Drogas

A indústria da cannabis no Canadá tem muito dinheiro, bicho

Fui a todas as festas de maconha pra que me convidaram antes da legalização.

por Manisha Krishnan; Traduzido por Marina Schnoor
30 Outubro 2018, 3:07pm

Retrato de uma jornalista da maconha. Fotos por Jesse Milns/Leafly (esquerda) e Sasha Kalra.

Estou numa área ao ar livre em King Street West em Toronto, aninhada entre um restaurante de poke e uma academia com clientela intimidadoramente fitness. Tem alguns aquecedores, pilhas de madeira para fogueira e fogueiras falsas em volta das quais as pessoas estão sentadas em bancos de madeira assando marshmallows. Garçons andam pelo local distribuindo ingredientes para s'mores (um petisco de fogueira tradicional norte-americano), onde você pode escolher entre chocolate amargo, ao leite ou branco.

Atrás de mim, alguém está brincando com um conjunto gigante de Jenga.

Uma voz no microfone diz “Não é sempre que você pode dizer 'Vivi esse momento. Eu estava lá quando aconteceu'. Desfrute, desfrute por ser parte disso."

A voz pertence a Sam Roberts da Sam Roberts Band — que está tocando um set acústico de clássicos como Brother Down — e o momento de que ele está falando é a legalização da maconha recreativa no Canadá. Sam Roberts, uma das bandas mais famosas do Canadá nos anos 2000, está tocando numa sala para umas 50 pessoas.

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Sam Roberts toca para a legalização. Foto via Fireside Cannabis

Você deve estar pensando, o que Sam Roberts e s'mores têm a ver com maconha? Bom, a empresa por trás do evento é a Fireside Cannabis — uma marca de maconha recreativa lançada pelo produtor licenciado ABcann. Levei um tempo pra encontrar essa informação, porque enquanto escrevo isto, o site deles diz simplesmente “Fireside significa bons momentos em boa companhia”.

Estou aqui como parte da minha missão de explorar como será a nova cultura canábica, pós-legalização.

Ironicamente, parece que vai ser uma cultura meio bêbada.

Tem um bar num canto do evento da Fireside servindo chocolate quente, cidra e vinho quente de graça.

É uma ideia inteligente e discreta. Devido ao dilúvio de regulamentações passadas por vários níveis do governo, as empresas de cannabis têm que ser bem criativas com o marketing de seus produtos. Uma das principais questões é que eles não podem realmente ter maconha em seus eventos.

Me disseram que os três sabores de chocolate para os s'mores representam três produtos diferentes de THC que serão oferecidos pela marca — FIRESIDE Black: um produto com alto teor de THC; FIRESIDE Red: teor médio de THC; e FIRESIDE Gold: um produto com THC e CBD. Todo mundo vai embora com uma sacola de brindes contendo uma caneca, uma touca vermelha e preta e um cobertor amarelo, tudo com o logo de foguinho da Fireside.

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Fazendo s'mores. Foto cortesia da autora.

Tudo muito descolado, e não consigo deixar de pensar quão longe chegamos dos dias da minha adolescência em Vancouver, fumando maconha num beco atrás de um cinema esperando não ser flagrada.

Como uma repórter de cannabis, fui bombardeada por convites para festas, muitas delas que, aparentemente, pareciam ter pouco a ver com a substância em si. Apesar de coisas como uma noite de “cura por energia, leitura de aura, sessões de cura com cristais” ou um “show ao vivo de lenhadores” na Ilha de Toronto parecerem divertidas, muitas vezes eu não aceitava os convites porque estava ocupada, cansada ou não estava no clima pra um evento promocional. Além disso, odeio networking.

Mas algumas semanas atrás, mudei de ideia. Decidi ir a todas as coisas pra que fosse convidada para tentar determinar como as empresas de cannabis estavam se vendendo, quanto dinheiro elas estavam gastando em marketing, quem frequentava essas festas e, principalmente, como será a cena de cannabis agora que a maconha recreativa é legal. A resposta curta é: tem muito mais opções que a cultura do maconheiro do bong de vidro com a qual cresci na Costa Oeste. Se você curte “bem-estar”, vibes de fogueira hipster, grafite ou se considera um “influencer”, provavelmente tem uma empresa de maconha para você.

