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análise

Qual o limite do humor?

Uma piada é só uma piada. Ou não.

Ronald Rios

Amy Schumer e Dave Chappelle: os dois já derraparam.

Não existem regras oficiais sobre comédia. Existem estruturas meio que matemáticas de flow dum número, seja ele um ato de stand up, um filme, sketche ou uma música de humor. Todo mundo conhece por exemplo, a regra de 3 da comédia: 1) estabelece, 2) reforça, 3) subverte.

Ex: "Eu estou viciado naquela sorveteria que abriu no Centro. Eles têm como cobertura paçoca, marshmallow derretido e pequenas pedras de crack."

Simples, né?

Em temática, há uma série de coisas também. Relações familiares, observações mundanas, choque de valor, crítica sócio-comportamental, sátira política e por aí vai. Existem livros inteiros sobre humor e sua centena de detalhes. Eu vou falar aqui sobre choque de valor. Ou "limite do humor", expressão que passou a ser usada bastante no Brasil desde que a produção humorística cresceu no país, mais ou menos de 2005 para cá, muito por conta da Internet. Tudo graças à Internet. É mais fácil consumir comédia graças ao YouTube, mais prático pedir comida pelo iFood e absurdamente mais simples encomendar um assassinato na deep web.

(Viu? Regra de 3 de novo).

Em choque de valor, vale dizer que o Dave Chappelle é provavelmente um dos meus humoristas favoritos. Ele é conhecido pelo humor racial, que constantemente satiriza o racismo nos Estados Unidos. Mas ele, de fato, deixa transbordar pequenas doses de transfobia no material dele. Homofobia também. E não tem como julgar o cara porque simplesmente nem toda pessoa trans ou gay se incomoda com isso. Ao mesmo tempo, a gente entra num paradoxo: se uma pessoa que faz parte de uma minoria não se incomoda, então está tudo bem? Eu não sei. Você me diz.

Agora, analise um cenário maior: o Dave gosta de chocar porque ele se alimenta um pouco disso. Essa controvérsia é o que gera a conversa. Ele tem uma piada num dos seus recentes especiais do Netflix que é bem simples, sobre uma noite em Detroit em que ele fumou muita maconha com o rapper Danny Brown, fez um show muito ruim e foi vaiado pela plateia. A plateia exigiu seu dinheiro de volta. Ele fala que não tem chances disso acontecer. "Eu sou como Evel Knievel: eu sou pago pela tentativa." Ele prossegue dizendo que ficou tão irritado com a cidade que gastou "metade do seu cachê comprando chicletes de madrugada para dar para os mendigos de Detroit terem o que mastigar — e mesmo assim passar fome!"

É uma piada. Ele não fez isso. Mas ele conta como fato. Você pode ficar irritado se acreditar muito nisso. Você pode ficar irritado se tem em algum nível uma relação próxima a população em situação de rua. Ou pode apenas rir se você leva o Dave tão a sério quanto o Pernalonga. Mas essa piada não ganhou muita atenção negativa.

Uma vez que o fato de que "Chappelle choca" está estabelecido — dentro dum exagero —, você pode esperar que as coisas vão ficar mais pesadas a partir daí. Sem dar muito spoiler, existe uma piada sobre esse suposto super-herói que ele diz ter inventado para um filme: ele salva prédios em chamas, combate o crime e tudo mais. Mas ele só recarrega os poderes ao tocar a vagina de alguma mulher estranha na rua — e ele não pode explicar o motivo. Ele pede "Moça, preciso dar um tapa na sua vagina bem rápido, por favor." Qualquer mulher negaria. Logo, o herói acaba estuprando mulheres para conseguir salvar o dia.

Pesado, não? Sim. E complicadíssimo. Mas tem centenas de mulheres que riem disso, você vê na plateia. E você vê o desconforto de algumas também.

Em defesa de Chappelle, a piada é baseada numa ironia de escrever certo por linhas tortas e também a super violência. E super violência pode ser engraçado. Eu rio muito da cena em que Mr Blonde dança ouvindo uma rádio que toca os hits dos anos 70 enquanto esquarteja um policial. Eu já ri diversas vezes do Kenny sendo trucidado em South Park.

Eu, como humorista, fazia piadas de estupro na adolescência. Eu nunca me encrenquei com isso. Pelo contrário, eu tinha e tenho um público feminino que comprava. Eu namorava duas minas — não ao mesmo tempo, ok — enquanto contava essas piadas. Minas confiantes, que não engoliam machismo. Mas achavam tudo bem as piadas. E eu nem as culpo nem uso como desculpa para esse meu material. Apenas nunca foi uma questão séria na minha vida porque todo mundo meio que entendia que era tudo parte dessa persona "Jason da Zona Norte Carioca" minha. Me irritava tudo que era certinho. Por exemplo, eu morava numa quebrada. Em vez de falar o óbvio, "hey, aqui ninguém é bandido", eu dizia que aqui "todos temos armas, aqui é um Shopping de Cocaína e eu mesmo só vou na padaria com minha Glock."

Eu não advogava pelo estupro e não, eu nunca abusei de nenhuma mina. Eram piadas. Mas preste atenção: eram piadas mas não eram piadas. Mas eram piadas. Era a vontade de estar errado. Eu implicava até com aquela versão mini do chocolate Bis com a raiva de quem está descrevendo ter levado uma surra dormindo. Já falo mais sobre isso.

