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Mulheres estão levando cursos de programação para detentas nos EUA

“Existe uma diferença entre a motivação das mulheres e dos homens: elas são mais empreendedoras."

por Zara Stone; Traduzido por Mariana Miyamoto
22 Agosto 2018, 4:02pm

Todas as fotos são cortesia do Girl Develop It.

Melissa Hutchison tem grandes planos pra quando sair da prisão. Ela gostaria de se tornar chef. Ou escritora. Ou talvez abrir uma lanchonete. Programação não consta em sua pequena lista. Isso porque, em dezembro de 2017, passou um total de 12 horas e meia em treinamento de um curso de codificação administrado na prisão pela organização sem fins lucrativos, Girl Develop It. As professoras utilizaram uma abordagem pesada, cobrindo itens básicos como CSS e HTML no curto tempo que tiveram. “Passou tão rápido”, diz Hutchinson. “Queria que elas voltassem.”

Bootcamps de programação no estilo Vale do Silício tem sido ministrados em prisões desde 2014, mas até recentemente eram exclusividade masculina. Hoje é realidade em várias prisões femininas. Os argumentos a favor desses treinamentos são muitos. Em teoria, a grade dos cursos de tecnologia das prisões beneficia todo mundo. O salário médio de um desenvolvedor de software nos Estados Unidos é de US$ 103.560 e talentos da área estão em falta no mercado. Melissa ganharia um terço desse valor como chef.

Há também alguns problemas, claro. Houve um aumento de 700% no número de mulheres encarceradas desde 1980, e sua taxa de reincidência atinge por volta de 68,1% – porém com uma infraestrutura bem menor quando se trata de sua educação.

LeeAnn Kinney, diretora da Girl Develop It, considera as estatísticas desanimadoras – e motivadoras. Sua estratégia é simples: capacitar as encarceradas para que não voltem à prisão. Com a alta demanda de habilidades de engenharia, proporcionar conhecimento tecnológico às prisioneiras pode mudar seu futuro significativamente.

“Empregos na área da tecnologia oferecem vários benefícios aos que estão retornando à sociedade”, diz Kinney, citando a flexibilidade de trabalhar em casa e os benefícios da jornada de trabalho não-tradicional. “Não dá para prever quantas seguirão como desenvolvedoras web mas essas habilidades beneficiam qualquer carreira.” No entanto, estabelecer um programa permanente leva tempo, por isso Melissa participou do breve curso piloto na Instituição Correcional Baylor para Mulheres, em Delaware.

Logisticamente, Kinney teve que lidar com as permissões das prisões, planejamento das lições, disponibilidade das professoras e seis horas de distância de sua casa. Tudo precisou ser remanejado; a Girl Develop lidera as aulas de introdução à programação em âmbito estadual, porém são cursos desenvolvidos para pessoas que tenham acesso à internet. Sua grade curricular reformulada enfrenta outros desafios, incluindo computadores que utilizam o internet Explorer 7 (lançado em 2006) e uma discrepância enorme entre os conhecimentos das detentas. Algumas delas não acessam o mundo online desde os tempos do MySpace, diz Kinney. A classe criou sites básicos com o Wordpress; Hutchison fez um site para o seu restaurante dos sonhos. "Eu quero inovar nos meus pratos", diz ela. "Em vez de frango grelhado com batatas fritas eu faria um frango grelhado com queijo azul e chip de waffle."

O ensino de conhecimentos de informática a detentos iniciou em meados do século XX. Em 1968, a Honeywell e a IBM começaram a dar aulas de programação de computadores e tarefas básicas de administração nas prisões de Massachusetts, e o Federal Bureau of Prisons seguiu o exemplo em 1975. Oportunidades como essas foram raramente disponibilizadas às mulheres, cujas aulas focavam apenas nos estereótipos de "atividades femininas" como cuidados com a beleza, tarefas da casa e conserto das roupas de homens detentos.

Os tempos podem até ter mudado, mas o sexismo ainda domina os territórios das prisões. Um relatório de abril de 2018 da Coalizão de Justiça Criminal do Texas encontrou uma enorme disparidade tanto no número como no tipo de cursos oferecidos a homens e mulheres detentas. Os certificados vocacionais dirigidos pelo Departamento de Justiça Criminal do Texas dão às mulheres duas opções; administração de escritório e artes culinárias ou administração de eventos, enquanto os homens podem escolher entre 21 cursos, incluindo tecnologia da computação, processamento de dados e horticultura.

