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Identidade

Por que meu relacionamento completamente aberto e sem limites funciona

Mas por que diabos não posso fazer o que quero? O que devo fazer então? Quero poder fazer tudo.

por Jeff Leavell; Traduzido por Marina Schnoor
15 Setembro 2017, 10:00am

The Swimming Hole , 1884, Thomas Eakins. Imagem via Wikimedia. 

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE US .

Depois de saber que Donald Trump tinha ganhado a eleição presidencial nos EUA, impulsivamente comprei passagens para Londres. Eu queria estar o mais longe de casa possível quando aquele homem tomasse posse.

Eu nunca tinha estado em Londres. Meu amigo Hanno disse que eu podia ficar no apartamento dele enquanto ele ficava com o namorado, e essa era toda a justificativa que eu precisava.

Fui sozinho, e amigos me perguntaram por que eu não levaria meu marido, Alex, e meu namorado, Jon, na viagem, como se eu estivesse violando algum contrato sagrado. Apesar da ideia de chegar a uma cidade estranha sozinho ser intimidadora, eu sabia que precisava de uma grande aventura só minha.

Passei minha primeira tarde vagando pela cidade só, encarando a vastidão do Tâmisa, a London Eye e o Big Ben. Cruzei a Millennium Bridge, com o sol rasgando as nuvens cinzas, e andei sem rumo pelo Tate Museu, procurando A Incerteza do Poeta de Giorgio de Chirico e Aventura de uma Jovem de Paul Klee. As cores e luzes daquelas pinturas capturavam meu humor perfeitamente — elas pareciam ter uma beleza ansiosa, dourada e esperançosa.

Eu tinha planos tentadores de me encontrar com um cara, Noah. Meses antes, ele tinha me mandado um "woof" pelo Growlr, um aplicativo de encontros gay para ursos, e começamos uma conversa que durou meses. Ele era de Berlim, um arquiteto que agora mora em Londres.

Lembro o momento em que ele saiu do bar onde combinamos de nos encontrar. Ele estava lindíssimo, cercado pela névoa e luzes da cidade, e eu quis tocá-lo e beijá-lo bem ali. Não faço a menor ideia sobre o que conversamos; só lembro que eu queria contar tudo a ele o mais rápido possível.

"Quando Alex, Jon e eu decidimos abrir nossa tríade, estabelecemos todo tipo de regras e limites. Mas o problema das regras é que as pessoas tendem a desobedecê-las."

Andei com ele até sua casa. Na frente do prédio dele em Hoxton Street, ele disse "só quero te convidar para deitar comigo. Quero cair no sono com você". Eu não sabia o que dizer, então só fiquei parado lá, tentando mascarar minha incerteza. Finalmente, ele cortou a tensão: "Você vem?" Dormi em cima dele, no meio de um beijo.

Escrevo muito sobre meu relacionamento, e os comentários que geralmente recebo são do tipo: "Relacionamentos dão trabalho. Eles são construídos com fronteiras e limites, sacrifício e compromisso. Você não pode sair por aí fazendo o que quer".

Mas por que diabos não posso fazer o que quero? O que devo fazer então? Quero poder fazer tudo.

Quando Alex, Jon e eu decidimos abrir nossa tríade, estabelecemos todo tipo de regras e limites. Mas o problema das regras é que as pessoas tendem a desobedecê-las. Se confio no Alex e no Jon, por que preciso restringi-los? Por que não posso simplesmente amá-los e deixá-los ser quem são? As restrições que coloco sobre os outros são meus próprios medos, como meu medo de ser abandonado, de não ser suficiente, de perder amor. Então decidimos tentar algo diferente — confiar uns nos outros.

A ideia de um de nós encontrando outra pessoa parecia improvável de qualquer forma. Alex já tinha um namorado fora do nosso relacionamento, e eu tinha meu próprio namorado, Conor. Jorja, nosso terapeuta familiar, sempre fala sobre recursos: quanta energia, tempo e dinheiro você pode dar para alguém fora do seu relacionamento principal antes de não ter mais o que dar? Mas uma coisa que aprendi com esse estranho experimento é que a qualidade e quantidade de amor que experimentamos em nossas vidas só são limitadas pelas restrições que colocamos nisso.

Tentando definir nossa tríade, Alex simplesmente diz: "somos uma família". Eu entendo, eu sinto que isso é verdade. E talvez, com o tempo, a família deva crescer, e nossas ideias de quem somos nessa história vão crescer também. Alex, Jon, Conor — eles são minha família. Minha.

Depois que Noah foi trabalhar na manhã seguinte, fui para um café em Shoreditch. Para onde me virava havia notícias de Trump: um muro deveria ser construído, restrições estabelecidas, liberdades limitadas.

Naquela noite, Noah e eu fomos para uma festa de ursos. Lembro do momento em que os dedos dele tocaram os meus, e eu senti: este aqui é meu. E eu sou dele.

Na manhã seguinte, ele me levou para tomar um café da manhã inglês num café escondido num beco labiríntico. Tomamos flat whites, experimentei black pudding, o que acho que não farei de novo. Noah estava ansioso para me mostrar o Teatro Nacional de Denys Lasdun, um dos prédios brutalistas mais controversos de Londres.

Parado lá com o Noah, olhando aquela estrutura bela e quase chocante do Teatro Nacional, acabei me perdendo na excitação dele enquanto ele discutia as dinâmicas do espaço em termos filosóficos. Me senti afundar na estranheza do edifício.

No Barbican, outra utopia brutalista, andamos por um complexo de superfícies de concreto e jardins elevados, com Noah apontando o modo como a propriedade representava um ideal de vida urbana, como os mundos privado e público se misturavam para criar comunidade.

Naquela noite, fomos para o Dalston Superstore, um clube onde DJs tocam no porão até a madrugada. Sempre fico surpreso com as pessoas e a generosidade que posso encontrar no mundo. Dançamos e nos beijamos naquele clube, e as pessoas pareciam se mover conosco, dançando, beijando e rindo. Algo naquela noite me deu esperança no mundo, e na possibilidade do que podemos nos tornar.

Passei meu último dia em Londres na cama com Noah. O cheiro dele, o gosto dele, o som da sua voz, o modo como ele construía ideias com palavras, o modo como ele construía significado — ele se tornou parte da família.

Quando voltei para LA, contei ao Jon e ao Alex sobre Noah. Aprendemos a encorajar e apoiar uns aos outros, mesmo quando temos medo. E comprei passagens para ver Noah de novo.

Penso em Jorja e sobre quando posso sentir que não há mais recursos para dar. Mas às vezes imagino o oposto — se quanto mais nos damos, e maior a nossa família se torna, mais ganhamos. Talvez expansão não tenha que significar esgotamento. É tudo uma grande aventura, e estamos apenas no começo.

Mas eu não mudaria nada disso.

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