Drogas

Por dentro dos cafés secretos de cannabis do Reino Unido

Fiz um tour pelos estabelecimentos de maconha clandestinos em operação no país.

por Ali Cedar; Traduzido por Marina Schnoor
13 Setembro 2017, 3:23pm

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE UK .

Sentado no sexto andar, olhando para os telhados de Londres e observando os trabalhadores do centro saindo dos arranha-céus próximos, tomo um café e fumo um beck de haxixe marroquino, comprados no balcão cinco minutos atrás.

Estou num dos muitos cafés clandestinos ao estilo Amsterdã que apareceram no Reino Unido nos últimos anos — lugares que têm suas próprias motivações e personalidades, sejam estabelecimentos visando o público geral e lucro ou outros mais particulares e voltados para a comunidade, mas todos compartilham uma característica-chave: você pode fumar — e às vezes comprar — maconha no recinto. Este é apenas um dos cinco cafés que conheço nesta parte de Londres, e além da capital, comércios similares existem desde Peterborough a Newcastle.

Esses estabelecimentos que comercializam maconha abaixo do radar policial londrino estão na cidade há anos — num caso famoso, o ativista pela legalização da cannabis Colin Davies foi preso em 2001 depois de abrir o café The Dutch Experience em Stockport, na Grande Manchester. E ainda assim, há evidências de que o número de exemplares desse comércio está crescendo recentemente. Claro, a evidência é inteiramente anedótica, mas considerando que esses lugares não estão exatamente implorando para se registrarem no conselho local, é o melhor tipo de prova que temos.

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O Teesside Cannabis Club — um ramo do Cannabis Social Clubs UK — opera como um ponto de encontro para a comunidade maconheira local há muitos anos, mas no começo de 2017 os membros decidiram encontrar e abrir um estabelecimento permanente para o consumo social de cannabis. Diferentemente de outros lugares mais discretos, absolutamente nada ilegal é vendido aqui. O clube fornece a experiência de um café, vendendo bebidas e alimentos, mas tem uma política restrita de "traga seu próprio beck" quando se trata de cannabis. Também há uma proibição da entrada com álcool e drogas mais pesadas.

"Atualmente temos um pouco menos de 100 membros, mas tem gente nova entrando em contato todo mês", diz Michael Fisher, ativista de cannabis e fundador do clube. "Algumas pessoas vêm de longe para passar a tarde aqui." Os frequentadores têm entre 20 e 70 anos, ele diz, e que alguns "membros mais antigos estão começando a trazer amigos".

O endereço do café não está disponível para o público, mas como muitos outros clubes de Cannabis no Reino Unido, o Teesside mantém um site e uma página no Facebook, com o rosto do Michael que todo mundo pode ver. Sendo um estabelecimento tão público, o que os vizinhos acham, e por que não há uma preocupação de que a polícia possa entrar chutando a porta a qualquer momento?

"Bom, nos damos muito bem com os locais — conversamos com todo mundo, não causamos confusão", diz Michael, destacando que é provavelmente por isso que ninguém dá queixa deles e a polícia não se interessa pelo local. "Digo que somos o segredo mais mal guardado do mundo, e acabamos de comprar uma placa de 1,80 metro para colocar na entrada. A polícia não precisa fazer uma batida no clube, eles podem ver tudo que fazemos nas redes sociais, e se houver algum problema, eles têm o número do meu celular, eles sabem onde moro."

O Teesside Club fica sob a jurisdição da Força Policial de Durham — a primeira do Reino Unido a relaxar publicamente sua abordagem em policiamento da cannabis, com o comissário Ron Hogg dizendo, em 2015, que os usuários só viram alvo quando plantam cannabis para vender ou fumam maconha "descaradamente". O fato de todo o consumo acontecer num local fechado sem dúvida funciona a favor do Teesside, mas talvez sua principal segurança esteja na política de não vender drogas.

