Fotos: Coletivo Amapoa

Pessoas que lutam pelo amor e pela diversidade

Amar é muita coisa.

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mai 25 2018, 6:03pm

Fotos: Coletivo Amapoa

Conteúdo feito em parceria com a Converse.

Ter um mozão pra dormir de conchinha no final do dia ou aquele ombro pra chorar depois de um pé na bunda é bom demais. Claro que a convivência, seja entre amigos ou casais, é complicada e eventualmente rola um desentendimento por causa da louça suja na pia ou do você-não-me-chamou-pro-rolê, mas, beleza, amar é assim, doido e doído. Convidamos as meninas do Coletivo Amapoa pra encarar a missão de conhecer e fotografar pessoas incríveis que abriram as portas de suas vidas lado a lado pra falar sobre a luta diária pelo amor e pela diversidade.

Bárbara (sentada) e Mônica. Foto: Coletivo Amapoa

Mônica, 22 anos, e Bárbara, 21

VICE: Oi, meninas! Vocês trampam com o quê?
Bárbara: Sou consultora de atendimento numa empresa de casa e decoração, mas eu também movimento meu Instagram como digital influencer, dizem…

Mônica: Trabalho com um app de mobilidade urbana.

Como vocês se conheceram?
Mônica: Pelo Facebook.

Bárbara: Na verdade, foi muito engraçado porque eu sempre via a Mônica nas sugestões de amizade. Aí pensei: "Será que adiciono?" Demorei umas duas semanas para adicionar e mais duas para chamar no chat.

Mônica: Quando ela me mandou mensagem eu achei que era fake, não acreditei que ela tava me dando mole.

Faz quanto tempo que vocês estão juntas?
Vai fazer um ano.

Como foi o primeiro date de vocês?
Bárbara: O primeiro date foi meio complicado porque ela levou um amigo, né?

Mônica: Porque eu achei que ela era fake mesmo. Falei: "Amigo, vamos comigo porque eu acho que vai vir um velho tarado". Não acreditava que ela era real mesmo, não sabia nem do Instagram dela, que ela era famosinha... E a' ele foi comigo e, quando chegou lá, falou: "Amiga, que mulher é essa? Não deixa ela escapar".

Você estava com muita vergonha?
Mônica: Muito, eu nem me mexia, eu era um robô.

Foto: Coletivo Amapoa

Vocês lembram o que sentiram na hora?
Bárbara: Frio na barriga, nossa! Eu estava tremendo. Senti que tinha sido um match, a primeira vez eu já pensei: "É ela!"

Mônica: Foi a mesma sensação.

Vocês lembram qual é a coisa mais romântica que uma fez ou falou para outra, ou que vocês já viveram juntas?
Mônica: Foi assumir esse compromisso e falar "Eu amo você". Foi o maior ato. E, além disso, morar junto, dividir boletos. Temos uma amizade muito forte, e independente do que vai acontecer no futuro, pretendemos ser sempre muito amiga uma da outra.

E o que vocês acham sobre amar e assumir um amor nos dias de hoje?
Bárbara: Muita coragem. Vivemos num mundo muito preconceituoso ainda. E já passamos por diversas coisas. Como andar de mãos dadas na rua e o pessoal gritando que é coisa do demônio. É muito ofensivo e eu não consigo compreender. Qual é o problema em amar?

Foto: Coletivo Amapoa

Fábio, 28 anos, e Rodrigo, 28 anos

VICE: Como vocês se conheceram e como viraram amigos quase irmãos?
Rodrigo: Somos de Belo Horizonte, Minas Gerais.

Fábio: Na Savassi, que é a nossa Praça Roosevelt, no auge da fase emo. Nos conhecemos faz 12, 13 anos e somos amigo. Nos conhecemos numa fase que foi legal e difícil, quando estávamos nos descobrindo como gay.

Quantos anos vocês tinham?
Fábio: Dezesseis. Passamos juntos pela fase dos primeiros namorados, com a família descobrindo que a gente era gay, saindo do armário, entrando na faculdade. Acabou que fizemos faculdade juntos…

Mesma faculdade?
Rodrigo: Mesma faculdade, mesma sala.

Fábio: E depois abrimos uma empresa juntos, e viramos estes pseudo irmãos.

O que representou, nessa época, se descobrir gay e sair do armário meio que juntos?
Fábio: Tivemos experiências um pouco diferentes de crescimento em relação a sexualidade e a identidade. Talvez pela metodologia da escola dele e da minha, eu sofri mais bullying.

Acho que, de certa forma, a minha identidade, a maneira como eu me expresso é visivelmente mais fácil de eu ser apontado na rua: "Ah, viadinho", sabe? Então, talvez mais nesse sentido, a forma do Rodrigo se expressar era um pouco mais reservada do que a minha talvez. Também a gente tinha 16 anos, né?

