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Foto: Helen Salomão

Mulheres falam sobre suas estrias, celulites e cicatrizes

PorDébora Lopesfotos porHelen Salomão

A fotógrafa baiana Helen Salomão registrou e entrevistou mulheres sobre a relação com seus corpos.

Foto: Helen Salomão

Uma mancha no canto da boca mudou a vida de Sabrina Castro, 23. Ela passou por consulta dermatológica, recebeu um diagnóstico qualquer, voltou ao médico, fez exames e procurou respostas no Google. Mas foi o resultado da biópsia que trouxe a notícia: aos 21 anos ela estava desenvolvendo vitiligo. Encarar o espelho era complicado, e, às vezes, pior ainda perceber a testa franzida das pessoas na rua tentando entender o que era aquilo em seu rosto. Histórias como a dela compõem o projeto Casa Corpo Pele Parede, da baiana Helen Salomão, 26, também conhecida como Helemozão.

"O objetivo é contar as histórias dessas mulheres reais que não estão nos livros", explica a fotógrafa e poetisa. Estrias, marcas de gravidez, celulites, sardas e ganho de peso estão entre os motivos que fazem muitas mulheres padecerem com o próprio corpo, mas a percepção de não estarem sozinhas e de que esses fatores não são anormais ajudam a resgatar a autoestima. Depois de fazer um poema sobre o assunto, Helen resolveu lançar o projeto, que, em breve, vira exposição em Salvador, Bahia, sua terra natal.

Abaixo, as histórias coletadas pela artista e suas retratadas.

Foto: Helen Salomão

Sabrina Castro, 23

"Há dois anos, minha pele recebeu uma pequena mancha no canto da boca, que eu acreditava ser uma marca do sol. Enquanto não recebia o resultado da biópsia, fiquei pesquisando no Google. Achei que tivesse câncer de pele. O último diagnóstico que imaginei era vitiligo, pois os relatos da internet sempre diziam que as manchas apareciam logo na infância. Mas o resultado chegou e era vitiligo. Fui digerindo tudo com o passar dos dias, chorando no trabalho, em casa, no ônibus. Era difícil me olhar no espelho. Pior era olhar para o meu rosto e não me ver, sem falar nas pessoas na rua, que, quando me olham, meio que se assustam, franzem o rosto, tentam entender o que tenho. Usei pomadas e tomei injeções, mas nada adiantava. Minha vó notou minha tristeza e marcou um psicólogo. Na consulta, a médica achou que seria necessário usar antidepressivos, aí fiquei com medo e não voltei mais. Passei a me olhar no espelho e dizer que era linda, e que minha mancha só contribuía para melhorar minha beleza. Hoje, me sinto muito diferente, mais bonita, não sinto vontade de mudar nada em mim. Sou linda e não deixo que ninguém me diga o contrário."

Foto: Helen Salomão

Marie Silva, 24

"Quando nasci, trouxe um tipo de marca comigo que mais tarde seria minha eterna cicatriz. 'É hemangioma', disse o médico ao examinar o nódulo macio e vermelho formado por um excesso de vasos sanguíneos. Parecia um mapa na região do cóccix, praticamente no meio das nádegas. 'Tem que operar se não cresce muito. No futuro, ela pode fazer uma plástica reconstrutiva', falou mais uma vez o doutor. Minha mãe? Coitada. Consentiu achando que era para o meu bem. Operaram, fizeram enxerto, deixaram uma cicatriz horrenda. A plástica? Ah, essa nunca aconteceu. Foram anos e anos me escondendo. Na praia, shorts e canga me davam cobertura. Ficar nua na frente do namorado era mais um martírio. Me sentia tão insegura. Ficar de costas era cena de terror, pensava eu. 'Ei, você tinha um rabinho igual de cachorro e operou?', disse um amigo em tom de brincadeira (de muito mau gosto por sinal) ao ver a cicatriz. Quase morri.

Foto: Helen Salomão

Acompanhando a cicatriz, havia as estrias, que também vieram cedo — logo aos 10 anos de idade, a partir dos primeiros efeitos sanfona. Bumbum de zebra. Era o que eu achava que parecia. Pretinha cheia de estrias claras. Ai, como eu odiava. O tempo passou, a escravidão já passou, mas a minha relação com meu corpo e minha pele preta ainda viviam em função de um padrão. Dei o meu primeiro grito de liberdade e aceitação: fiz um ensaio fotográfico nua, que me revelou o quanto eu era linda com marcas e cicatrizes. Estavam todas ali no seu devido lugar e não havia nada mais natural. Aos poucos vieram os biquínis – nada de shortinho na praia. Eu me libertei. Transformei meu corpo em templo."