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Outros cafés — ou seja, aqueles que vendem produtos de cannabis no balcão — não têm esse tipo de luxo; se a polícia ficasse sabendo deles, os donos provavelmente se apressariam em fechar as portas. Mas esses lugares também fornecem algo que você não encontra em mais nenhum lugar do Reino Unido: um cardápio, e tempo para inspecionar o produto antes da compra, sem a pressão de cair em algum golpe num negócio apressado na rua.

Visitei um desses cafés em Nottingham, que — por motivos óbvios — não quis dar seu nome ou qualquer detalhe que pudesse identificá-lo, mas cuja clientela é formada por estudantes e, sem surpresas, principalmente intercambistas. O dono, "Chris", me diz que a ideia de uma batida policial não o incomoda muito: "Não me importo com isso", ele diz. "Está tudo bem. Tem coisa muito pior rolando [nesta área]. Nunca tivemos problema com a polícia."

Imagine você, essa suposta apatia não impede que um membro da equipe observe atentamente uma tela de câmeras de segurança pelas duas horas em que fiquei aqui. Longe do balcão, os clientes estão rindo, conversando e fumando — e ouço pelo menos quatro línguas sendo faladas. "Prefiro os clientes estudantes, especialmente os estrangeiros", diz Chris. "Eles não causam confusão e gastam bastante. Se muitos locais ficassem sabendo deste lugar, eu provavelmente teria problemas."

O espaço do café abriu a vida social de alguns clientes regulares. O cara sentado ao meu lado, Ahmed, me diz: "Eles sempre passam os principais jogos de futebol aqui, então a gente vem assistir. Sou muçulmano, então prefiro estar num lugar onde posso fumar em vez de beber". Seu amigo concorda: "Sim, algumas pessoas gostam de ir ao pub toda sexta. Eu não. Você vai me encontrar aqui toda sexta-feira".

Essa natureza relaxada, claro, é um pouco enganosa. Comprar e fumar maconha do mesmo jeito que você pediria um pint parece incrivelmente normal e legal. Mas não é: a realidade é que este lugar é um negócio ilegal que pode ser invadido pela polícia a qualquer momento. Em 2010, por exemplo, três homens foram presos acusados de vender drogas num "café de cannabis" em Lancing, West Sussex — mas só depois que a polícia invadiu o lugar várias vezes, o que redeu o apelido de "café do buraco na parede" ao negócio, e depois que as autoridades finalmente juntaram provas suficientes para uma condenação.

O cardápio num café em Londres.

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De volta a Londres, visitei outro café com maconha à venda, cujo dono não quis falar, mas me deixou tirar algumas fotos do cardápio.

Cliente regular aqui, Ash me diz: "Venho aqui porque sou um usuário de maconha medicinal que só se beneficia de uma cepa específica de indica, e meu traficante local não dá a mínima — ele me dá coisas com nomes aleatórios, então não sei se o produto vai me dar o alívio que preciso".

O cardápio aqui conta com a maior variedade de cepas que já vi no Reino Unido; muitas são de cannabis médica testada dos EUA. No entanto, o produto não é barato, com um grama solitário geralmente saindo por £30 a £50 [de R$120 a R$200], quando o preço médio nas ruas e de £10 a £20 [R$40 a R$80].

"Pago bem mais pela maconha aqui, mas gosto do cardápio", explica um cliente. "Sou obcecado por experimentar diferentes sabores de erva orgânica. Então poder vir aqui é como ir à Disneylândia."

Outro diz: "Venho aqui fumar erva Cali. Adoro essa cepa".

Ouço muita gente conversando sobre a indústria da cannabis e as últimas tendências em cepas — tudo muito "nerd", mas esse lugar visa mesmo o público em geral. Outros cafés, como o The Dog House Smoking Club em Leicester, atendem entusiastas mais hardcore — o tipo de pessoa que sabe fazer óleo de haxixe sem explodir a casa inteira.