Aqui vão minhas observações sobre esse estranho mundo novo.

26 de setembro – Cannabis Society Dinner of Influence

No dia em que decido comparecer nos eventos de maconha, sou convidada para algo chamado Cannabis Society Dinner of Influence, realizado pela Cannabis Society.

O convite diz que o grupo está “construindo uma comunidade empolgante de empreendedores & entusiastas de cannabis localmente (Toronto) e internacionalmente”, e diz que não preciso pagar o ingresso de 99 dólares se usar meu primeiro nome como código promocional. Para conseguir o ingresso, tenho que preencher qual setor represento, então escolho “influencer das redes sociais” porque não tem uma categoria para jornalistas, mas aí tenho que dizer quando seguidores tenho na internet. É meio estranho, mas estou tentando manter a mente aberta.

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Dr. Jonas faz um discurso. Foto por James Hunter/The Entrepreneurship Society

O evento acontece no restaurante Figures em Yorkville, numa parte da cidade cara demais pra que eu possa frequentar. Chego ao evento, patrocinado pelo produtor licenciado WeedMD, e imediatamente começo a perguntar para as pessoas o que elas acham da nova política de Ontário sobre lojas de cannabis, que tinha entrado em vigor naquele dia.

O Dr. Jonas Vanderzwan, um médico alto e atraente que é o diretor médico da WeedMD, me diz que ficou surpreso em saber que o governo do Partido Progressista Conservador decidiu só permitir uma loja de cada produtor licenciado na província. Vanderzwan — que todo mundo parece chamar simplesmente de “Dr. Jonas”, como se ele fosse um médico da televisão — se senta do meu lado no jantar. Mas antes de comer, todo mundo tem que se apresentar e dizer o que espera tirar desta noite. É uma mistura interessante — pessoas que trabalham para produtores licenciados, um dono de headshop, um paciente que veio de Nova Jersey só pra comprar maconha medicinal legal, e várias pessoas que dizem ser influencers de redes sociais sem um pingo de ironia. Muitos dizem que estão aqui porque querem ver o estigma que cerca a cannabis acabar — o dono do headshop, Robin Ellins da Friendly Stranger, diz que deveríamos substituir o termo “usuário de cannabis” por “consumidor de cannabis”, porque “usuário” tem uma conotação negativa.

Quando chega minha vez, digo que sou uma repórter atrás de furos jornalísticos.

O Dr. Jonas faz um pequeno questionário e um discurso sobre os desafios que cercam a maconha medicinal, incluindo resistência da comunidade médica e as novas leis restritivas do governo federal contra dirigir sob influência, o que poderia criminalizar pacientes que se medicam todo dia.

O jantar é um bufê bem gostoso de frango frito e salmão como pratos principais, e uns donuts muito bons com recheio de banana de sobremesa. Tem também um open bar servindo palomas.

Depois do jantar, temos uma sessão educativa sobre comestíveis, incluindo dicas sobre microdosagem. Obedeço à exigência de uma entrevista filmada sobre o que tirei da noite, mas me recuso a posar com o merchandising do WeebMD por razões óbvias.

Tem um tempo para “fechar negócios” e aí eu, o organizador Billy Hennessey e o Dr. Jonas vamos para o Patria, um bar de tapas em King West, para uma after party da Elevate, uma conferência de tecnologia que acontece em Toronto esta semana. Depois de algumas apresentações, Billy coloca a gente pra dentro e conversamos com um dos amigos dele que parece ter encontrado Wyclef Jean mais cedo naquele dia. Viro minha tequila e vou embora pensando em quanto me sinto velha.

27 de setembro – Sessão de consciência plena no AltaVie Lounge

AltaVie é uma “marca de cannabis premium criada com consumidores focados em bem-estar em mente”. Descubro isso por um press release porque, novamente, o site deles não tem muitas informações.



