sobreviver. Ou nós estabelecemos uma sociedade ecológica, ou a sociedade irá desabar aos pés de todos, independente de status.

Murray Bookchin passou sua vida inteira se opondo ao ethos ganancioso do capitalismo. Os nove ensaios de " The Next Revolution" representam o resultado desse trabalho: o esqueleto teórico de uma sociedade ecológica igualitária e diretamente democrática, com uma abordagem prática para guiar sua construção. Ele critica os fracassos de movimentos passados, revive a promessa de uma democracia direta e, no último ensaio do livro, compartilha sua esperança de que nós transformemos essa crise ambiental em um momento decisivo— uma chance de transcender as limitantes hierarquias de gênero, classe e nação, uma oportunidade de encontrar uma cura radical para o mal que corrompe nosso sistema.

Ao lê-lo, me emocionei e agradeci, como fiz tantas outras vezes enquanto lia Murray Bookchin. Ele era um legítimo filho do Iluminismo, tanto em seu respeito pelo pensamento claro e responsabilidade moral quanto em sua honesta e implacável busca por uma esperança realista.

Tradução: Ananda Pieratti