Jair Bolsonaro (PSL) e Rodrigo Duterte. Foto: esq. Tânia Rêgo/Agência Brasil, dir. Getty via VICE News.

Bolsonaro não é o Trump brasileiro. Ele é o Duterte

O candidato do PSL e o presidente filipino usam viés militarista de tolerância zero para apelar à questão da violência interna como inimigo principal.

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19 Outubro 2018, 10:00am

Jair Bolsonaro (PSL) e Rodrigo Duterte. Foto: esq. Tânia Rêgo/Agência Brasil, dir. Getty via VICE News.

No começo de 2016, meses antes de ser eleito presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte disse que perdoaria qualquer policial que matasse traficantes ou usuários de drogas durante o trabalho. A ideia, dizia ele, era dar segurança para que pudessem agir sem medo de punição pelo Estado. Argumento idêntico ao defendido por Jair Bolsonaro no Brasil.

Já virou quase um bordão dizer que Bolsonaro é o Trump Brasileiro, em referência ao presidente americano. Mas a verdade é que o candidato de extrema-direita e líder nas intenções de voto está bem mais para Duterte. Os inimigos de ambos são os mesmos, o discurso ofensivo e declarações absurdas também, a admiração pelas ditaduras em seus respectivos países idem e até o tempo de carreira política é parecido.

“Nenhuma figura presidential é exatamente igual a outra, não existem paralelos perfeitos, mas se você tiver que escolher um único líder mais similar ao Bolsonaro, esse seria o Duterte”, diz Steven Levitsky, professor da Universidade de Harvard e um dos autores do livro Como as Democracias Morrem. “E ele é um ótimo exemplo de alguém que fez exatamente o que disse que ia fazer.”

A promessa de Duterte fazia parte do cerne da campanha presidencial, um combate ao crime com tolerância zero e sem qualquer preocupação com o devido processo legal ou direitos humanos. Dito e feito: segundo a Human Rights Watch, de lá para cá 12 mil suspeitos foram executados no país do leste asiático (fontes oficiais contestam o dado e afirmam que o número correto é 4.500), quatro mil deles por forças policiais.

Uma pesquisa da Ateneo School of Government, universidade em Manila, capital do país, mostra que a maioria dos mortos são pobres e há entre eles motoristas, trabalhadores da construção civil, vendedores, agricultores, lixeiros e desempregados. Esse cenário, é claro, causa indignação internacional, mas Duterte faz pouco caso. Já ameaçou dar um tapa na cara de uma emissária da ONU e mandou outro para inferno.

Também falou que seu único pecado eram as execuções extrajudiciais. E foi além: “"Hitler massacrou 3 milhões de judeus. Agora há aqui 3 milhões de viciados em drogas. Eu gostaria de massacrá-los todos", afirmou Duterte, ainda em 2016.

“Bolsonaro e Duterte tem uma ênfase forte na lei e na ordem, querem manter o controle e não ligam se direitos humanos são violados. Falas como essa, ou quando Bolsonaro elogia Pinochet e diz que o problema é que ele não matou mais, você não ouvir o Trump ou a Marine Le Pen falar isso”, disse o cientista político Cristóbal Rovira Kaltwasser, em uma entrevista dias antes da líder da extrema-direita francesa Marine Le Pen criticar o discurso de Bolsonaro.

Cristóbal é professor da Universidade Diego Portales, no Chile, e coautor do livro Populismo: Uma Muito Breve Introdução. Do ponto de vista político, é o populismo de direita que liga Bolsonaro, Duterte, Trump, e outros nomes na Europa e Ásia. Na definição tradicional, o líder populista é um personagem fora do sistema, que representa a vontade de maioria das pessoas comuns contra o establishment.



Só que Bolsonaro, deputado federal por 29 anos, e Duterte, prefeito da cidade de Davao durante 21 anos, construíram carreira no próprio establishment. “Eles não eram outsiders, como Trump, mas pessoas com posições radicais dentro do sistema”, fala Cristóbal.

Além disso, enquanto no populismo de direita dos Estados Unidos e na Europa uma das questões a ser combatida é a ameaça (ou a ameaça percebida) é de imigrantes, no Brasil e Filipinas o problema é interno, nos altos índices de violência.