Onde é que o afeto entra?
Fabio: Quando a gente pensa do ponto de vista da gente como LGBTQ, o afeto é uma barreira. Mesmo passados 10 anos que eu me assumi, se eu vou ter um certo tipo de demonstração de afeto na rua, eu sempre tenho um pensamento sobre a minha segurança. Antes era um medo do que os outros vão achar, hoje é um medo mais relacionado a segurança. Esse lugar é seguro? É de boa? Acaba que vira uma coisa política, o afeto.

O que vocês acham da frase "Desconstruir pelo afeto"? O que vem na cabeça?
Rodrigo: Bater de frente. Desconstruir pelo afeto pra mim é: se eu quero tentar desconstruir alguém mostrando o meu afeto com o meu namorado, eu tô querendo bater de frente com alguém que acha "errado", digamos assim. Eu acho que é tentar bater de frente mesmo.

Túlio e Stephanie. Foto: Coletivo Amapoa

Stephanie, 24 anos, e Túlio, 33 anos

VICE: Oi casal, conte um pouco sobre vocês.
Stephanie: Sou arquiteta e escrevo também. Não sei se escritora, mas tenho uma coluna onde abordo várias questões relacionadas ao universo feminino e negro. Nasci em Araraquara, interior de São Paulo, e fiz faculdade em Campinas. Depois vim para a cidade de São Paulo.

Túlio: Sou natural de Mogi das Cruzes, mas moro em São Paulo há alguns anos. Vim fazer faculdade aqui. Sou sociólogo de formação e trabalho com curadoria de conhecimento.

Vocês conseguem lembrar qual foi a primeira impressão?
Túlio: A impressão que eu tinha da Stephanie era que ela era uma menina combativa da internet, assertiva. E quando nos conhecemos, achei ela fofinha. Achei que fosse mais dura, e, pessoalmente, vi que não, vi que ela era isso em relação às convicções dela.

Stephanie: Primeiro eu achei que ele era um solteirão cafajeste, tipo um pegador, porque ele me mandou uma mensagem muito estranha em um domingo à tarde. Aí depois eu achei o Tulio super sério.

Foto: Coletivo Amapoa

O que vocês mais gostam um no outro?
Túlio: Gosto da inteligência dela, da sensibilidade. Ela consegue olhar as coisas, os fenômenos e algum assunto sempre por uma ótica diferente. Muito inteligente, muito crítica e muito sensível. Ela tem um quê de caipirice que eu gosto. Caipira no bom sentido, tipo, em uma cidade igual São Paulo, em que as pessoas são escrotas, são frias.

Stephanie: Ele é bonito. Mas desde o começo ele sempre foi muito aberto para as coisas que eu falava, e para mim isso é muito novo. E mesmo ele sendo um homem e invariavelmente um homem hétero, ele nunca deixou de escutar o que eu estava falando.

Contem um plano que vocês têm para um futuro próximo ou não.
Stephanie: Viajar juntos! Já viajamos juntos e temos um cachorro juntos, o
Basquiat.

Túlio: Viajar para a Jamaica.

Stephanie: E levar o Basquiat. A gente quer muito viajar e levar o Basquiat para fora,
sabe? Porque ele tem que conhecer a neve.

Túlio: Talvez morar num apê maior no futuro.

Bia (de camiseta azul) e Tati. Foto: Coletivo Amapoa

Bia, 21 anos, e Tati, 26

O que vocês fazem da vida e onde moram?
Bia: Sou modelo plus size, só que gorda. Eu era de Saquarema, Rio de Janeiro. Moro em São Paulo há três anos.

Tati: Sou de Caçapava, interior de São Paulo. E sou gerente de uma loja indiana.

Como vocês se conheceram?
Bia: Em um grupo de militância gorda no Facebook, não foi? O nome do grupo era Coletivo Anti-Gordofobia, é um grupo massa.

Faz quanto tempo?
Bia: Ah, acho que já faz uns três anos e pouquinho, né?

E como é que foi o primeiro encontro?
Bia: O primeiro encontro foi no metrô... Ah não!

Vocês namoravam na época?
Tati: Ela namorava, em um relacionamento aberto.

Bia: Um relacionamento aberto muito desconstruído.

Como vocês se viam antigamente e hoje?
Bia: Eu tinha muito medo de ter alguma coisa completa com alguém. Eu achava que o que eu recebia de carinho, de amor, era suficiente em relação a tudo. Ainda mais me relacionar pela primeira vez com uma mulher gorda, que entende tudo - de todos os âmbitos - e isso envolve toda a nossa vida. E mudou muito, eu achava que eu não merecia ter esse amor completo, vontade de viver junto e é isso aí, sabe? Ponto. De ser natural, entendeu? Você não precisa forçar o amor, ele acontece.

Tati: Acho que é muito relacionado a essa intimidade que a gente cria. No começo era muito uma admiração, porque eu via a Bia, e ela sempre foi sempre muito envolvida no movimento anti-gordofobia, e ela era uma referência para as outras meninas. Eu achava a Bia maravilhosa, ainda acho. Mas assim, muda muita coisa conforme os anos vão passando, você vai vendo a pessoa em outras situações.

