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Bots turbinados são ameaça para eleições brasileiras em 2018

Contas russas, redes ativas na Argentina e fazenda de perfis com conteúdo manipulatório são alguns dos fatores que podem interferir na próxima campanha digital para presidência, indica estudo da FGV.

por Diogo Antonio Rodriguez
29 Março 2018, 4:21pm

Crédito: Jelleke Vanooteghem/ Unsplash

Nesta semana, uma pesquisa da Diretoria de Análise de Políticas Públicas (DAPP) da Fundação Getúlio Vargas identificou o uso de 1.208 bots no Twitter durante a campanha presidencial brasileira de 2014. Talvez você já desconfiasse, mas o documento confirmou que os três principais candidatos usaram e abusaram da tática: Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (à época no PSB) chegaram a ter 20% das interações na rede motivadas por robôs.

Ainda que os números sejam altos, o relatório surpreende mais pelo que diz sobre nosso futuro eleitoral: de acordo com os autores do estudo, os resultados confirmam que há risco de maior interferência dos perfis automatizados e conteúdo manipulatório durante as eleições de 2018.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores cruzaram os dados de 2014 com os que estão levantando pelo Twitter nos últimos meses. Em 2017, durante a greve geral de abril, o DAPP verificou que 20% das interações no Twitter foram responsabilidade de contas automatizadas. Com o acúmulo de dados, já conseguem identificar cinco campos pelos quais os bots se distribuem. Na Zona Vermelha, apoio a Lula (PT); na Cinza, contas argentinas que apoiam o petista; a Verde é de partidários de Jair Bolsonaro (PSL); a Rosa se divide entre Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede), e a Azul mistura contas a favor de Michel Temer (MDB), dos tucanos João Doria e Geraldo Alckmin, e de Gilmar Mendes, ministro do STF. A subdivisão foi desenhada a partir 730 mil tuítes, coletados entre novembro e dezembro de 2017.

Crédito: DAPP/ FGV

Segundo Amaro Grassi, pesquisador do DAPP, o relatório serve como alerta. “As formas de uso já são bastante consolidadas, são mais complexas do que as de 2014”, diz. “Não tem como subestimar o quanto que isso vai ser frequente e presente, sobretudo depois que as máquinas de campanha estiverem à toda."

A fala de Grassi vai de encontro com outra pesquisa publicada em 2017 por Daniel Arnaudo, da Universidade de Washington, nos EUA, e do Instituto Igarapé, no Rio, que mostrou que o uso de bots foi fundamental no processo eleitoral e no impeachment e que, daqui pra frente, estará mais inteligente na manipulação de dados.

É quase consenso então que as famigeradas falsas notícias espalhadas a rodo pelos bots serão anabolizadas. Para os pesquisadores, deve ser questão de tempo até que a tática dos robôs encontre a da proliferação de notícias falsas. "Por enquanto, essa correlação ainda não se comprovou", afirma Amaro Grassi. "Mas a gente acha que em algum momento isso vai acontecer. O alcance que as fake news podem ter por meio de robôs é muito grande", afirma.

Um dado alarmante do relatório é que existem fortes indícios de que robôs estejam sendo operados de fora do Brasil. Na campanha de Aécio Neves, foram encontradas contas situadas "sobretudo na Rússia". Por meio da análise de "imagens, textos e locações" dos bots tucanos, o estudo foi capaz de fazer a relação entre a campanha de Neves e o país de Vladimir Putin. Em um dos casos analisados (outros são enumerados), a foto de perfil do robô tem ao fundo a Praça Vermelha, em Moscou.

Não é o suficiente para fazer comparações com as suspeitas de interferência russa como as que estão sendo investigadas nos Estados Unidos durante a eleição de Donald Trump. Mas, segundo Grossi, trata-se de algo possível por aqui. "A gente não tem por hábito achar que o Brasil está sujeito a esse tipo de coisa, mas é um risco real, pela importância, pelo tamanho do Brasil, da economia brasileira, sobretudo se você imaginar as agendas que serão colocadas [nas eleições], de agendas econômicas distintas", considera.

"As formas de uso já são bastante consolidadas, são mais complexas do que as de 2014"

Para evitar que os cidadãos sejam manipulados via redes sociais, o relatório faz uma série de recomendações às autoridades. Segundo o DAPP, é preciso transparência radical no uso dos recursos, bem como criar canais de denúncias para a identificação de perfis falsos e notícias falsas. Também seria necessária a capacitação do poder público para desabilitá-los e o estabelecimento de colaborações com a sociedade civil para a construção de instrumentos que ajudem nessa missão.

Para Grossi, é possível fazer iniciativas conjuntas que não impliquem em nenhum tipo de censura. "E, também, algum tipo de pressão nos próprios provedores para que eles sejam mais transparentes, se abram mais e colaborem mais, principalmente à luz do que aconteceu agora no caso do Facebook [o uso de informações de 50 milhões de usuários pela empresa Cambridge Analytica]. Que os provedores entendam a responsabilidade que eles têm e se disponham a colaborar mais para identificar esse tipo de prática."

Se você tinha alguma dúvida, aqui vai a letra: os riscos de manipulação da opinião pública são reais. "O uso de robôs para disseminar fake news pode interferir no processo democrático", afirma o relatório do DAPP. Parece enredo de série ruim da Netflix, mas é real: as autoridades e a sociedade brasileiras precisam estar atentas ou corremos o risco de virar reféns políticos das máquinas.

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