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Na Festa de Iemanjá, botar o bloco na rua virou problema

O crescimento da tradicional celebração obrigou poder público e moradores a discutirem o que é rua e o que não é no bairro de Rio Vermelho, em Salvador.

por Felipe Maia
01 Fevereiro 2019, 9:00am

Festa de Iemanjá em 2018. Foto: Caroline Lima/VICE

Comemorada no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, a Festa de Iemanjá é tema de um debate envolvendo poder público, moradores e produtores culturais baianos. O motivo da discussão da edição de 2019 é o uso de aparelhos de som e do espaço público durante os festejos, previstos para o dia 2 de fevereiro.

Durante este dia, devotos de Iemanjá ofertam presentes à orixá. As oferendas são levadas por pescadores locais a alto mar e, em terra, diversas manifestações culturais tem lugar: rodas de capoeira, apresentações musicais, preces, etc.

A tradição de quase um século passou a atrair cada vez mais pessoas nos últimos anos, chamando a atenção do poder público. No início de janeiro, a prefeitura de Salvador se reuniu com polícia, bombeiros, Associação dos Moradores e Amigos do Rio Vermelho (AMARV) e a Federação Baiana de Hospedagem e Alimentação (Febha) para discutir medidas de segurança para a festa deste ano.

Entre as decisões do encontro, ficou acertado que os estabelecimentos comerciais da região não poderão usar aparelhos de som em áreas externas ou voltados para a rua. A determinação causou controvérsia: nas redes sociais surgiram postagens receosas com uma interdição de festas movidas a sistemas elétricos, como paredões, conjuntos de alto-falantes ou shows.

À VICE, porém, a prefeitura de Salvador informou que nunca houve proibição desse tipo. "A prefeitura nunca falou nada de tirar som da festa", afirma Alexandre Reis, diretor de comunicação da gestão do prefeito ACM Neto (DEM).

Uma vez que o som não se propaga em linha reta e dada a gratuidade de alguns eventos da festa, o limiar entre ocupação e desocupação do espaço público parece pouco evidente na determinação da prefeitura. Questionado sobre isso, Reis afirmou: "O som tem de ser voltado para o estabelecimento, como sempre foi, e não é permitido colocar cadeira na rua."

Ricardo Dantas comemorou nesta segunda a liberação da prefeitura para o Festival Oferendas, do qual é idealizador e organizador. O evento, um dos maiores da Festa de Iemanjá, consiste em uma série de shows e apresentações que tem como sede o centro cultural Lálá Multiespaço. Defronte uma grande janela e dentro do edifício, artistas sobem ao palco para se apresentar à plateia que se aglomera na rua — uma situação híbrida que botou em risco a realização do festival neste ano.

"A gente monta um palco no lado de dentro e abrimos um janelão virado pra rua, então é uma festa de rua", diz Dantas. "O Lálá nunca pensou em tirar a festa da rua. Isso [a determinação da prefeitura] criou uma crise pra gente."

Para Dantas, a realização do evento é fruto do diálogo estabelecido entre prefeitura e organizadores tão logo a controvérsia se formou. "Eu recebi essa informação e depois fui atrás do diálogo", diz ele. "Quando a prefeitura se colocou em não por a festa na rua, o Lálá se posicionou em não desobedecer, mas em estabelecer um diálogo."

Associação de moradores

Presidente da Associação Moradores e Amigos do Rio Vermelho (AMARV), Lauro Matta se opõe à realização de eventos de grande porte no bairro tradicional da Festa de Iemanjá. "As festas daqui de Salvador acabaram todas por causa desse negócio", diz ele. "E elas estão acabando porque os bairros velhos não suportam esse tipo de coisa que estão fazendo, essas aberturas."

Para Matta, sistemas de som ou tudo que não seja bandinhas de chão, em suas palavras, são prejudiciais a bairros antigos como o Rio Vermelho. "Cria-se tumulto na rua, e o Rio Vermelho não suporta", afirma. "Do jeito que vai, botando som na rua, vandaliza, porque não há passagem nem de corpo de bombeiro."

O morador afirma que a decisão que restringe o direcionamento de alto falantes e o uso do espaço público já vale há dois anos. Neste ano, contudo, a prefeitura reviu as medidas para realização de festas após uma das reuniões que fez com comerciantes locais. "A prefeitura faz isso para agradar dois comerciantes num horizonte de 105", afirma Matta.

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