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Homens brasileiros falam sobre masculinidade tóxica e machismo

“Nossa, um negão desse jeito, bonito, vai ser bicha? Vai ser viado?"

por Marcos Pacanaro e Victória Durães
28 Junho 2018, 3:53pm

Não chore. Não leve desaforo pra casa. Não brinque com essa boneca. Seja forte. Não cruze as pernas. Não use rosa. Não cumprimente outros homens com beijo no rosto. Essas são apenas algumas das ordens que você já ouviu em algum momento, caso seja homem.

Na pesquisa Eles Por Elas feita pela ONU Mulheres em 2016, 95% das mulheres acham que há muito machismo no Brasil. Esse número cai para 81% quando perguntado para os homens. Dentre eles, 57% se consideram um pouco machista, e apenas 3% se consideram bastante machistas.

“Seguindo os estereótipos conhecidos, masculinidade é a ideia de um homem provedor, chefe de família, no melhor estilo ‘sonho americano’ dos anos 50, do cara bem sucedido que trabalha e traz o dinheiro pra dentro de casa”, explica Tales Mistura, psicólogo e coordenador do Grupo de Masculinidade do Coletivo Feminista de Sexualidade e Saúde.

Segundo a pesquisa, tais estereótipos masculinos causam dificuldades para os homens: 66,5% deles não conversam com os amigos sobre medos e sentimentos, outros 45% não gostam de se sentir responsáveis pelo sustento financeiro da casa e 45,5% gostariam de se expressar de modo menos duro ou agressivo.

“Falar sobre masculinidade causa angústia nos homens, então o máximo que dá pra se chegar na discussão hoje é o reconhecimento de que ela precisa ser desconstruída, reconhecer que isso não serve mais para eles, que causa sofrimento, que atinge as pessoas ao redor deles e que temos que deixar esses conceitos para trás”, diz o psicólogo.

Pensando nisso, a VICE entrevistou seis homens de realidades diferentes para entender como a masculinidade afeta o dia a dia de cada um. Depois de todas as conversas, percebemos que apesar das diferenças raciais, de classe, e de faixa etária, há muitos pontos convergentes sobre o papel de ser homem e experiências semelhantes pelas quais todos passaram.

Lucas Silvestre 22, jornalista e fotógrafo

VICE: De que forma a masculinidade foi apresentada para você na infância? Acredita que ela interferiu de alguma forma na sua formação?
Lucas: Eu sempre tive esse trejeitos que são considerados femininos, mas quando eu era criança, com uns três anos, eu quis pintar a unha e não tinha noção do que era masculino ou não. Isso foi apresentado pra mim, pela primeira vez, com essa história de pintar a unha. A masculinidade me foi apresentada como uma imposição: por estar nesse corpo, por ter um pau entre as pernas, tinha que ser masculino. Até hoje às vezes penso “eu devia ser mais masculino” mas não, não vou ser, luto contra isso dentro de mim.

Você acha que a pressão da masculinidade muda de acordo com raça e classe? Sente alguma diferença por ser negro e gay?
Sinto, muito. Uma coisa que acontece comigo e outros gays negros, pela qual os gays brancos não passam, é ouvir “nossa, um negão desse jeito, bonito, vai ser bicha? Vai ser viado? Olha o eu tamanho!” Então rola uma cobrança maior. Se você é negro, você é forte, selvagem, sagaz, viril e… não. Eu não sou nada disso, nem sei ser isso. Na rua, cheguei a ouvir uma vez “Pô, negão, que decepção para a nossa classe!” pelo modo como eu estava vestido.

Geovanni Vieira, 25, estudante de direito

VICE: O que é masculinidade para você?
Geovanni: Um jeito mais simples seria dizer que é uma série de comportamentos definidos por relações de poder, mas talvez eu não enxergue a masculinidade dessa forma porque ela ainda é uma dúvida pra mim.

Como foram apresentados os papéis masculinos na sua infância?
Cresci em uma ocupação do MST e fui criado sempre por mulheres, então as questões delas sempre foram parte da minha vida. Mas lembro de uma briga que tive na escola. O meu avô disse que se eu voltasse chorando para casa de novo, ele iria me bater, que eu precisava aprender a me defender e que homem não aceita levar esse tipo de mágoa para casa sem revidar. Por causa disso, nas outras vezes em que discuti com o mesmo menino, bati nele. A minha resposta sempre era a violência, relacionar respeito a violência era algo que eu fazia.