E empresa pertence ao produtor licenciado MedReleaf e diz que vai oferecer uma variedade de cepas especiais para seus consumidores interessados em bem-estar quando a legalização chegar. A AltaVie me convidou para duas sessões no seu lounge pop-up em Queen West — “um banho sonoro relaxante liderado pelo curandeiro e artista performático The Only Alexandria” ou uma sessão de consciência plena com o coach de saúde Julian Brass.

Decido participar da sessão de consciência plena. Já tentei consciência plena e terapia de comportamento cognitivo no passado para lidar com dores, e odiei. Sou muito ruim em calar o meu cérebro e acho meditação terrivelmente chato. Mas vejo o valor disso, então estou interessada em tentar de novo.

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Aprendendo sobre as cepas da AltaVie'. Foto pela autora.

Chego no lounge, que está servindo uma variedade de chás além de vinho tinto e branco Jackson-Triggs; bebo alegremente duas taças de vinho branco, apesar de estar um pouco surpresa deles terem bebidas num evento de consciência plena. O lugar é bem iluminado, com paredes brancas, plantas, papel de parede com desenhos de plantas e aquelas prateleiras geométricas. Nas paredes eles têm informações básicas sobre cannabis, incluindo as diferenças entre THC e CBD, indica versus sativa.

No segundo andar, eles têm uma fileira de cadeira e umas poltronas estilo pod. Cada cadeira tem uma caixa com água. É aqui que a sessão de consciência plena com Brass está acontecendo.

Brass começa pedindo que a gente coloque as mãos em dois estranhos e diga “Parabéns, você é incrível por estar aqui”. Ele fala sobre fundar a Notable.ca, uma marca de estilo de vida online, e sobre a ansiedade que acompanhou seu sucesso num mundo das startups. O cara é incrivelmente positivo.

“Acredito que todos nós fomos colocados neste mundo para compartilhar luz e amor”, ele diz, apontando que podemos sair desta sessão com ferramentas para “melhorar nossas vidas”.

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Uma poltrona pod da sessão de consciência plena. Foto pela autora.

Ele nos guia por vários exercícios envolvendo respiração, concentração e em certo ponto pede que a gente olhe nos olhos de um parceiro. Ele nos diz que podemos usar a ansiedade como ferramenta, se apreendermos, mas parece implicar que quem não conseguir é fraco. Me parece uma teoria questionável e quero contrariá-la, mas também quero ir embora.

Estou ficando nervosa. Tenho uma festa de Halloween na Casa Loma logo depois e estou pensando que hora tenho que sair para chegar lá. Para me distrair, bebo três caixinhas de água grátis. Faço xixi e confiro minha maquiagem. Aí, antes da sessão acabar, peço licença. Desço para o primeiro andar e viro outra taça de vinho antes de ir embora. Acho que ainda não manjo muito de consciência plena.

29 de setembro – RIFF apresenta NOIR, uma festa Nuit Blanche

RIFF é uma marca de cannabis do produtor licenciado Aphria. Eles se descrevem como uma “marca de estilo de vida x cannabis cocriada pela Co.LAB, um coletivo de criadores e artistas que adoram um bom esforço conjunto”.

Fui convidada para a festa Nuit Blanche, um evento anual de Toronto onde instalações de arte são montadas por toda a cidade e as pessoas as exploram/curtem a noite inteira.

A festa acontece no clube Coterie em Ossington Avenue, um lugar com uma vibe industrial de garagem modificada. Como sempre, tem bebida grátis. Alguns artistas terminam grafites em larga escala retratando coisas como um crânio de primata nas paredes. Estou curtindo a vibe mas sendo honesta, eu já estava de pilequinho quando cheguei, depois de passar num bar temático do Harry Potter. Então acabo tendo uma longa conversa com alguns organizadores sobre a próxima tatuagem que eu deveria fazer. Depois de ouvir o conselho deles, tomo uma cerveja e vou embora.

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Uma das obras da festa Nuit Blanche da RIFF. Foto via RIFF.

É uma pena, porque realmente senti que essa é a marca mais na linha do meu gosto pessoal. Uma coisa legal mas não pretensiosa.

