Porno

O futuro da pornografia é sombrio

Entrevistamos a cineasta feminista Erika Lust sobre o impacto de regulamentações desastrosas e o problema com a verificação de idade em sites pornôs.

por Emma Garland; Traduzido por Marina Schnoor
22 Agosto 2018, 10:00am

Todas as imagens cortesia de Erika Lust.

Mudanças legislativas recentes nos EUA e Reino Unido significam más notícias para o futuro da indústria pornô.

No dia 4 de julho, o YouTube derrubou o canal de uma produtora independente de filmes eróticos depois que eles postaram entrevistas com trabalhadores sexuais. Em seu blog, a cineasta feminista pornô Erika Lust escreveu que seu canal epônimo foi derrubado depois que ela postou a série “In Conversation With Sex Workers”, onde os trabalhadores sexuais discutiam suas experiências, estigmas sociais, relacionamentos com clientes, com as autoridades e a relação entre trabalho sexual e feminismo.

Apesar de serem vídeos não explícitos com pessoas apenas falando, o YouTube cancelou o canal, citando “violações das diretrizes de comunidade”. O problema, segundo o YouTube, não era o conteúdo sexual, mas os links nas descrições dos vídeos que levavam ao site de Erika, o ErikaLust.com, que o YouTube considera um site pornô (mesmo sendo um site com paywall, portanto limpo).

Erika Lust

A decisão do YouTube parece ser outro resultado do FOSTA-SESTA. Aprovado como lei americana em abril, o FOSTA-SESTA pretende combater o tráfico sexual responsabilizando os sites pelo que seus usuários dizem ou fazem neles. Além de prejudicar trabalhadores sexuais consensuais enquanto empurra o tráfico sexual mais ainda para o submundo, a linguagem ampla demais da legislação significa que agora os sites estão censurando seus usuários em excesso para garantir que não serão responsabilizados por nada problemático. Isso já levou arquivos de trabalhadores sexuais a serem trancados ou deletados no Google Drive, o Patreon a mudar seus termos de serviço para excluir pornografia e a Microsoft a proibir linguagem ofensiva e nudez no Skype.

Nem é preciso dizer que isso afeta o ganha-pão de trabalhadores sexuais já vulneráveis. Além disso, blogueiros de sexo e companhias menores e independentes – como sites de fetiche feminista e de positividade corporal – que contam com as redes sociais para atrair tráfego vão sofrer, enquanto sites mainstream inerentemente misóginos podem se proteger da tempestade.

Falei com Erika Lust sobre o futuro da indústria pornô na esteira do FOSTA-SESTA, o problema com o Digital Economy Act do Reino Unido – que vai exigir que sites pornôs usem verificação de idade até o final de 2018 – e o valor da educação sobre regulamentação.



VICE: Obviamente, o YouTube é uma plataforma extremamente popular, especialmente para o público jovem. Como você acha que a paisagem da pornografia vai mudar se o acesso a materiais que abordam sexo e trabalho sexual de uma perspectiva feminista for mais restrito?

Erika Lust: Significa que espectadores mais jovens, como a Geração Z, que usam o YouTube muito mais que as gerações mais velhas, e que podem estar curiosos sobre alternativas ao conteúdo adulto mainstream, não vão poder descobrir pornô alternativo, indie e feminista, mas ainda vão ter pornografia mainstream enfiada goela abaixo em todo tipo de mídia.

O alvo do YouTube são negócios menores e indies, enquanto sites grandes mainstream saem ilesos. Veja o canal do WoodRocket, por exemplo. Eles dirigem seu tráfego para seu site pornô em cada um dos vídeos e podem falar explicitamente sobre pornô e diferentes atos sexuais – histórias de anal com cocô, dupla penetração, etc. Mas meu canal foi derrubado por causa de uma série sobre trabalhadores sexuais e trailers não explícitos de filmes adultos indie e feministas, que mostram consentimento e prazer feminino. É fácil ver a que tipo de conteúdo os jovens vão ter acesso com mais facilidade.

Que impacto você acha que essa forma de censura vai ter na capacidade de ter diálogos progressistas sobre sexo e trabalho sexual?