Foto: Helen Salomão

Sista Katia, 30

"No início, eram dobras, assaduras, pintas, bochecha. Eram tantos apertos na bochecha e beliscões da família e de estranhos que eu sempre ficava com marcas roxas. Na puberdade vieram curvas, menstruação, pelos, peitos, celulites, estrias, cicatrizes. Tomei uma facada sem querer do meu sobrinho e levei pontos. Essa cicatriz virou um queloide e uma lembrança engraçada. Na transição vieram os piercings, muitas tatuagens e suspensão corporal. Eram as afirmações de quem eu já tinha descoberto: eu mesma, um ser em constante transição e aprendizado que criou uma relação com a dor sentimental e física. Nessa fase, me lembro de fazer suspensão corporal e ficar pendurada por ganchos pelos joelhos e pelas costas. Na vida, agora, são olheiras, estrias cobertas por tatuagens, rachaduras nos pés, calos nas mãos, cabelo de sereia, mais dobras, mais curvas e mais pertencimento a esse templo chamado de casa: meu corpo, minha morada, meu abrigo. São as marcas sagradas que contam a história dessa casa, que é toda colorida, mas, por baixo de tantas camadas de tinta, tem feridas abertas e cicatrizes antigas."

Foto: Helen Salomão

Débora Ester, 22

"Minha pele tem tendência a manchar por qualquer eventualidade. Seja uma espinha, cravo ou ferimento. Futucada ou não, ela sempre marca. Eu não tinha estrias, porém, durante a gravidez, elas começaram a aparecer. A pele em volta da barriga esticou bastante, além de aparecer aquela famosa listra negra fazendo divisão. Quando minha bebê nasceu, a barriga diminuiu, ficando bem flácida, mole e escura. Aos poucos, ela está voltando para o lugar e clareando. Ainda tenho vergonha de algumas manchas e, agora, das estrias, mas estou trabalhando minha autoestima para lidar e me aceitar. Faz 40 dias que minha Maria nasceu e o corpo está normalizando bem, a barriga murchou bastante e as estrias estão sumindo. Com tudo que aconteceu, amo demais meu corpo e amo ser eu, amo residir no corpo em que estou e aprender com as mudanças que acontecem nele."

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Maria Clara, 19

"Quando nasci, as pessoas não conseguiam acreditar que eu era filha da minha mãe, já que eu tinha pele clara e a dela era escura. Com o tempo, fui ganhando mais cor, apesar de não chegar ao tom da dela. Enquanto crescia, ganhei também sardas. De início elas eram bem pequenas, mas sempre foram mais escuras do que as que vemos normalmente, pareciam mais com sinais. Os adultos adoravam e achavam muito fofo, mas as crianças estranhavam. Sempre apareciam perguntas do tipo: "O que é isso na sua cara?". Até hoje preciso ter cuidados extras, pois a exposição ao sol aumenta a quantidade de sardas e sou mais propícia a desenvolver câncer de pele.

Foto: Helen Salomão

Meu sonho, até os 16 anos, era retirá-las. Meu pensamento naquela época era que, depois disso, eu poderia ver meu rosto como ele é de verdade, como se elas não fizessem parte do que sou. Iniciei o tratamento de remoção por ácido láctico e, por mais contraditório que seja, comecei a desenvolver uma afeição pelas sardas nesse período. Comecei a perceber que estava presa a elas. Não era mais uma questão de 'sujeira no meu rosto', como eu via às vezes, mas, sim, uma parte de mim. Parte do que eu sou. Depois desse período, conheci vários modelos com sardas de todos os tipo possíveis e isso me fez perceber que aquilo que eu via antes — uma imperfeição, uma coisa a ser escondida — era apenas a visão de uma pequena parte do mundo. Comecei a vê-las como uma parte real de mim, parte da casa que habito."

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Dai Costa, 26

"Acredito que esse corpo já viveu outras vidas e hoje eu re-existo nele como comandante de uma embarcação. Sempre fui uma criança gordinha e com manchas escuras nas pernas. Sempre fui alérgica e qualquer machucado marcava minha pele. Existiu na infância uma tentativa de ser desqualificada por isso ou apelidada, mas nunca funcionou, sempre tive um amor pelo corpo que habito desde muito nova. Depois de um tempo, durante a adolescência, meus seios cresceram juntamente com meu corpo, com minha alma, minha vontade de viver. Meus seios se tornaram do tamanho de quem sou, gigante."

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Bell Rocha, 26

"O desequilíbrio do meu peso me deu de presente as estrias, que me fazem lembrar o quanto lutei para querer me encaixar em padrões; o quanto lutei para fugir de quem eu realmente sou. Porém, essas marcas me fizeram entender que ser gorda não é problema, que ter estrias é normal, que se aceitar e se amar é incrível. Quando me aceitei, parei de querer emagrecer, de querer ser aceita pela sociedade. Eu sou maravilhosa, e, para mim, é isso que importa. Ter pele negra é uma dádiva, mas demorei a entender. A minha pele carrega toda minha história."

Foto: Helen Salomão

Bruna Almeida, 21

"Vivi boa parte da minha adolescência engordando e emagrecendo, e isso resultou nas celulites. Depois veio a gravidez, que esticou minha pele, fazendo com que viessem muitas estrias, principalmente na barriga. Passei muito tempo odiando meu corpo, mas por que odiar algo que é meu e que passou por processos super naturais? Hoje, me sinto liberta. Me olho no espelho e gosto do que vejo. Não sei como e quando aconteceu, mas aconteceu."

Mais fotos da Helen Salomão abaixo.

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