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Conheça três artistas brasileiros queer reivindicando suas raízes africanas

Castiel Vitorino Brasileiro, Davi de Jesus e Vitória Cribb nos contaram como estão reivindicando a negritude através da arte.

por Igi Ayedun; Traduzido por Marina Schnoor
19 Dezembro 2018, 9:00am

Imagens cortesia de Davi de Jesus e Castiel Vitorino Brasileiro.

“Todo mundo quer ser negro.” Você ouve a frase com frequência na boca de jovens artistas brasileiros. É uma afirmação de legitimidade num país onde 45% da população é negra ou parda, mas também uma afirmação contra a apropriação da cultura da diáspora africana. Graças à internet, estamos testemunhando o nascimento de um movimento panafricano de arte, política e cultura, que nos ajuda a repensar nossas estéticas e abraçar nossas raízes.

O afrofuturismo digital da Geração Z tem um papel importante em reverter o whitewashing no Brasil, e incentiva o renascimento de uma cena de arte genuinamente brasileira influenciada pela história negra. As cidades cosmopolitas, São Paulo e Rio de Janeiro, são as que mais chamam a atenção globalmente. Mas é em cidades pequenas que descobrimos os trabalhos mais vanguardistas, muitos deles produzidos por jovens queer. Esse corpo de trabalho se conecta com a vida espiritual natural e ancestral, e herdou a sabedoria para refletir o agora e prever o futuro: um futuro sem medo.

Falamos com três jovens nascidos e que moram fora das grandes cidades do país e produzem arte contemporânea brasileira.

Castiel Vitorino Brasileiro
"A história tem me exigido crueldade."

Castiel Vitorino Brasileiro, 22 anos, artista, pesquisador e estudante de psicologia. Vitória, Espírito Santo.

Descreva seu trabalho.

Investigo como a violência criada durante a escravidão construiu uma nação genocida. Estudo os processos de colonização de países africanos e seus desdobramentos em território brasileiro, fazendo do meu corpo o foco principal desse trabalho através de performance e fotografia.

Como é seu processo criativo?

No meu projeto “Corpo-flor” apresento uma anatomia que permite que plantas nasçam através do meu corpo. Plantas medicinais, usadas para a cura, e também plantas venenosas, usadas para crueldade. Plantas de benção, magia e bruxaria.

Você está longe do eixo cosmopolita da arte contemporânea. Como isso se manifesta no seu trabalho?

Moro num estado ignorado pelas políticas nacionais que encorajam as artes. Aqui há poucas galerias comerciais. Há poucas oportunidades. Já ouvi de professores de arte: “Em Vitória não temos artistas”. Eles dizem pra mim: “Quem esses gays acham que são? Eles nunca vão sair de Vitória”. No último ano, preferi criar obras de instalação e percebi que esse desejo é uma resposta à minha intenção de viver num lugar seguro para mim.

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"Benzimento."

O Instagram é sua principal forma de exposição. Quais são as vantagens e desvantagens da arte na internet?

A vantagem da internet é que posso expandir minha rede de amigos, a desvantagem é que ela intensifica minha vulnerabilidade. Quanto mais pessoas ficam sabendo sobre a minha existência e meu trabalho, mais vulnerável me torno.

Há temas espirituais e místicos muito fortes no seu trabalho. De onde você acha que eles vêm?

Sou um bruxo, sou um encantador, já fiz capoeira, faço parte de uma banda de congo, sou membro da comunidade da escola de samba mais antiga de Vitória. “Corpo-flor” sou eu e todas as pessoas que desaprenderam os jeitos institucionalizados de usar nossos membros, órgãos e cavidades.

Como você vê a arte contemporânea brasileira?

Não há novidades na arte contemporânea no Brasil, só continuidade, melhoras, upgrades dos sistemas hierárquicos e práticas de emancipação. Então entendo a arte contemporânea como um sintoma de uma sociedade doente.

@gartthion

Davi de Jesus
Polaroide por Davi de Jesus.

Davi de Jesus, 21 anos, artista plástico e performer. Pirapora, Minas Gerais.

Por favor, descreva seu trabalho.

Concebido nos barrancos do Rio São Francisco, trabalho documentando minha ancestralidade ribeirinha e os “quase rios” na paisagem árida. Um dos meus maiores interesses é pintar a terra, a mãe inicial. Na fotografia uso o corpo como um instrumento para medir o mundo. Uma natureza aquática, enlameada e silenciosa que poder ser lida como isca, peixe ou pedra.

Descreva seu processo criativo.

Trabalho com vários meios: fotografia, pintura, desenho, escultura, performance e texto. Depois da morte da minha mãe, herdei as fotos analógicas da minha família, e trabalhei na curadoria desses registros que documentam nossa vida diária ribeirinha.

Quais são suas principais memórias de infância e como você acha que elas afetam seu trabalho?