“O discurso da criminalidade cumpre no Brasil e nas Filipinas o papel que o discurso da imigração cumpre nos países desenvolvidos”, explica Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais da PUC e pesquisador visitante da Georgetown University, em Washington, onde estuda a ascensão de Trump nos Estados Unidos. “É um populismo penal, que oferece soluções simples para problemas complexos.”

Carlos lembra que Duterte também cresceu com uma comunicação baseada na distribuição de conteúdo por redes sociais, como foco no Facebook no lugar do WhatsApp. Além disso, até ficar claro que eram postulantes reais a cadeira de presidente, nenhum dos dois era levado muito a sério por atores políticos tradicionais. “O paralelo entre os dois é muito óbvio”, afirma.

Entre os países, por sua vez, nem tanto. Como aqui, em 2016 as Filipinas atravessavam graves crises de corrupção. Apesar de altas, as taxas de homicídio não se comparavam as do Brasil: eram cerca de 10 por 100 mil habitantes naquele ano, contra quase 30 por 100 mil habitantes por aqui atualmente.

Na verdade, o contexto da violência é diferente. A Filipinas são uma rota importante de transporte de drogas no sudeste asiático, além de lidar com pirataria marítima e grupos terroristas islâmicos. Para completar, mais de 80% da população é católica e o país tem uma relação ainda mais avessa a substâncias ilícitas (sem espaço para Maconheiros de Bem™ por lá).

Na economia, por outro lado, eles iam bem. “É preciso levar em consideração que é um país muito menor e com uma economia bem diferente da nossa, mas nos últimos anos eles tem tido um crescimento em torno de 6% ao ano”, explica Denilde Holzhacker, cientista política e professora de Relações Internacionais da ESPM.



Além das mortes extrajudiciais, Duterte também atacou grupos políticos adversários, prendeu uma senadora da oposição com acusações fracas sobre tráfico de drogas e tramou para a presidente da Suprema Corte local — crítica à política de combate às drogas — fosse destituída.

Eleito com 39% dos votos em uma disputa de turno único, Duterte chegou a ter 89% de aprovação. Mas o número vem caindo. “Uma das razões atribuídas é a inflação, que voltou a subir apesar de ainda estar em torno de 6% a 7% ao ano. Ele também deu declarações anti religião, com xingamentos a Deus”, diz Denilde. Para completar, o desemprego voltou a subir no país.

“O sentimento é de que a política dele não resolveu problemas estruturais do país. Apesar do aquecimento econômico, não reverteu o desemprego e ainda há uma pobreza bastante extrema”, afirma a professora.

Sobre as semelhanças com Bolsonaro, Denilde cita outra. Da mesma forma que o brasileiro é um saudosista da ditadura e tem na memória do torturador Brilhante Ustra seu livro de cabeceira, Duterte é um apologista de Ferdinando Marcos, que governou as Filipinas com mão de ferro entre de 65 a 86.

Ainda assim, ela acredita que Bolsonaro teria dificuldades em exercer uma política tão violenta aqui quanto lá. “São processo políticos diferentes. Bolsonaro não vai ter a maioria no Congresso como Duterte tem e a justiça brasileira é complexa e tem mais capacidade de atuação. Eu não acredito que consiga fazer uma política de combate às drogas no mesmo nível de violência e uso de força, sem garantias constitucionais, como Duterte fez”, afirma.

Este é o melhor cenário. Mas, com o assassinato do mestre de capoeira Moa do Katendê e os inúmeros casos de agressões e ameaças contra mulheres, gays e qualquer um que parece adversário de Bolsonaro nas últimas semanas, é difícil se manter otimista.

“Este é um presidente em potencial que abraça abertamente violações sistemáticas de direitos humanos e direitos civis básicos que os brasileiros gastaram uma geração lutando para conseguir e outra para para consolidar”, afirma Steven Levitsky. “E, assim como Duterte, Bolsonaro promete apagá-los.”

Como bem disse Elio Gaspari em uma coluna na Folha de São Paulo sobre o tema: “Se 'execuções extrajudiciais' fossem remédio, o Brasil seria uma Dinamarca.”

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