Conversas progressistas e saudáveis sobre sexo e trabalho sexual já estão sendo censuradas. Plataformas online de educação sexual já estão sendo afetadas por bloqueios nebulosos [onde o conteúdo de um usuário é bloqueado sem ele ser informado], desmonetização e censura de hashtags. Canais ótimos, como o de educação sexual voltado para mulheres Come Curious, já estão sendo derrubados e desmonetizados pelo YouTube. Outros canais LGBTQ, de BDSM e de educadores sexuais estão notando o mesmo problema. Esses canais são importantes porque ensinam uma educação sexual mais inclusiva e diversa, e cobrem tópicos que as escolas negligenciam quando se trata de sexo. E são especialmente úteis para pessoas crescendo com pensamentos e desejos não compartilhados pelas pessoas ao seu redor, porque esses canais mostram a elas que elas não estão sozinhas e que seus sentimentos não são anormais. Se o acesso a esses canais se tornar cada vez mais limitado, muitas comunidades marginalizadas ou queer não poderão se beneficiar desses conselhos, que podem salvar vidas.

Esses bloqueios mal explicados e desmonetização já estavam acontecendo antes do FOSTA-SESTA, mas agora você acha que as leis vão piorar as coisas para educadores e trabalhadores sexuais online?

As leis vão obrigar plataformas a censurar qualquer material relacionado a sexo, mesmo se não for explicitamente sexual. E em termos de diálogo sobre trabalho sexual, se recusar a sequer mencionar o assunto. Veja a plataforma de educação sexual O.School, por exemplo, que removeu todo seu conteúdo sobre trabalho sexual depois do FOSTA-SESTA. Isso só vai ajudar a perpetuar esteriótipos negativos de que trabalho sexual não é realmente trabalho e fortalecer o estigma.

Da série 'XConfessions' de Erika Lust.

Que questões surgem quando grandes corporações como YouTube e Google começam a remover todo o conteúdo adulto das contas privadas e públicas?

Vamos acabar com chefões da internet que não vão nos deixar falar sobre nada. Os sites estão com medo de serem responsabilizados, então censuram seus usuários e qualquer conteúdo que considerem “problemático”. Num nível pessoal, essa é uma tentativa silenciar as vozes de trabalhadores sexuais online e controlar seus comportamentos – como visto com o Google Drive removendo conteúdo das contas privadas de trabalhadores sexuais sem avisá-los. Em termos de problemas mais amplos, já sabemos que a censura afeta principalmente as comunidades mais marginalizadas; veja a censura do Facebook ao discurso de ódio no ano passado, que censurou desproporcionalmente pessoas LGBTQ e não-brancas. De maneira similar, o FOSTA-SESTA está afetando desproporcionalmente trabalhadores trans, LGBTQ e não-brancos.

No final das contas, a legislação pode ser resumida pela crença que “trabalho sexual é ruim”, e uma noção machista subjacente de que mulheres não podem tomar sua própria decisão quando se trata de seus corpos. Claro, há trabalhadores sexuais de todos os gêneros, mas casos como o Instagram censurando #woman e #femalestripper, e não #man e #malestripper, mostra que esse é um desejo patriarcal de dizer às mulheres o que elas podem ou não fazer com seus corpos.

Qual você considera a questão principal enfrentada pela indústria pornô agora?

Uma grande questão é o modelo de negócio de pirataria operado por sites de streaming grátis. Sites como o PornHub não fazem seu próprio material, eles roubam. Eles contam com “usuários” postando conteúdo no site, que deveriam declarar que têm o direito de fazer isso, mas é claro que entre grandes quantidade de materiais licenciados, existe conteúdo no PornHub que está infringido copyright. Mas como eles dizem ser um site completamente gerado por usuários, eles se protegem atrás da ideia de que não podem monitorar o copyright de todo vídeo postado.

Quando um diretor encontra seu conteúdo postado ilegalmente, ele pode denunciar e o site recebe um aviso de retirada DMCA, aí eles removem o conteúdo roubado. Mas no dia seguinte, o mesmo vídeo é postado de novo por outro – às vezes o mesmo – usuário. Claro, pequenos estúdios pornô não têm tempo para ficar peneirando sites assim procurando por seu conteúdo todo dia. Assim, o conteúdo é postado mais rápido do que os estúdios podem emitir avisos para que ele seja tirados desses sites.

Você acha que esses sites deveriam ser mais controlados?

Com certeza. Acima de tudo, os usuários precisam ser conscientizados das implicações éticas de assistir material pirateado. Quando falamos sobre cinema adulto profissional e ético, há muitas razões para o conteúdo estar atrás de um paywall. Esses filmes custam dinheiro para fazer. Precisamos pagar atores, a equipe, a pós-produção e o diretor; contratos que protegem os direitos dos trabalhadores, o almoço do dia, acomodações confortáveis se necessário. Trabalho sexual é trabalho de verdade, e os artistas merecem ser pagos. Pagando pelo seu pornô, você está ajudando a garantir que companhias menores, comprometidas com algumas dessas práticas de trabalho, continuem fazendo o pornô que querem fazer, e que o trabalho sexual seja feito num ambiente seguro. Sempre recomendo a mesma coisa: faça sua pesquisa, e quando entrar em sites pornôs veja quem está por trás desses sites. Você pode ver os nomes deles, seus rostos? Há créditos para a equipe atrás das câmeras?