Amy Schumer é outra comediante celebrada. Ela tem uma piada assim: "Eu costumava sair com mexicanos. Mas hoje em dia eu prefiro sexo consensual." Creio que por ela ser mulher, acho mais tranquilo uma piada sobre estupro. Mas a piada dela é racista e pronto, insinuando que mexicanos são estupradores. E é engraçado como esse raciocínio "mexicanos são estupradores" anos depois virou discurso do Donald Trump para sua bizarra plataforma de levantar um muro entre México e Estados Unidos. Ganha uma nova perspectiva, né? A piada fica estranha. Ela provavelmente retirou essa do repertório.

Uma curiosidade antes de voltar a falar sobre humor: Notorious BIG tinha uma linha em "Juicy" que era mais ou menos assim: "Vou estourar igual o World Trade Center". Sim, Big morreu bem antes do Osama Bin Laden mandar dois aviões para as Torres Gêmeas, mas em 1993 já havia um caso de atentado na garagem do WTC. Então quando houve o ataque de 11 de setembro, as rádios de Hip Hop que eventualmente tocavam esse clássico passaram a não tocar mais — por uns anos. Entende? Contexto importa.

Sarah Silverman é uma das minhas humoristas favoritas. No repertório dela existe muita coisa que eu adoro (ex: piadas de cocô) mas há um racismo eventual que sempre me fez coçar a cabeça. Ela está fazendo ali a persona da menina branca sem-noção — igual meu Jason —, mas você não sabe do que a plateia tá rindo: dela sendo boba ou de fato dos estereótipos raciais que ela apresenta ali.

Sarah de uns anos para cá deu uma acordada. Seu material ficou muito mais inteligente quando ela desencanou das piadas racistas. Sua comédia é mais real. Ela é muito mais talentosa hoje em dia do que já foi. Não por tirar o racismo, apenas porque uma vez que ela tirou a muleta do racismo, ela teve que fazer melhor. Ela acordou. Quais as consequências disso? Ela ganhou um novo público e o público dela antigo que ria das piadas racistas, das duas uma 1) Cresceram e aprenderam a apreciá-la mais assim; 2) passaram a atacá-la na Internet porque ela virou socialista globalista feminista abortista etc.

Eram piadas mas não eram piadas. Se passa a ser atacado porque tira do seu material algo nefasto, há algo nefasto no que seu público está absorvendo de você. Essa realidade me atingiu. No que eu volto a falar do meu limite no humor. O meu material machista antigo. Com o passar dos anos, eu fui conhecendo cada história que mexeu com minha cabeça. Eu fui me atentando ao meu público. Tinha caras e minas legais. Mas tinha uns caras que odiavam mulheres. Quando eu recebia um comentário machista me apoiando, eu pensei "tô no lado errado do baile."

Existe uma pergunta em inglês que os humoristas fazem quando contam uma piada pesada sobre algum assunto sinistro, seja a morte de uma celebridade, um ataque terrorista, qualquer coisa de grande comoção e há um constrangimento da plateia, eles dizem: "Too soon?" Ou seja: é muito cedo para brincar sobre isso ainda? Você não ouvia piadas sobre o World Trade Center nos programas de humor norte-americanos quando aconteceu. Refilmaram inclusive um trecho gigante de um episódio de Friends onde o casal Monica e Chandler se envolvia numa confusão porque Chandler fazia uma piada sobre bomba num aeroporto. O episódio foi gravado antes dos ataques. Mas não havia condições disso ir ao ar quando tudo que o mundo pensava era naquelas torres desmanchando em meio a fumaça.

No que a gente entra na estatística: a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Então toda piada de estupro é por definição, contada cedo demais. Contexto importa. A decisão de tirar do meu material essas piadas foi minha e como disse, nunca tive nenhum problema com meu público feminino basicamente porque elas sabiam que era dentro dum contexto lúdico por mais errado que fosse. Mas ainda assim, era errado por mais lúdico que fosse. Eu não queria servir de voz para o cara que realmente odeia mulheres e se valida numa piada minha.

As consequências disso? Eu ganhei um novo público e meu público antigo que ria das piadas machistas, das duas uma 1) cresceram e aprenderam a me apreciar mais assim; 2) passaram a me atacar na Internet porque eu virei — o insulto que eu mais gosto que eu ouço — ESCRAVOCETA. Quando eu vi isso acontecendo, eu fiquei feliz. Se o cara acha que o fato de eu tentar respeitar mulheres na minha comédia, me torna um "escravo da boceta", bom, eu acho que tudo bem com isso. Esse é meu limite.

O humor no Brasil acontece em várias frentes: TV a cabo, aberta, Internet, peças e cinema. Em sua maioria, infelizmente, ele serve como força reacionária. Sempre batendo em quem tá embaixo. Parece que vivemos numa geração inteira influenciada pelo Caco Antibes. Então na época com mais informação, com melhor tecnologia, onde poderíamos estar voando alto… estamos voando baixo e golpeando baixo. Enquanto humorista achar o máximo estar fazendo bullying e não material, não estamos preparados para passar de ano. O humorista brasileiro acha que é um cara durão porque ele "fala tudo aí que ninguém tem coragem" mas ele não passa dum aluno de quinta-série — um aluno que está há 10 anos repetindo "olha o preto, olha o gay, olha a vagabunda, olha como eu sou corajoso" e assim ele nunca passa de ano.

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