Fotos de mulheres radicais na NY dos anos 70 e 80

Marcia Resnick capturou o espírito selvagem e feminista de ícones como Joan Jett e Debbie Harry num tempo em que o olhar masculino pairava sobre a arte.

por Miss Rosen; Traduzido por Marina Schnoor
11 Abril 2018, 3:09pm

Esquerda: Anya Phillips no Max's Kansas City. Direita: Damita Richter posando com uma arma de brinquedo. © Marcia Resnick.

A fotógrafa nascida no Brooklyn Marcia Resnick vem documentando as comunidades artísticas de Nova York há mais de meio século. Quando estava no colegial nos anos 1960, ela se misturava com hippies envelhecidos em clubes de Greenwich Village como o Café Au Go Go e Café Wha? e, nos anos 70, morou num prédio de Tribeca com vizinhos como Laurie Anderson.

Nessa década, que certamente foi a mais selvagem da cidade, Resnick passava a maioria das noites em lugares como CBGB, Max's Kansas City e Mudd Club. Ela também começou a fotografar os “bad boys” da cena de artes, pois queria ver como homens poderosos como Jean-Michel Basquiat, Iggy Pop e William S. Burroughs reagiam quando a mesa virava e uma mulher estava atrás da câmera, os sujeitando ao olhar feminino.

A fotógrafa também se encantou com as mulheres com quem ela morava, trabalhava e dava rolê, e que também estavam sacudindo a cena. Apesar de menos conhecida que sua série Bad Boys – que mais tarde foi publicada no livro Punks, Poets e Provocateurs, NYC Bad Boys 1977-1982 (Insight Editions, 2015) –, a série Wild Women de Resnick captura o espírito revolucionário e o poder criativo de artistas como Joan Jett, Debbie Harry e Susan Sontag.

Wild Women é um corpo de trabalho raramente visto que encarna o etos faça-você-mesmo da era, e a VICE se encontrou recentemente com Resnick para falar sobre como foi documentar suas colegas e como o feminismo sacudiu os anos 70 e 80.

Esquerda: Debbie Harry num quarto de hotel. Direita: Debbie Harry brincando com vegetais depois de um show. © Marcia Resnick

VICE: Como você se interessou por arte e fotografia?
Marcia Resnick: Sempre adorei arte. Quando eu tinha cinco anos, meu pai colocava meus desenhos na vitrine de sua loja de impressão em Brighton Beach. Um cliente gostou e colocou meus desenhos numa exposição do Brooklyn Children's Museum. Foi minha primeira exposição de arte.

Fiz dois anos na NYU, depois me transferi para Cooper Union, onde fui cativada pela fotografia. Frequentei o Instituto de Artes da Califórnia, onde estudei “Arte Pós-Estúdio” com John Baldessari, tive Robert Heinecken como mentor na UCLA, e Ben Lifson, um “fotógrafo mesmo”, foi meu supervisor de graduação.

Recebi meu mestrado de Fotografia na CalArts em 1973, durante as primeiras ondas do movimento feminista. As faculdades estavam tentando contratar mais mulheres para equilibrar suas equipes. Quando o Queens College me ofereceu um trabalho, aceitei. Cruzei o país de carro, tirando fotos pelo caminho. Quando cheguei, eu tinha decorado meu carro com o nome de todos os meus namorados no capô. As palavras “Marcia the Masher” estavam escritas na lateral do carro.

Lydia Lunch de quatro. © Marcia Resnick

Como era Nova York quando você voltou?
Nova York era uma cidade perigosa e à beira da falência – mas barata e cheia de possibilidades. Achei um lugar perto de Bowery e Houston Street e me mudei pra lá com minha colega de quarto do Cooper Union, Pooh Kaye, uma artista e dançarina. A gente pagava $70 de aluguel cada uma. Meu salário era $100 por semana para dar duas aulas de quatro horas de fotografia um dia por semana.

O Soho, que ficava pertinho, era o centro do mundo das artes. Pooh e eu frequentávamos vernissagens, bares artísticos e festas em lofts de artistas. Mickey Ruskin era dono do Max's Kansas City, frequentado por Warhol e seus astros, artistas “blue-chip” e celebridades do rock. Pooh limpava a casa do Mickey, então a gente tinha entrada liberada.

Esquerda: Joan Jett numa sinuca. Direita: Laurie Anderson com seu violino. © Marcia Resnick

Como você acabou morando num prédio cheio de artistas?
Achei um prédio em Canal Street entre as ruas Washington e West, numa vizinhança conhecida como Tribeca. Cada andar era divido em lofts de 185 metros quadrados. Os dois primeiros andares eram um centro de metadona público. Os lofts nos outros quatro andares estavam dilapidados.

A Pooh morava no outro loft do meu andar, e construímos um banheiro e uma cozinha para nós duas. Meu loft tinha 14 janelas. Construí uma enorme sala escura, que fechava três janelas. Durante o inverno, eu dormia num saco de dormir na sala escura porque o resto do loft ficava congelante. Não tinha como aquecer um espaço daquele com ventos gelados vindo do rio.

