Aprendi a mijar como um homem

Por Kara Crabb

Para quem não sabe ler, nós até filmámos a experiência.

Oi miúdas, está tudo? Preparadas para esvaziar essas bexigas? Ah, esperem lá: não podem porque estão num sítio público e a vossa uretra está dentro da vossa vagina, que por sua vez está dentro das vossas calças, tipo, para sempre. Bem, felizmente para vocês, houve aí um pessoal que inventou um funil chamado GoGirl, é um aparelho revolucionário que vos irá ajudar em todas as vossas futuras mijadelas públicas. E só custa uns 40 euros!

Foi tão estranho dar de caras com esta cena precisamente na altura em que estava mesmo a falar sobre o quão estúpidas e merdosas são as mulheres. Quer dizer, estou a falar das questões básicas: estamos sempre a ser violadas, somos péssimas a matemática, escrevemos mal e, pior do que tudo, temos de fazer xixi SENTADAS. Argh, que pesadelo! Felizmente, funis como este GoGirl resolvem essa pequena desvantagem biológica ao permitir que as senhoras tenham a oportunidade de ter um pénis (bem, mais ou menos). Quer estejam a fazer ski, a acampar, a fazer montanhismo, ou a passear focas, não se esqueçam de trazer sempre convosco um destes dispositivos de micção para poderem sentir-se mais confortáveis, sabendo que podem sempre mijar à vontade.

Pessoalmente, não é que eu tenha um estilo de vida muito activo, mas sempre quis ser homem — não tanto quanto algumas pessoas, claro, até porque ainda não fiz nenhuma operação de mudança de sexo, mas o suficiente para me dar ao trabalho de sair de casa e comprar uma destas geringonças.



Mijar para dentro de um funil não é tão fácil como pode parecer inicialmente. Sem me querer gabar, já urinei em sítios públicos várias vezes ao longo da minha vida e é, de longe, mais fácil do que escoar o meu líquido amarelinho nojento para dentro de um cone roxo. Pela primeira vez na vida, sofri aquilo a que se chama normalmente de “bexiga tímida”, o que, por momentos, arruinou o meu sentimento de orgulho.

Lá encontrei maneira de me acalmar e consegui mijar à vontade. Reparem que me recusei a tirar as calças. Mijar fora da nossa zona de conforto é um dos atributos-chave da micção masculina — e algo que sempre invejei. Já fiz xixi nas calças tantas vezes que agora tenho uma óptima técnica no que diz respeito a relaxar e deixar a uretra à vontadinha. O meu sistema tem vindo a ser aperfeiçoado através de muitas tentativas e de muitos erros. Por isso, quando o funil é acrescentado a este processo, preciso de tomar a liberdade de usar calças. Caso contrário, estes avanços tecnológicos só estão a tentar captar os truques que já ensinei, previamente, à minha vagina.



Fixe. Cá estou eu a mijar em baixo de um crucifixo no centro do monte Royal, em Montreal. Porquê, perguntam vocês? Porque, como devem saber, se perguntarem a qualquer gaja o que faria se pudesse ser rapaz por um dia, a resposta será SEMPRE “mijar em _______”. Foi por isto que sempre ansiei durante a minha vida toda. Confesso que encaro isto como um grande avanço: usar calças e mijar ao pé de um crucifixo gigante. Contudo, isto é apenas uma pequena fracção de glória, quando comparado com o meu grande sonho de estar completamente nua a cagar no centro do Vaticano.

Ainda assim, procurei afincadamente um segundo local de mijo que pudesse evidenciar o meu ego masculino duramente reprimido.



Aqui estou eu, numa boa, a mijar, com vista para o telhado da Universidade McGill e, depois…



A minha urina escapou da boca do funil e começou a escorrer pelas minhas calças abaixo, quentinha como o sol de Verão. Para dizer a verdade, foi-me explicado que não deveria usar calças quando estivesse a utilizar este dispositivo de micção feminina. Mas, como já expliquei, acho isso uma tanga, por isso, e apesar de ter tido sorte na primeira tentativa, logisticamente falando, esta cena não faz o mínimo sentido. A menos que queiram estrangular a vossa vulva na tentativa de manter o funil no sítio, vão mijar por todo o lado, como uma miúda que tentou mijar em pé, com as calças vestidas.

No final de contas, acho que estou só um pouco confusa e tenho muitas perguntas para o pessoal que inventou este utensílio.



Por que raio é que alguma vez alguém quereria usar uma cena destas? É suposto guardá-lo na mala, como se fosse uma garrafa de mijo? Por que é tão complicado moldar o corpo feminino de forma a proporcionar bons momentos mictórios? E por que caraças é que um funil custa 40 euros? Quem são as mulheres que beneficiam com esta invenção? Serão demasiado velhas para se conseguirem agachar? Se calhar deviam ficar em casa, então. Será que quem inventou isto consegue realmente fazer dinheiro? Será que isto foi só uma piada? Como é que alguém pode estar tão apaixonado por esta ideia a ponto de investir na sua concretização? Será que os trabalhadores da fábrica que fez isto eram voluntários?

Resumindo e concluindo: houve uma vez em que me mijei pelas calças abaixo.

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