Esse lugar é bem menor que os e só há duas outras pessoas ali quando visito o espaço. O dono — que pede para ser chamado de "Dog" — me diz: "Aqui só entram convidados. O público não pode ficar entrando e saindo, mas as pessoas podem trazer os amigos. Gosto de manter as coisas sob controle e conhecer todo mundo. Faço isso mais pela minha paixão pela erva que qualquer outra coisa — é um lugar para amigos socializarem, onde eles podem fumar a melhor erva possível".

Dog me diz que sonha que a cannabis seja legalizada para poder abrir um lugar com a mesma filosofia, mas onde qualquer pessoa maior de 18 anos possa entrar. Os argumentos à favor da legalização são numerosos, com benefícios econômicos e sociais em potencial, e esses café fornecem isso: um ambiente onde sugestões podem ser dadas e a qualidade é garantida, e onde eles impedem crianças de fumar; então são a resposta às preocupações que alguns podem ter sobre gente consumindo a erva em parques ou nas ruas; e, mais importante, esses cafés fornecem acesso fácil a usuários medicinais procurando cepas específicas.

Uma convidada num evento do London Smoking Club.

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Uma das maiores reuniões de consumidores de cannabis é o London Smoking Club (LSC). Mas diferentemente dos outros clubes, o LSC não funciona num local físico permanente. Ele também não vende produtos de cannabis, operando sob a mesma política de "traga sua própria maconha" do Teesside Club. Eles realizam eventos pop-up e sociais em lugares preexistentes, com os membros vindo socializar e fazer contatos na comunidade da cannabis — por razões medicinais ou recreativas.

"Para algumas pessoas, essa é a festa que eles esperam o mês todo, outras elas vêm tentar achar os melhores brotos, outras estão buscando recomendações para equipamentos de cultivo, etc", diz "Drekanots", um dos caras do time por trás do clube. "Este é um lugar seguro para pessoas que têm algum envolvimento com cannabis."

Drekanots continua argumentando que espaços assim são necessários quando é lei é do jeito que é, e quando o público julga muito a comunidade. "Se um membro do público nos vê com desdém, só quero perguntar por quê — saber como e quando a pessoa construiu essa visão", ele diz. "No final das contas, esse é nosso hobby, nossa paixão... assim como um clube de carros ou de golfe."

Apesar de o clube ser principalmente social, os membros têm motivações políticas. "Já realizamos vários eventos de caridade, levantando dinheiro para organizações de ajuda ao câncer e coisas assim", diz Drekanots. "Achamos que é importante fazer coisas assim para mostrar que quem fuma maconha é tão parte da sociedade quanto qualquer um. Atualmente estamos planejando mais campanhas assim para este ano."

O LSC também está tentando facilitar os testes em laboratório de produtos de cannabis — algo muito necessário no Reino Unido — mas montar um laboratório de testes é difícil sob a legislação atual.

Como os outros cafés e clubes que visitei, o LSC nunca teve problemas com a polícia. Quando entrei em contato com a Polícia Metropolitana e o Conselho Nacional de Chefes de Polícia para discutir a questão dos cafés, ambos se recusaram a comentar. Isso pode ter acontecido por dois motivos extremos: ou as autoridades não fazem ideia de que esses lugares existem, devido à falta de recursos depois dos cortes feitos pelo governo; ou não têm motivação para agir. Depois que a polícia de Durham anunciou que não iria atrás de pequenos portadores de maconha, várias outras forças seguiram o exemplo — e parece razoável que a polícia prefira ver os usuários de maconha congregando em espaços privados.

Claro, isso tudo é especulação. Mas uma coisa é certa: enquanto o governo continua a ignorar as evidências dos benefícios da legalização e regulamentação da maconha, o país vai continuar perdendo milhões de libras em impostos.

@cedarlibani

"Dog" no Dog House Smoking Club em Leicester.

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