A administração Trump lançou em segredo um comitê anti-maconha

Mas ninguém de fora da administração parece saber o que o grupo está fazendo.

por Harry Cheadle; Traduzido por Marina Schnoor
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set 17 2018, 5:38pm

Foto de maconha por David McNew/Getty. Foto de Trump por Drew Angerer/Getty. 

Saber o que a administração Trump defende quando o assunto é maconha é tão difícil que nem o próprio Donald Trump deve saber. A legalização da maconha não foi uma grande questão em sua campanha de 2016, mas Trump prometeu deixa a questão “por conta dos estados”, uma posição bem típica pros EUA. Aí ele indicou Jeff Sessions, um conhecido cruzado da guerra às drogas, como seu procurador-geral. No começo deste ano, Sessions anunciou uma mudança política que liberaria promotores federais para ir atrás de produtores e vendedores de maconha – mesmo em lugares onde a erva é legal sob a lei estadual, aparentemente sinalizando uma abordagem anti-maconha.

Mas o pânico moral de Sessions com a maconha é uma anomalia mesmo dentro de seu partido. Muitos republicanos, especialmente os mais jovens, apoiam a legalização da erva, e legislações maconha-friendly vêm tendo um sucesso surpreendente no Congresso dominado pelo GOP. Em 2017, uma emenda numa lei proibiu o Departamento de Justiça de usar fundos públicos para perseguir operações de maconha medicinal legalizadas sob leis estaduais, e mais recentemente uma lei para finalmente legalizar o cânhamo tem apoio de republicanos incluindo o líder da maioria do Senado Mitch McConnell. O próprio Trump sinalizou vagamente em junho que “provavelmente vai acabar apoiando” uma lei bipartidária do Senado que vai impedir o governo federal de interferir com estados que decidirem legalizar a erva.

Tudo isso tornou ainda mais difícil decifrar um relatório do BuzzFeed News de que a administração “instruiu 14 agências federais e o DEA este mês a submeter dados demonstrando as tendências mais significativamente negativas sobre maconha, e as 'ameaças' que isso representa para o país”. Isso é parte do trabalho do “Comitê Coordenação de Políticas de Maconha”, um corpo antes desconhecido aparentemente encarregado de estimular uma linha anti-cannabis.

Animosidade contra a erva aparentemente é muito comum entre as pessoas que juntaram esse comitê. Segundo um resumo de uma reunião entre a Casa Branca e nove departamentos federais obtidos pelo BuzzFeed, “A equipe acredita que se a administração quer reverter a onda do aumento de uso de maconha, há uma necessidade urgente de juntar os fatos sobre os impactos negativos do uso, produção e tráfico de maconha na saúde e segurança nacionais”.


Assista ao nosso documentário "A Legalização da Cannabis no Brasil"


Não está claro o que o comitê está realmente fazendo – a administração Trump se recusou comentar qualquer coisa oficialmente para o BuzzFeed, apesar de não negar a existência do comitê – mas parece estranho lançar um projeto tão hostil assim com a maconha num momento em que a legalização é popular em pesquisas e rende votos nas urnas.

Claro, a legalização tem seus problemas. Especialistas estão preocupados que o aumento do acesso à maconha leve a mais pessoas se viciando na droga, e ativistas estão debatendo como ajudar pessoas e comunidades prejudicadas pela guerra às drogas enquanto a indústria da maconha legal se expande. Mas o aparente foco do comitê em demonizar a cannabis arrisca ignorar problemas causados pela criminalização, como a bizarra área cinzenta em que muitos negócios de maconha se encontram agora.

Claro, essa administração não é a primeira a ter uma posição proibicionista tosca sobre a maconha. O que torna o Comitê Coordenação de Políticas de Maconha um corpo governamental unicamente trumpiano é que ele foi lançado em segredo, por razões que a administração não vai explicar e que parecem contradizer a mensagem do próprio presidente ao público sobre a questão. Como esse comitê enquadra as declarações passadas de Trump? Isso representa uma mudança na política dele? O próprio Trump estava sabendo disso? Essas são questões de rotina para uma administração normal responder, mas Trump tem seu jeitinho de tornar o que era para ser direto em algo inescrutável.

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