Venho de uma família de lavadeiras, pescadores, carpinteiros e mestres carranqueiros. Cresci me banhando nas águas revoltas de um rio místico. “Barranqueiro” é o nome dado para a população ribeirinha do São Francisco. Sou um “barranqueiro” e tudo que crio é parte da experiência em quintais, campos e pesqueiros. Uma vez o rio subiu e inundou a casa da minha família. Vi uma sucuri quebrar o braço do meu vizinho na minha frente.

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Romaria fluvial, 2001.

O Instagram é a principal ferramenta de exposição do seu trabalho. Na sua opinião, quais são as vantagens e desvantagens da arte na internet?

A vantagem é que é fácil chamar atenção para o meu trabalho. Gosto de poder ser efêmero também. O desconforto é ter que postar o que produzi rapidamente antes da obra amadurecer.

Aspectos espirituais e místicos são muito fortes no seu trabalho. De onde você acha que essa manifestação vem?

Uma grande parte dessa manifestação no meu trabalho vem das carrancas – figuras de proa que adornam os barcos do São Francisco, com o propósito de abrir caminho, proteger e atrair peixes. Elas avisam quando o barco está sob risco de afundar, gemendo alto três vezes.

Como você vê o futuro?

Gosto de dizer que antes tínhamos as carrancas conosco, agora seremos nossas próprias carrancas.

@nasceumdavi

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serpenteie-se, 2008.

Vitória Cribb, 22 anos, artista e designer industrial. Brasil/Haiti.

Como você descreve seu trabalho?

Meu trabalho como artista toca no universo imaginativo, sensorial e interativo. Meu principal meio é o digital, mais especificamente modelos e cenografia em 3D, onde crio universos distópicos e paralelos. Estou constantemente observando o que acontece no mundo real, nas situações do cotidiano onde as pessoas negras são tratadas como seres insensíveis e invisíveis.

Como você descreve seu processo criativo?

Meu processo criativo é sempre parte de algumas angústias pessoais, inseguranças, questionamentos e insatisfações com essa bolha de apartheid na minha cabeça. Tento sempre discutir isso com as mulheres e homens negros ao meu redor, para entender como isso os afeta e começar a focar em pontos em comum. Por exemplo, quando me pergunto sobre a visão projetada em mim de ser uma mulher forte, começo a explorar como quebrar esse esteriótipo.

Quais são suas principais memórias de infância e como você acha que elas afetam seu trabalho?

Lembro como meu ambiente familiar e a vizinhança me fizeram bem. Lembro das canções haitianas que meu pai colocava para tocar e dançava com minha mãe e irmã. Era um ambiente onde eu me sentia protegida e feliz, onde eu sempre podia me expressar livremente.

Mas tem outro lado da história: a escola, onde me senti reprimida da infância até a adolescência. Era uma escola particular, onde estudantes brancos reproduziam o racismo que viam em casa. A filosofia europeia me engoliu e eu me via como anormal. Isso, claro, afetou toda minha relação com a liberdade. Era um ambiente cruel, e penso muito nisso até hoje.

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Armadura, 2018

Você está longe do eixo cosmopolita da arte contemporânea. Como isso se manifesta no seu trabalho?

Exploro minhas dores, as dores diárias dos negros. Por exemplo, o tratamento violento da polícia para homens negros, relacionamentos abusivos e racistas que afetam mulheres negras, amizades tóxicas e a universidade, que não considera as visões de mundo não-brancas como válidas.

Como o mundo digital influencia seu trabalho?

Sabendo que posso criar universos e inventar narrativas em outro mundo me fascina. O que mais gosto é saber que essas histórias e cenários podem ser incorporados ao mundo real através de novas tecnologias como realidade virtual e aumentada.

Há temas espirituais e místicos muito fortes no seu trabalho. De onde você acha que vem essa manifestação?

Apesar de ter sido uma criança e adolescente viciada em computador, cresci numa família que tinha uma conexão forte com a natureza. Meu pai é agrônomo e minha mãe é zoologista, então a conexão com a terra e os animais sempre esteve presente na minha família.

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serpenteie-se, 2008

Como seu entendimento de arte como ferramenta política influencia seu trabalho?

Primeiro precisamos falar sobre mulheres e meninas negras na tecnologia. A sociedade ainda não nos aceita e somos sempre desacreditadas. Precisamos pensar em como a tecnologia e a nova mídia refletem a experiência negra. A nova mídia vai ter mais influência na cultura no futuro, então essa é uma questão urgente.

Como você vê o futuro?

Como uma panela transbordando. A era digital permitiu que pessoas que não têm acesso a grandes centros de cultura e arte se exponham a novas pesquisas de imagem. Com plataformas e distribuidores da nova mídia, acredito que uma revolução cultural e econômica vai acontecer dentro dos campos da arte e mídia. Espero poder ver isso.

@louquai

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