Quais são suas principais preocupações como cineasta erótica independente depois do FOSTA-SESTA?

No final das contas, essas leis podem ser resumidas por políticas contrárias ao trabalho sexual, e acho que o foco e a preocupação deveriam estar em como essas leis vão afetar trabalhadores sexuais. A perseguição de trabalhadores sexuais é justificada por uma ideologia que os pinta como vítimas ou indesejáveis. Como resultado, os legisladores vão indiscriminadamente prejudicar trabalhadores sexuais, impondo seus próprios valores e julgamentos. As leis de trabalho sexual já são muito duras, e muitas vezes as penalidades são desproporcionais a qualquer dano social ou individual. Isso levou a um clima nos EUA onde trabalhadores sexuais têm mais chances de serem mortos no trabalho que policiais, a ter 400% mais chance de encarar violência do que um trabalhador médio e serem praticamente incapazes de acessar o sistema de justiça quando são vitimados.

E agora, com o FOSTA-SESTA?

Trabalhadores sexuais estão sendo obrigados a ir para as ruas para encontrar clientes. Eles estão perdendo publicidade online, listas de pessoas tóxicas, checagem online de clientes e suas vozes. Cafetões estão explorando e abusando dessas pessoas, e clientes ruins estão tirando vantagem da situação. As leis estão literalmente matando trabalhadores sexuais e ninguém parece se importar.

Foi uma surpresa para você que o FOSTA-SESTA esteja prejudicando o trabalho sexual?

Não muito. Um dos principais defensores da lei foi o National Center on Sexual Exploitation, que foi fundado como “Morality in Media” nos anos 60 para combater a pornografia. No site, eles dizem: “Pornografia é uma toxina social e física que destrói relacionamentos, rouba inocência, mina compaixão, gera violência e mata o amor”. O FOSTA-SESTA tem mais a ver com ódio contra trabalho sexual do que com impedir tráfico sexual.

Também deveríamos nos preocupar com as pessoas que essas leis supostamente deveriam ajudar – as próprias vítimas de tráfico sexual. As plataformas na internet estão sendo obrigadas a censurar qualquer postagem relacionada a sexo. Então, as palavras de uma vítima tentando compartilhar sua experiência ou conseguir ajuda serão pegas pelo filtro, numa tentativa de deletar conteúdo de tráfico sexual. Além disso, censurar essas plataformas também tira uma fonte importante para encontrar vítimas – a internet aberta. Se os traficantes usavam esses sites antes, a lei vai fazer eles saírem dos holofotes e usarem a deep web. Até o Departamento de Justiça dos EUA foi contra o FOSTA-SESTA, dizendo que isso dificultaria ainda mais processar traficantes sexuais.

O Reino Unido atualmente está tentando implementar verificação de idade para “conteúdo adulto” online. Que problemas você vê surgindo disso, tanto para sites pornô mainstream como independentes?

Meu deus, são tantos problemas com os planos de verificação de idade, nem sei por onde começar! Fora o risco extremo de perda de privacidade para qualquer pessoa usando esses serviços, há vários problemas que podem surgir para sites pornôs.

O governo do Reino Unido está basicamente entregando todos os poderes para o MindGeek [que possui 90% dos sites de streaming populares, como Pornhub, RedTube e YouPorn], que agora vai poder aumentar sua parcela já enorme de mercado oferecendo verificação de idade para sites menores. Eu sabia que isso ia acontecer quando li que o MindGeek estava nas reuniões com oficiais do governo para planejar a criação dessa verificação de idade. Sites menores com tráfego baixo e trabalhadores sexuais independentes que não podem cobrir os custos de instalar ferramentas de verificação de idade vão ser afetados desproporcionalmente.

Como você acha que isso vai impactar sites menores?

Isso vai dar ainda mais dominância na indústria adulta para o MindGeek. As diretrizes do BBFC não obrigam sites a oferecer mais de um produto de verificação de idade, então todos os sites MindGeek e marcas de estúdio – novamente, 90% dos sites de streaming – vão oferecer apenas seu próprio produto: o AgeID. O BBFC também estabeleceu que os usuários não vão ter que confirmar sua idade em cada visita se o acesso é restrito por senha ou número pessoal de identidade. Então usuários de um site do MindGeek só vão ter que oferecer sua idade uma vez usando o AgeID, e depois vão poder logar nos sites deles sem ter que verificar a idade de novo. Portanto, os espectadores vão ter menos chances de visitar sites competidores que não usarem a tecnologia AgeID, e assim os competidores vão se sentir pressionados para usar o AgeID para se proteger da perda de espectadores.