Depois que vi Laurie Anderson fazer uma performance sobre como o loft dela foi consumido por um incêndio, convidei ela para mudar para o prédio e ela virou minha vizinha do andar de cima. De vez em quando, algum paciente de metadona muito drogado entrava sem querer nos nossos lofts, mas logo o centro mudou para outro lugar.

Como era a vida noturna na época?
Pintores estavam fazendo filmes. Escritores estavam fazendo arte performática. Escultores estavam fazendo instalação. Os artistas estavam colaborando entre si.

Toda noite eu saía para ouvir música no CBGB, no Max's e no Mudd Club, que era meu favorito. Era um bar artístico com bandas tocando até tarde da noite, exposições de arte, peças, desfiles da Betsey Johnson e performances como Rock n' Roll Funeral Ball, que tinha manequins com agulhas enfiadas nos braços. Celebridades como Joe Strummer, David Bowie, Marianne Faithful, Nico, Grace Jones e Diana Ross estavam sempre no meio do público.

Para lidar com a culpa que eu sentia por passar tanto tempo em clubes, me convenci que minhas expedições fotográficas noturnas eram minha arte. Passar pela multidão para chegar nos bastidores dos shows se tornou uma atividade necessária. Nos bastidores eu tentava simular o visual de um retrato de estúdio. Sempre que possível, eu combinava um encontro em outra hora e lugar.

Patti Astor numa festa. © Marcia Resnick

Quais alguns dos projetos em que você trabalhou nos anos 70?
Em 1975, com ajuda de bolsas do governo, eu autopubliquei três livros de arte conceitual: Landscape, See e Tahitian Eve. Em 1978, publiquei Re-visions (The Coach House Press), um livro autobiográfico com fotos cômicas encenadas.

Depois da introspecção de Re-visions, dei uma reviravolta no meu trabalho conceitual. Eu queria explorar um mundo fora do meu e passei para outro tópico, que me confundia... a espécie masculina. Minha série Bad Boys nasceu de uma fascinação com a dinâmica de mulheres fotografando homens.

Pat Place com um dragão de brinquedo. © Marcia Resnick

O que te inspirou para criar Wild Women?
Enquanto trabalhava na série Bad Boys, eu não conseguia deixar de trabalhar num projeto paralelo chamado Wild Women. A maioria das bandas punk eram formadas por homens, mas certas mulheres fascinantes embarcaram em seus próprios projetos de arte, música, literatura e cinema.

Patti Smith e Debbie Harry do Blondie eventualmente se tornaram bastante comerciais. Laurie Anderson ficou no número dois das paradas de sucesso do Reino Unido com seu single eletrônico de vanguarda “O Superman”, para grande surpresa dela. Até aquele momento, a arte performática multimídia dela era conhecida exclusivamente no mundo das artes de Nova York.

Lisa Lyon numa pose de fisiculturista. © Marcia Resnick

Lisa Lyons foi uma pioneira que venceu o primeiro Campeonato Profissional de Fisiculturismo Feminino. Ela vivia o estilo de vida sexo, drogas e rock n' roll. Depois de conhecê-la, logo nos tornamos amigas. A gente usava só preto, curtindo a vida noturna da baixa Manhattan, e fomos apelidadas de “As Irmãs Estranhas” pelo fotógrafo Marcus Leatherdale.

Quais foram algumas das coisas mais radicais que você e as mulheres dessa era fizeram na época?
Enquanto as mulheres se conscientizavam de que o ponto de vista masculino, branco e ocidental inconscientemente era aceito como o ponto de vista do mundo das artes, elas entenderam que cabia a elas mudar essa situação e criar um campo de jogo justo.

Carly Simon no Hurrah. © Marcia Resnick

Quando eu estava na CalArts, Linda Benglis, que foi a artista convidada por um semestre, fez amizade comigo. A arte e o estilo dela foram uma influência tremenda. A fotografei com seu novo corte de cabelo curto penteado para trás na frente de seu Porshe amarelo. Depois que ela voltou para Nova York, quando recusaram espaço editorial para ela no Artforum, Benglis pagou por uma propaganda de página inteira, só uma foto dela nua, de óculos escuros, se masturbando com um consolo duplo enorme. Foi o “Foda-se” definitivo para o mundo das artes.

Bebe Buell e sua filha de três anos Liv Tyler. © Marcia Resnick

Trabalhar no meu livro Re-visions, que vai ser republicado em 2019 (pela Patrick Frey Editions, Suíça), foi um exercício para aprender sobre mim mesma e sobre todas as mulheres. Isso me preparou para ser sensível para mulheres independentes, conscientes e criativas trabalhando num mundo “de homens”. Toda mulher que me senti compelida a fotografar me ensinou algo sobre sua experiência. Cada uma das mulheres artistas, escritoras, musicistas, dançarinas, designers e pioneiras sexuais que fotografei tinham um talento e uma visão que as tornavam um tipo único.

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