Você lembra de algo que deixou de fazer por ter medo de ser algo “menos masculino”?
Minha vida foi muito instável: eu me mudava constantemente, passei por várias escolas e, quando eu chegava, não era bem recebido. Por ser alguém novo e ser negro, eu não era respeitado. A minha maneira de defesa, de me impor, era através da força, de uma aparência fechada e intimidadora. Isso fez parte da construção de masculinidade que eu assimilei.

César Zamberlan, 47, professor de comunicação

VICE: O que é masculinidade para você?
César: Acho que é um termo em crise. O feminino está em processo de discussão constante, até por questões políticas, enquanto o masculino é algo estagnado, e não acho que o homem tem pensado sobre.

E por que não falamos sobre?
A sociedade brasileira tem sido muito lenta. O masculino é a parte mais cruel disso: o homem branco, hétero, rico não parou para questionar o seu papel, olhando até com uma certa vergonha em ver o quanto esse próprio tipo de homem já fez mal.

Repensar a masculinidade traria mudanças para a sociedade?
A masculinidade vai ser alterada, com certeza, é um processo sem volta que já começou. Apesar da onda crescente de conservadorismo, isso é um rumo e não há como forçar a sociedade a voltar.

A comunicação ajuda essa mudança a acontecer?
De uns anos pra cá, como professor, preciso ficar muito atento à forma de dar aula. Tínhamos professores com pensamentos conservadores e os alunos eram obrigados a engolir por causa da estrutura hierárquica e do apoio das instituições. Hoje temos coletivos de vários tipos na faculdade, e os alunos têm a liberdade de chegar no professor ou qualquer outro nível hierárquico, da universidade ou não, e cobrar um comportamento ético. As redes sociais encorajam e ampliam essas denúncias.

Já tomei dura de aluno por algumas falas e fiquei triste em perceber quão enraizadas as expressões e assimilações preconceituosas que fazemos saem automaticamente. O espaço da sala de aula já é muito mais democrático nesse sentido. O fato dos próprios alunos de comunicação cobrarem essa postura possibilita um mercado diferente.

Issao Bazolli, 31, ilustrador

VICE: Você faz pole dance. Enfrentou preconceito por isso? Como é ser um homem hétero “fugindo” desse “padrão”?
Issao: Eu faço pole dance há três anos e meio e comecei por causa da minha ex. É um ambiente totalmente feminino e quando aparece um cara, ou ele tá acompanhando a namorada, que era o meu caso, ou é gay. Entendi que a mina precisa saber muito dos encaixes e ter muita força. Só conseguia pensar: “Mano, eu quero fazer essa porra”.

O negócio mais bizarro foi quando eu fui fazer um trampo, aí uma mina chegou pra mim falando que tinha visto que eu fazia pole no Instagram, perguntou se eu era gay e se tinha um monte de “puta” no lugar onde eu fazia pole. Ela falou com uma propriedade que eu fiquei: “É sério ou você tá zoando?”

Sua namorada é muito ligada às questões de gênero e feminismo, né? Você aprende muito com ela?
Eu aprendo muito com ela, principalmente sobre maternidade. É muito louco perceber como o peso da criação sempre cai muito mais na mãe do que no pai, ainda mais ela sendo mãe solo. Aprendo com ela, com as amigas dela, com a criação que ela dá para o filho... Não acredito que sou desconstruído, porque pra mim ninguém é 100% desconstruído, nem as mulheres, mas aprendo diariamente com ela.

Eduardo Ribas, 35, comunicólogo

VICE: O que é masculinidade pra você?
Eduardo: A masculinidade não era algo que eu pensava antes de ter meu segundo filho. Ele foi o grande provocador disso, com apenas sete anos. Mas, parando para pensar, consigo lembrar de algumas cobranças que a gente tinha quando era mais novo. Você tem que ser forte, não pode levar desaforo para casa, não pode chorar, ou a partir de certa idade você tem que ter interesse por uma menina, esse tipo de coisa. Era o meu pai que mais cobrava esse tipo de atitude, mas não de forma violenta; ele agia nas palavras, nas provocações, tentando gerar algo em mim que se transformasse em autodefesa e proteção contra a vida.