2 de outubro – Lançamento do vaporizador LITE da Vapium

Finalmente! Um lançamento onde você pode realmente ver e tocar o produto! O evento, realizado num espaço no extremo leste da cidade, é para um novo vaporizador de cerâmica da Vapium, uma empresa canadense que supostamente vende o “iPhone” dos vaporizadores em 20 países. Lite, um vaporizador portátil, é para brotos secos e custa $100.

Eles têm alguns outros produtos à mostra, incluindo um vaporizador médico – com versões para brotos e extratos – e um dab rig de $350 que parece ter saído direto do Vale do Silício.

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O novo vaporizador LITE da Vapium. Foto via Vapium.

Na parede da escada que leva ao segundo andar eles colocaram resenhas de produtos Vapium de lugares como a GQ, Maxim e The Cannabist. Vídeos promocionais apresentando os vaporizadores em cenários bonitos passam nas telas.

Os petiscos — rolinho primavera coreano, crostini e bolinhos de macarrão com queijo — são meus favoritos de todas as festas que fui até agora. Também tem vinho grátis, mas não bebi porque estou com pena do meu corpo. A cofundadora da Vapium, Lisa Harun, que comanda a empresa com o marido, é muito divertida — dá pra ver que ela é inteligente pacas, mas sem ser muito séria. Ela me avisa para não sair à francesa — o que eu estava mesmo considerando — porque cada convidado vai ganhar um Vapium Lite no final.

De barriga cheia, pego meu vape e vou embora. Até agora, não tenho reclamações dele.

11 de outubro – Lounge pop-up do FIRESIDE

Já dei os detalhes desse evento acima, mas quero dizer que não consigo mais parar de ouvir Sam Roberts.

16 de outubro – Festa na Leafly

É a véspera da legalização e estou cansada. Meu inbox está cheio de ideias de matéria, estou estressada com textos que preciso terminar e caixas de brindes de maconha estão empilhadas na minha mesa. Mas decido ir para um último evento, a festa da Leafly, que seria tinha uma festa de ano novo na Times Square, mas acontece no Mod Club de Toronto e em vez da decida do globo, eles vão ter uma escultura de um broto de maconha descendo do teto à meia-noite.

Chego quando a banda cover Dwayne Gretzky está tocando "Bobcaygeon" do Tragically Hip, o que é ainda mais canadense que a festa de fogueira do Sam Roberts. Estou chocada que alguma coisa consiga ser mais canadense que a festa da fogueira do Sam Roberts.

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O broto desceu à meia-noite. Jesse Milns/Leafly.

Chego um pouco antes da meia-noite e imediatamente vejo o broto gigante de maconha pendurado no teto. Ele é estranhamente bonito. Trívias sobre maconha passam nas telas ao meu redor.

“Mais dez minutos para ser criminoso, gente”, alguém da banda grita. Estou pensando que tecnicamente ainda não há maconha recreativa legal disponível em Ontário à meia-noite, então todo mundo que está fumando — fora usuários de maconha medicinal — ainda estão fumando ilegalmente. Mas ninguém quer ouvir nada disso.

O público é eclético. Estou numa plataforma do lado direito do palco e uma mulher mais velha está dançando despreocupadamente ao lado de um cara de macacão marrom. É fácil chegar na frente do palco porque as pessoas estão chapadas e a multidão não é nem remotamente agressiva. O broto desce enquanto a banda toca Wake Up do Arcade Fire e mesmo estando cansada, a energia de todo mundo aqui é contagiante. Posto uma história muito foda no Insta.

Vou prum canto do clube logar na Ontario Cannabis Store para encomendar algumas gramas de Indica e ver se o site está funcionando direito. Depois vou embora. Na calçada lá fora, cruzo com Jonathan Hirsh, um educador de cannabis. Ele trouxe seu bong de casa. “Merry Weedmas!”, ele diz para um amigo.

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Tinha até os cabelinhos. Jesse Milns/Leafly

Converso com ele um pouco depois pego um Uber pra casa, estou aliviada em encerrar minha jornada aparentemente interminável de festas da indústria da maconha. Até perceber que quando acordar ainda vai ser “C-Day”, e tenho mais quatro festas pra ir, incluindo uma festa da VICE.

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Matéria originalmente publicada pela VICE Canadá.

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