Ela foi a primeira namorada que eu levei em casa, sabe? Meu pai foi a primeira pessoa que teve que lidar. Ele não aceita que sou lésbica até hoje. Então, quebramos essa barreira juntas. Fui na casa dela conhecer a família dela, embora eles não soubessem diretamente que eu era a namorada dela... Mas ficou tudo subentendido. É um processo que leva tempo. Foram experiências muito fortes para nós duas. Acho que isso só vai tornando nosso relacionamento mais forte e só temos crescimento pela frente.

Foto: Coletivo Amapoa

Qual foi a coisa mais romântica que vocês já fizeram uma pela outra?
Tati: Na primeira vez que a Bia desfilou eu levei três girassóis pra ela. Tinha falado que eu não conseguiria ir, e eu fui.

Bia: Acho que o mais romântico foi a nossa viagem para Ilhéus e pra Gonçalves. A gente nem se chamava de "amor", e foi ali que tudo mudou… De ouvir "amor" e ficar assim: "Está acontecendo!"

O que é amor?
Bia: Amor pra mim é vontade de estar junto. É passional, sim, é respeito, é união, é prioridade. Eu sou muito intensa, acho que pra mim é isso.

Tati: Amor é estar junto da pessoa, se encantar por ela. Se posicionar sempre. Mostrar com quem você está o tempo todo. Não só por ser lésbica, mas também por ser gorda. Ser gorda no meio lésbico, que é uma bosta, é escroto pra caralho.

Danilo (de calça clara) e Franz. Foto: Coletivo Amapoa

Franz, 26 anos, e Danilo, 31 anos

VICE: Oi meninos, tudo bem? Falem um pouco de vocês.
Franz
: Meu nome é Francisco Ventura, e tenho o nome artístico de Franz, que é Francisco em alemão, que eu ganhei quando eu fazia conservatório de música na minha cidade. Sou pianista, compositor e agora trabalho com vídeos no YouTube também. Sou do interior de Minas, São João Del Rei.

Danilo: Meu nome é Danilo Dabague e sou natural de Sorocaba. Sou youtuber, mas trabalho como drag há 13 anos e meu canal é sobre isso.

Como vocês se conheceram?
Franz: Eu já era fã do Danilo desde o começo do canal, e sempre quis conhecê-lo. Mas depois de um tempo que eu vim pra cá, acabou que a gente se cruzou no Tinder. Mas não foi de primeira, o primeiro match não teve muito papo. No segundo a gente conversou mas aí eu deletei. Só no terceiro match que a gente combinou de se encontrar em casa porque ele queria ouvir piano.

Quanto tempo vocês namoram?
Franz: Oficialmente?

Danilo: Pouquíssimo tempo.

Franz: Sete meses, quase.

O que vocês mais gostam e valorizando um no outro?
Franz: Eu valorizo muito o Danilo ser uma pessoa muito compreensiva. Super aberta ao diálogo. É o que faz a gente estar forte. E isso falta em muitos relacionamentos e eu estou feliz de encontrar alguém assim.

Danilo: O que eu admiro no Franz são várias coisas. A paciência... Ele é paciente comigo, extremamente cuidadoso, carinhoso, mas de uma maneira bem peculiar. O Francisco é alguém que não se revela, ele não é alguém com demonstrações fáceis de carinho, isso torna a demonstração dele bem mais especial. Eu acho que a maneira dele demonstrar é muito diferente das outras pessoas que eu já conheci. Isso causa um impacto porque a gente não sabe como lidar. Mas traz essa sensação de descoberta e de querer descobrir cada vez mais. É bem encantador, extremamente complicado igual eu, duas loucas, né? Mas eu acho que é aí que a gente se encontra.

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Vocês acham que produzem melhor quando se está apaixonado ou com o coração quebrado?
Franz: Eu vou ser sincero, eu produzo muito melhor quando estou com o coração partido. Todas as minhas obras são baseadas em perda e morte.

Danilo: Me sinto bem mais inspirado. Primeiro porque ainda enxergo, gosto de enxergar o Franz como alguém extremamente crítico. E como ele sempre acompanhou o meu trabalho, o feedback que ele me dá é muito importante, por esse ponto de vista. Faz com que eu queira produzir cada vez mais. E ainda tendo alguém que entende o seu trabalho.

Cafonissíma essa entrevista!

O amor é cafona e não podemos negar o clichê. Por exemplo essa pergunta: quais são os planos de vocês para o futuro?
Danilo: Se suportar! Planos, eu tenho muito medo. Nós temos planos? Sabe o que eu acho, é tanta coisa acontecendo agora que eu não consigo pensar daqui um mês o que estarei fazendo.

Franz: [Somos] um casal mais parado, mais ameno, não tem tempo de ficar fantasiando, né? A gente produz tanto! Agora que eu comecei meu canal. A gente conversa tanto. Eu aprendo muito com ele. O tempo que a gente tem a gente prefere usar para conhecer mais o outro. Faz pouco tempo que a gente ta junto, não temos tempo de ficar planejando um cachorrinho, viagem no final do ano.

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