Também é muito interessante – e nenhuma surpresa – ver que o MindGeek fez o AgeID para monopolizar a nova lei de verificação de idade mas, claro, não querendo perder seus espectadores menores de 18 anos, agora eles criaram seu próprio VPN! VpnHUB vai permitir que usuários menores de idade do Reino Unido contornarem os controles de verificação de idade evitando serem detectados como espectadores do Reino Unido.

Um press release do BBFC diz que a prioridade deles é “tornar a internet segura para crianças”, assim como a justificativa do FOSTA-SESTA é proteger os vulneráveis. Você acha que há maneiras melhores de ajudar jovens a entender o material que eles estão assistindo, além de simplesmente tornar o acesso mais difícil?

Entendo a preocupação do governo, e na superfície a verificação de idade parece uma boa ideia – proteger as crianças de verem pornô quando são muito novas. Mas não há muitas provas apoiando a eficácia da verificação de idade para proteger crianças de conteúdo sexual, e pesquisas estão mostrando que esse plano não vai funcionar. O Oxford Internet Institute publicou suas descobertas no Filtragem de Internet e Exposição de Adolescentes a Material Sexual Online, que mostra que filtros de internet não são medidas preventivas eficazes para os mais jovens.

Desde que existe pornografia online, há pedidos para que o governo tenha o poder de derrubar esses sites, geralmente com base “no bem das crianças”. Mas esse tipo de censura é uma resposta pobre para a disfunção sexual da nossa sociedade. Na era da internet é inevitável que crianças vejam coisas que provavelmente não deveriam, mas não vamos consertar um problema social com tecnologia. Precisamos nos perguntar por que crianças estão buscando conteúdo sexual online? Que respostas elas estão procurando?

Como você acha que podemos abordar essas questões e as responder melhor?

O problema agora é a falta de educação sexual boa e útil, praticamente em todo lugar. Sabemos que a maioria das escolas não estão fornecendo educação sexual adequada. Em nenhum ponto da educação dos jovens alguém ensina sobre consentimento, o que é bastante importante, não? Nossas crianças não são cegas pra sexo; elas ouvem isso da sociedade ao seu redor e vão direto para o Google achar respostas. E infelizmente, praticamente toda vez que você digita algo relacionado com sexo num mecanismo de busca, você vai ser recebido com algo como o PornHub, onde vai ser bombardeado com sexo ou fetiche degradantes, e que nem sempre parecem ser consensuais.

Não podemos impedir crianças de encontrar esses sites, então em vez de ignorar isso, vamos educar as crianças. Reconhecendo o pornô, isso imediatamente se torna menos vergonhoso e abre o diálogo, o que leva a aprendizado saudável e ativo.

De que maneiras você acha que podemos começar a abrir esse diálogo?

Precisamos de educação sexual obrigatória nas escolas que aborde o pornô, dada por especialistas em vez de professores sem treinamento. Precisamos dar aos jovens espaço para questionar e explorar sua sexualidade sem vergonha.

Meu marido, Pablo, e eu estamos trabalhando para dar a pais e professores as ferramentas que eles precisam para falar com adolescentes sobre pornografia. O projeto se chama The Porn Conversation, guias práticos e úteis para encorajar os pais a falar com seus filhos sobre o que eles vão ver na internet. Dizer a eles que é normal ter curiosidade, mas que o que eles vão ver é uma performance de sexo e não como o sexo realmente é. Que muitas das pessoas que eles vão ver não representam o corpo médio, e que você não deve tratar mulheres do jeito que elas são tratadas em muita da pornografia problemática desses sites grátis.

Como você acha que isso vai ajudar a longo prazo?

O pornô sempre vai existir, então dar às crianças ferramentas para serem críticas e conscientes do que estão assistindo é incrivelmente importante. Elas devem ser capazes de diferenciar entre tipos de pornô, e também entender o que é sexo respeitoso e consensual entre adultos. Quando tiverem idade suficiente, elas vão ver que certos pornôs promovem igualdade de gênero, intimidade, diversidade, consentimento afirmativo, segurança, prazer e liberdade sexual.

Aprendendo a distinguir entre os diferentes tipos de sexo ao redor delas, as crianças vão desenvolver atitudes mais saudáveis com relação ao sexo e relacionamentos. Tendo conversas abertas e honestas, elas vão ter a oportunidade de discutir seus sentimentos, comunicar seus desejos sexuais e serem pessoas mais felizes.