“Isso aumenta as barreiras para que as mulheres sejam bem-sucedidas na área da tecnologia”, diz Lindsey Linder, autora do relatório e advogada do departamento político da Coalizão de Justiça Criminal do Texas. “É chocante que as mulheres tenham muito menos acesso a programas educacionais que os homens, isso é um claro exemplo de como as mulheres são injustiçadas e negligenciadas no sistema.”

Isso é um grande avanço. Um relatório do Departamento de Justiça dos EUA descobriu que o treinamento vocacional para detentos reduziu a taxa de reincidência para 20%, e conquistar um diploma de bacharel reduziu a reincidência para 5,6%. As mulheres encarceradas geralmente têm uma educação precária; Linder descobriu que 65% das mulheres detentas não concluíram o ensino médio, das quais 11% abandonaram a escola aos 14 anos.

Participadoras e instrutoras de um workshop da Girl Develop It.

“As pessoas cometem o erro de assumir que qualquer emprego [para ex-detentos] é suficiente, mas isso não é verdade,” diz Linder. “Se você trabalha em um fast food, não é o bastante para sustentar seus filhos. Com a programação você pode trabalhar em casa e ganhar um salário razoável.”

Claro que conhecimentos em programação não te fazem ter sucesso automaticamente, mas têm mudado a vida de muitos ex-detentos. Um exemplo é Chris Schumacher, que se graduou em 2017 pelo programa de codificação Last Mile na San Quentin e agora trabalha para a companhia de mídia de cultura pop, Fandom. De acordo com a Glassdoor, seus engenheiros de software ganham aproximadamente US$ 110.000. Outra história de sucesso da Last Mile é a de Aly Tamboura, que aprendeu a programar enquanto cumpria 12 anos por assalto à mão armada. Em 2017 ele foi contratado como gerente técnico pela Chan Zuckerberg Initiative (sim, aquele Zuckerberg).

A organização sem fins lucrativos The Last Mile, sediada na Califórnia, estabeleceu seu programa de codificação em 2014. Seu curso com duração de 12 meses, com 40 horas por semana, capacita os detentos com as habilidades necessárias para trabalhar como desenvolvedor front-end, introduzindo-os no ritmo de um mundo que evoluiu sem eles. Originalmente voltado para presos homens, o "carro-chefe dos programas de codificação na prisão" se estendeu para três prisões femininas e oito masculinas.

“Existe uma diferença entre a motivação das mulheres e dos homens”, diz Chris Redlitz, investidor de capital de risco e co-fundador do Last Mile. “As mulheres são mais empreendedoras.” Inclusive, a taxa de reincidência desse programa é zero – estatística que se refere apenas às prisões masculinas, já que nenhuma mulher se graduou ainda.

No geral, as detentas já estão vendo uma diferença, ainda que lentamente. No Reino Unido, a organização sem fins lucrativos Code 4000 planeja iniciar aulas de programação em uma prisão feminina no próximo ano (eles já inseriram em uma prisão masculina) e na Geórgia, a organização sem fins lucrativos Code/Out inicia as aulas de programação em instituições femininas neste verão. Pode inclusive haver alguma mudança no Texas; em uma conferência recente, o senador John Whitmire anunciou que vai contratar um diretor pra focar na educação das mulheres presas.

De volta a Delaware, Hutchison vai ter uma surpresa em setembro. A Girl Develop It acaba de conseguir uma nova rodada de investimentos, e Kinney e companhia estão voltando para dar um curso de reciclagem para Hutchison. Elas também estarão ensinando a dois grupos novos, e suas sessões serão mais longas e com mais conteúdo.

Mesmo assim. Kinney sabe que tem longo caminho a percorrer. Ela deseja expandir o programa para outros estados, manter um horário para atendimento nas prisões e estabelecer um caminho para a tecnologia para as detentas libertas. “Esses recursos são frequentemente fornecidos aos homens, não às mulheres”, diz Kinney. “Focamos nas mulheres pois desejamos ver mudanças mais cedo ou mais tarde.”

Esta matéria foi originalmente publicada na BROADLY US.

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