Você percebe diferença na masculinidade por ser negro?
Eu percebo e hoje me sinto livre de muitas cobranças. Eu não preciso me encaixar em determinados estereótipos. Um dos momentos em que eu falei sobre paternidade foi sobre a questão de ser um pai negro com um filho branco, como é o meu mais velho.

E como é ensinar seu filho dando liberdade para que ele faça certas coisas, sabendo que em outros ambientes ele pode ouvir o contrário?
Felizmente, o Chico, mesmo com sete anos, não abaixa a cabeça. Ele debate, ele sabe que não tem nada de mais em ele ser do jeito que ele é. Além disso, mais uma vez entra na questão da bolha, pois ele estuda em uma escola com modelo construtivista, então os professores e pais são mais respeitosos, mais compreensivos.

Mas já aconteceu de mexerem com ele, de implicarem com o cabelo grande, algum brinquedo que ele leva. Quando isso acontece, a minha primeira reação é de querer ir pra cima e resolver eu mesmo, seja com a criança ou com o pai dela, mas eu logo penso que não vai resolver nada e prefiro deixar pra lá.

Guilherme Bertola, 28, gerente de projetos de T.I

VICE: O que é masculinidade para você?
Guilherme: A masculinidade é um reflexo, é tudo que a gente aprende a respeito do que deveríamos ser. Masculinidade, como conceito de papel de gênero, é tudo aquilo que eu deveria seguir por ser homem. Você vai acreditando que aquilo é a única possibilidade de existir e isso gera dores sentimentais, problemas no relacionamento, e como você lida com afeto e diversos outros fatores da sua vida.

De que forma essa masculinidade foi apresentada pra você na infância?
Como criança dos anos 90, uma referência muito forte foi o futebol. Eu ouvia sempre que se eu não gostasse, não teria amigo nenhum e foi algo bem marcante pra mim, sabe? Não queria essa brincadeira, eu queria outras. Eu brincava de Barbie e isso gerava um caos, enquanto eu só queria recriar realidades. Ganhei soldados, os Comandos em Ação, e usava eles para isso, como se não estivessem em uma guerra. Eles iam trabalhar, tinham suas casas, vidas normais.

Tem algo que você deixou de fazer por medo de pensarem que você seria “menos homem” por isso?
Eu nunca fui muito apegado à ideia de masculinidade. Isso gerou um impacto nas amizades, na infância, porque não queria brincar de futebol ou daquilo que os meninos brincavam. Essa questão, de me assumir uma bicha afeminada, gerou uma quebra em mim. Eu não sinto mais um impacto de não ter uma postura “de homem”, uma postura “masculina”. Eu tenho uma autoestima que me permite viver muito bem assim. Eu sei que aquilo que eu fizer, ou o modo como eu me vestir, vai causar impressões ou olhares, mas isso não me incomoda mais.

Como foi seu processo para se assumir gay?
A descoberta da sexualidade na adolescência não veio pra mim. Enquanto todos estavam com interesses em outras pessoas, beijar, paquerar, eu não estava nessa vibe. Quando tinha mais ou menos 14 anos, comecei a escrever um diário e um dos momentos que foi um grande clique para mim, foi quando escrevi “hoje eu vi o fulano e eu gostaria de beijar ele” e nem percebi. Depois que li, fiquei surpreso e arranquei a página, reescrevendo todo o meu dia sem aquela frase. Era algo que eu tentava negar pra mim mesmo.

Nessa fase, a falta de referência é o pior inimigo que temos. Não se fala sobre ser gay, apenas sobre os papéis de homem e mulher e como se completam. Eu, que sempre fui uma pessoa afetiva, que gostava de ser próximo dos outros, era ainda mais mal visto, como um comportamento anormal.

Perceber cedo que eu era gay me permitiu pensar que talvez eu não precisasse seguir essa masculinidade. Acho que quando falamos de masculinidade para um homem hétero, é uma coisa e para um homem gay, é outra. O homem gay, a partir do momento em que se entende gay, é classificado como “não-homem”, como algo que foge do esperado. Isso desnorteia um pouco, principalmente quando eu via minha família agir como se não estivesse acontecendo, culpando meus amigos e as pessoas ao meu redor pelo meu comportamento. Como se eu fosse uma pessoa tão certinha que não pudesse ter essa “falha” de ser gay.

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