Em 2014, o BBFC criou uma lista de “conteúdo que não é aceitável” no pornô, que incluía uma variedade de atos sexuais, de estrangulamento a ejaculação feminina. Considerando tudo isso, você acha que é uma coisa positiva para conteúdo adulto ser regulado por uma ONG que também é responsável por regular conteúdo de vídeo em geral?

Primeira coisa, essa lista é ridícula. Ela divide atos sexuais em bons e maus, e fazendo isso contribui para a retórica de fazer as pessoas terem vergonha de funções naturais do corpo, e desejos e fantasias naturais. É algo que vai contra a liberdade sexual, especialmente a liberdade sexual feminina quando você vê os atos considerados inaceitáveis, como squirting. Isso tenta envergonhar as pessoas que têm esses desejos, silenciar sua autonomia sexual e excluí-las da narrativa da pornografia.

Mas respondendo sua pergunta, não acho que é uma coisa positiva para o pornô ser regulado por uma ONG que não tem qualquer entendimento da indústria adulta. O BBFC regular o pornô do mesmo jeito que regula filmes blockbusters, e as diretrizes deles para o que constitui a classificação R19 são baseadas em parte no que eles consideram obsceno sob o Obscene Publication Act de 1959. Essa lei é reconhecida amplamente como datada e difícil de interpretar.

Acho que o BBFC não está equipado para moderar conteúdo adulto. Tenha em mente que essas são as pessoas que classificam uma cena de estupro como apropriada para maiores de 12 anos, mas que pênis flácidos só são apropriados para maiores de 18. O BBFC foi fundado em 1912, quando “C” ainda queria dizer “Censores”, não “Classificação” como agora. Acho que é hora de encontrar novas maneiras de regular conteúdo em vídeo. Faz anos que analisamos arte e literatura e decidimos que elas não precisavam ser reguladas, então por que não estamos usando a mesma linha de pensamento para regular filmes?

Como você acha que o pornô deveria ser regulado, se é que deveria?

Nos EUA, as leis de pornografia são reguladas pelo estado, e alguns pornógrafos já foram presos por acusações de obscenidade. Acho preocupante que todos esses tipos de conteúdo extremo e violento esteja disponíveis tão abertamente para jovens, mas não acredito em censura. Deveria ser mais difícil acessar pornografia? Provavelmente. Mas com a internet, o pornô é tão espalhado como gênero que é difícil ver como uma regulamentação mais restrita poderia dar certo. Regular o pornô da internet provavelmente empurraria o gênero para a deep web, e você não vai querer isso.

É o mesmo com verificação de idade. Acho que é mais importante educar do que regular. O pornô está por toda parte, disponível online de graça, então precisamos nos responsabilizar e começar a educar os jovens sobre como navegar por isso. Para mim, isso significa fazer filmes de positividade sexual que mostram consentimento, prazer mútuo e uma variedade de desejos e sexualidades.

E quanto a diretrizes e regulamentações para garantir a segurança dos artistas?

Acho que seria ótimo se tivéssemos leis cercando implementação de processo ético de produção, testes de saúde sexual obrigatórios, e leis mais severas para garantir que ninguém com menos de 21 anos possa atuar na indústria. Infelizmente, isso não é algo que posso mudar facilmente como uma diretora. Mas o que posso fazer é garantir que meu etos, padrões de produção e valores no set correspondam às minhas crenças e escrutínio.

O problema com o FOSTA-SESTA, a proposta de uma lei similar no Reino Unido, e a verificação de idade é que a legislação é muito amplamente redigida. Elas varrem toda a conversa sobre sexo e trabalho sexual para baixo do tapete – em vez de falar abertamente sobre isso. O que poderia ser feito para empurrar a indústria do pornô e a atitude cultural geral sobre o sexo para uma direção mais positiva?

Precisamos ter programas mais abrangentes de educação sexual que ensinem sobre sexo e sexualidade, não abstinência. Estudos mostraram que países da Europa que são mais abertos com o sexo têm taxas mais baixas de DSTs e gravidez na adolescência que países como os EUA, onde eles ensinam abstinência. E para a indústria do sexo, precisamos de descriminalização total do trabalho sexual para melhorar condições de trabalho, dar direitos aos trabalhadores sexuais, remover o estigma, mostrar que trabalho sexual é trabalho de verdade, reduzir violência sexual e melhorar o bem-estar, a segurança e as condições para o trabalho sexual.

Saiba mais sobre a Erika no ErikaLust.com.

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube.