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A luta para matar o 8chan – e destruir a conspiração QAnon

Fredrick Brennan, fundador do site cheio de ódio 8chan, agora quer derrubar o fórum de mensagens para impedir que a conspiração pró-Trump QAnon se alastre.
23 Outubro 2019, 10:00am

No último mês, uma batalha vem fervendo nos cantos mais sombrios da internet. É uma luta entre os donos do fórum de mensagens cheio de ódio 8chan, que estão tentando reviver o polêmico site, e o fundador do site, que está fazendo tudo em seu poder para manter o fórum – e a QAnon – offline.

Quando o 8chan perdeu sua plataforma em agosto, na esteira do atentado em El Paso, a empresa dona do site, a NT Technology, prometeu trazê-lo de volta. Semana passada eles revelaram o 8kun como sucessor do 8chan, e estão tentando fazer seus antigos usuários voltarem ao barco.

Nos últimos dias, o 8kun.net reapareceu brevemente online antes de desaparecer de novo, graças principalmente ao trabalho do fundador do 8chan Fredrick Brennan, que está pressionando empresas de hospedagem para retirar seu suporte ao site.

Brennan foi claro sobre por que não quer que o 8chan e o 8kun voltem para a internet: QAnon.

“Uma das razões para querer fazer isso, preventivamente, é para a QAnon não conseguir voltar”, Brennan disse a VICE News de sua casa nas Filipinas. “É crítico que o 8kun não volte mais, em qualquer forma, por qualquer período de tempo.”

O misterioso líder da teoria da conspiração, “Q”, disse aos seus seguidores que sua comunicação nunca aconteceria fora do 8chan, e que o 8chan era a plataforma escolhida pelo exército para vazar informações.

Então, quando o 8chan saiu do ar em agosto, a comunidade QAnon ficou à deriva. Brennan teme que se o 8chan for ressuscitado como 8kun, isso permitirá que as insidiosas teorias da conspiração QAnon, que são abraçadas pelos simpatizantes da direita MAGA de Donald Trump, se espalhem online, possivelmente para outras plataformas de “liberdade de expressão” como o Gab e Voat.

Os seguidores da QAnon aparecem com frequência nos comícios de Trump, e o FBI já alertou que o movimento pode inspirar terrorismo doméstico.

“Não quero que Q consiga passar mais de suas mensagens. Acho que essa coisa toda é horrível e precisa parar”, disse Brennan.

O 8chan foi derrubado em agosto porque, depois do tiroteio num Walmart em El Paso, empresas de infraestrutura da internet como a Cloudflare se recusaram a hospedar o site.

O suspeito de conduzir o massacre no Walmart de El Paso, em 3 de agosto, postou uma mensagem de 4 páginas no 8chan tentando explicar suas ações. Em março, o homem que supostamente matou dezenas de pessoas em duas mesquitas na Nova Zelândia postou um longo texto no site logo antes do ataque. Semanas depois, o suspeito de um atentado com arma de fogo numa sinagoga em Poway, Califórnia, fez o mesmo.

A NT Technology e o 8chan são propriedades de Jim Watkins e comandados por seu filho, Ron Watkins. Desde agosto, eles estão trabalhando para colocar o 8chan no ar de novo, dizendo ao Congresso americano em setembro que o site só reapareceria quando eles conseguissem “desenvolver ferramentas adicionais para combater conteúdo ilegal sob as leis dos EUA”.

O novo nome do site parece ser uma tentativa de Watkins de mostrar que vai cumprir a promessa.

Em japonês, o sufixo “chan” geralmente se refere a uma criança, enquanto “kun” tipicamente é usado para um homem jovem. Mas Brennan descreveu o 8kun como “apenas uma mudança cosmética”, dizendo que a decisão de Watson de pedir que antigos donos de fóruns do 8chan voltem mostra que nada mudou.

Se você já foi um dono de fórum no 8chan, envie um e-mail pra nós em admin@8kun.net com sua senha compartilhada se estiver interessado migrar para o 8kun.

Numa série de vídeos postados no YouTube, Jim Watkins disse que queria que o site voltasse ao ar na quinta, 17 de outubro, mas que o esforço fracassou quando o fornecedor do Reino Unido que ele estava usando, o Zare, desistiu de prestar suporte.

“Não estamos dispostos a fornecer serviços para o 8chan ou 8kun”, disse Harry Beasant, porta-voz da Zare, a VICE News. “Não tivemos nenhum contato com ninguém chamado Jim Watkins. Só posso supor que os detalhes usados para assinar nosso serviço eram falsos, por isso não tínhamos consciência de que eles estavam na nossa rede até sermos informados.”

Na sexta-feira passada, a NT Technology revelou uma nova estratégia para tentar colocar o 8kun no ar e o manter online. Nas primeiras horas do dia, o 8kun.net voltou online brevemente, e análise de seu tráfego mostrou que ele estava sendo roteado através de serviços de computação em nuvem do Tencent e Alibaba, duas das maiores companhias de tecnologia da China.

Ron Watkins disse a VICE News que a empresa canadense VanmaTech agora fornece hospedagem para o 8kun, e que ele não toma decisões sobre para onde o tráfego do site é roteado. “Não dou opinião sobre como eles configuram seu roteamento, mas parece ser bem mais robusto agora que alguns dias atrás.” A VanmaTech não respondeu nossos pedidos de comentário.

A ironia dos operadores de um site de liberdade de expressão usarem servidores baseados em um dos espaços online mais censurados do mundo não se perdeu para Brennan.

“Todos os posts, todas as informações de IP, tudo, será mandado diretamente para o Partido Comunista Chinês, porque essa é uma exigência para um ISP chinês”, disse Brennan.

A NT Technology, o Alibaba e o Tencent não responderam nossos vários pedidos de comentário.

Na manhã de sexta, o 8kun.net continuava inacessível. Como o aparato de censura chinês provavelmente vai derrubar o site sem qualquer pressão de Brennan, não está claro para onde os operadores do site podem se voltar agora.

Mas, como a tentativa com os serviços de nuvem chineses mostrou, Jim e Ron Watkins parecem dispostos a tudo para colocar seu site de volta na internet.

“Acho que nunca vi isso ser feito antes e já vi muita coisa, observo todos os movimentos deles tentando evitar perder suas plataformas”, disse Brennan. “Nunca imaginei que eles tentariam pular para serviços de nuvem da China – talvez porque a ideia seja tão ridícula.”

Matéria originalmente publicada na VICE News EUA.

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